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Neto, o poeta em mim

Ana Mathaya (economista, teóologa e poetisa angolana)

Por ocasião dos 27 anos da independência de Angola, pediram-me pra escrever sobre Agostinho Neto, quase neguei uma tal missão até me dar conta de que existe um pedaço de Neto em mim. Assim, propus-me então a falar do Neto Poeta. Afinal Agostinho Neto usou a poesia como arma poderosa na luta pela independência, sustentando muitas vezes as esperanças de quem estava de caneta e facão em punho.

Tinha apenas 07 anos e já me debruçava sobre a mesa de meu velho pai, em busca do "Textos Africanos" - leitura obrigatória dos alunos do III nível naquela época. Aí, pela primeira vez tomei contacto com vários escritores - da prosa á poesia - tomei contacto com Agostinho Neto, o poeta!

Anos depois, vi-me impulsionada a iniciar uma corrida em busca do conhecimento da arte e da poesia feita em nosso negro continente e no mundo. Passei pela mão de professores cultos e inteligentes, tais como o ex-padre Pinto João Kiala, o saudoso professor Mesquita Lemos, este que lia como ninguém os poemas de Neto, e ainda meu próprio pai, com seus sermões marcados pelo estilo poético.

Com o passar dos anos optei pelas ciências quânticas, mas ainda assim, não deixei para trás o gosto pela palavra, pela poesia. Mergulhei no mundo sofrido de Florbela Espanca, na poesia geórgica do francês Jacques Milles (nascido senegalés), li Drummond, deleitei-me com as lamúrias do amigo Mayindu, conheci tantos outros poetas, mas de tudo isso a poesia de Neto foi a que mais me marcou.

Sempre repeti seus versos com prazer, e incorporei suas palavras em minha vivência. Como ele, brinquei nos arranhais ao meio dia, como ele, escrevi versos ao amigo Mussunda, mesmo sabendo que Mussunda não os entenderia. Ainda na leda infância, como Neto, caminhei no mato, e lá me deparei com o soldado desconhecido da humanidade, aquele de quem não se exigem glórias. Mas foi pensando em glórias que como Neto, atravessei o mato, passei pela fronteira do asfalto e enfrentei o mundo. Com Neto também aprendi a criar pureza e justiça dentro de mim e dar à humanidade os sorrisos que ela me pede.

O tempo passou, muita coisa mudou, tornei-me intima de vários poetas, e muito cedo vi-me provocada a escrevinhar meus próprios poemas, mas minha paixão pela poesia de Neto permaneceu intacta, e hoje quando me pedem pra falar do Guia Imortal, é inevitável separá-lo do Poeta Imortal cujos versos atravessaram Caxicane, passaram pelos bairros escuros dos pobres, cruzaram os Zaires e Calaaris e hoje se fazem presentes nos grandes centros de letras, no além mar.

A poesia que um dia alimentou a esperança do guerrilheiro em busca da independência, hoje continua alimentando as esperanças de milhares de angolanos espalhados pelo mundo - dentre eles eu! Continua acariciando sensibilidades, continua a falar aos corações, e é numa só voz, que do mundo se ouve o clamor,: "HAVEMOS DE VOLTAR!"

Voltar à terra onde nascemos, voltar a recriar justiça e pureza dentro nós, aí sim, seremos um povo independente, e quem sabe, como o Neto Poeta, não escrevamos todos juntos um poema solução: "...um poema que não sejam letras, mas sangue vivo em artérias pulsáteis de um universo matemático, e sejam astros cintilantes para calmas noites de invernos chuvosos e frios... amizade para corações odientos... cântico harmonioso para formosura dos homens..."!!!

Assim tem sido minha existência, trago Neto em mim, mais ainda: seus caminhos poéticos! E hoje depois de 27 anos, quando Angola lembra o Guia Imortal, pra mim é inevitável lembrar o poeta, homem simples nascido em Caxicane, que há quase 20 anos, daquela mesinha de meu pai, entrou para minha vida. Passados 23 anos de sua morte, sinto que o poeta permanece vivo, espalhando poesia pelo mundo! Ao lado da memória do político, do médico, não menos importante, permanece, e permanecerá a memória do POETA, com sua poesia sinônimo da busca de independência!!!

Ana Mathaya, Novembro de 2002
a_ mathaya@hotmail.com


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