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MÚSICA E ADORAÇÃO AFRICANAS NO BRASIL
Zakeu A. Zengo
O povo africano tem entre os seus traços mais peculiares o dom da música, mais propriamente do canto. Cantar é, para o espírito da África, o meio mais comum e tradicional de comunicar sentimentos, crenças e disposições da alma e do coração. A expressão dos sentimentos de natureza religiosa é uma das dimensões mais profundas do "cantochão" africano, desde as cantigas folclóricas às mais diversas formas da arte de comunicar através da música.
Mais recentemente o Afrogospel se despontou como expressão diferenciada do cântico e do hino apreciado no Brasil. Os cristãos em particular encontram na música a mesma alegria semelhante àquela que levou Davi a organizar um coral de mais de 400 instrumentistas, e a fim de poder dizer a Deus os mais profundos desejos de sua alma e da alma do seu povo. Cantar é, para os africanos também, uma prova próxima ao que de mais natural Deus nos dotou. Basta imaginar a façanha de um Coral angolano praticar o Messias de Handel em menos de três meses e ser depois aplaudido efusivamente, como aconteceu em 1993 com o famoso coral “Coceval” aqui no Brasil. E mais do que tudo isso, os africanos levam consigo o dom da música por onde quer que se dirijam neste planeta. Há corais de africanos aqui na Europa, inclusive com uma enorme fatia do mercado discográfico gospel. O mesmo é verdadeiro com relação a tão criteriosa América do Norte. Tudo o que os africanos têm a dizer de mais sincero e profundo, o fazem especialmente por intermédio da música.
No nosso querido Brasil evangélico, onde os africanos conseguem melhor se sentir em casa, nem sempre se reconhece esse traço e talento dos irmãos africanos. A isto concorrem talvez dois fatores. O primeiro tem a ver com o mau testemunho consignado por alguns grupos de origem africana que, cônscios da admiração que o rítmo africano suscita aos outros povos, se organizam de forma arbitrária e amadora, muitas vezes com o intuito de encetar o mercado da música evangélica. Seguindo o exemplo dos grupos nacionais, lançam-se na duvidosa aventura de cobrar prófitos por suas apresentações, exigem transporte e outras querelas inaceitáveis para quem apenas intenta glorificar a Deus. Junta-se a isso a muitas vezes presença de indivíduos sem compromisso com Deus, contribuindo mais ainda para lançar confusão e desfavor ao público sobre os demais grupos musicais e corais africanos. Como
pastor e africano, há muitos anos no Brasil, tive por muitas ocasiões e em lugares diferentes do imenso Brasil que dar contas sobre essa atitude repudiada por muitos irmãos e igrejas. Entretanto, Deus sabe como muito outros lançam mão desse dom como forma sincera de expressar fé, fidelidade e serviço diligente para a glória de Deus. Talvés a África dos angolanos não encante tanto hoje em dia, mas canta muito!O segundo fator é o fato de que a experiencia da multiculturalidade em nossas igrejas no Brasil recai sobre a barreira do conservadorismo preconceituoso, ainda acalentado na nossa religiosidade de matriz puritana e norte-americana. Os tambores, os atabaques, o rítimo e a dança que acompanham o canto africano costumam soar, para muitos crentes em nossas Igrejas, tão diabólica quanto as festividades dos centros de macumba e candomble dos terreiros do Brasil afora. Nada mais enganoso entretanto, especialmente se aceitamos que a Deus são devidas todas as formas de manifestação do nosso talento e a expressão do júbilo dele conseqüente. De fato, Deus não só transforma culturas, mas também transforma valores e talentos para usa-los em sua própria glorificação. Aleluias por isso!
Não é este o único motivo por detrás de toda a belíssima coletânia de hinos que é o livro de Salmos, que compreende hinos e cânticos que eram contados ao som de uma vastíssima variedade de instrumentos e ao rítimo de danças jubilosas? Tudo isso, muitas vezes paralelamente ao canto e a dança das gentes que celebravam a outros deuses, como aconteceu na Babilonia!
Sirvam tais palavras de incentivo para as lideranças de nossas igrejas no Brasil, a fim de busquem encourajar com apreço a adoração através da cultura africana, a ouvir a alma dos irmãos africanos através da música que lhes é peculiar e que, afinal, não é tão estranha à "alma" brasileira.
O segundo aspeto que cumpre esclarecer atina para uma das questões levantadas pelo maestro do “Coro Espiritual da Africa”, baseado em Sao Paulo, e veiculada nas páginas do Jornal Batista. Quando ele se refere a perseguição, espoliamento e homicídios de grupos angolanos por outros angolanos, ele não está evocando uma situação generalizada, comum ao povo angolano. De fato, dificilmente nossos conflitos nacionais podem ser justificados recorrendo-se a juizos tribalistas ou coisas do gênero. Acredito que, para muitos dos leitores do JB, esse aspecto chamou mais atenção que a essência da reportagem.
Fato é que a desventura mencionada deve-se principalmente, se não esclusivamente, ao agravamento das relações sociais submetidas a circunstâncias de dor, sofrimento e frustrações que acampam a realidade histórica da Angola pós-colonial. O retorno a Angola de todos aqueles que abandonaram o país por ocasião do conflito e dificuldades do período colonial, muitos dos quais com formação academica e profissional acima dos que não sairam do país, fez aumentar os níveis de competitividade pelas únicas e reduzidas alternativas de sobrevivância num país quebrado pela guerra e pela falta de serviços. Isto levou ao recrudescimento dos níveis de corrupção e exploração de uns sobre outros, reforçada pela capacidade e facilidade de mobilidade dos "regressados" com os negócios paralelos (levou o país ao fenômeno das 'praças', mercados livres em que tudo se compra, dependente de importação de bens para a qual os regressados se revelaram verdadeiros tigres). Estes negócios, por eles dominados, passaram a constituir o "primeiro setor" da economia angolana, do qual todos os angolanos nos centros urbanos passaram a depender para sobreviver. De fato, em certos centros urbanos angolanos o imaginario popular se apressou a responsabilizar também os repatriados pelo caos e corrupção social. Coincidente com a vinda a Luanda de grandes levas "regressados", desde os primeiros anos da década de 80, quadrilhas organizadas em torno de toda a sorte de negócios e corrupção (falsificação de documentos, dinheiro e papéis públicos, tráfico drogas e minérios preciosos, roubo e desmanche de automóveis, prostituição de luxo, etc) passaram a ser conhecidas também no país. E o fato de os "novos" angolanos dominarem esse setor levou ao desconforto e revolta velada de uma grande parte da sociedade, que também enxergou as "praças" e os "novos negócios" como responsáveis por toda a sorte de marginalidade social que, graças ao comércio paralelo, cresceu no país.
Em Luanda, quase que unicamente, esse problema levou a choques que, em meio aos conflitos sócio-armados de teor político, tem levado a saques e violência sobre muitos repatriados. Entretanto, em que pese mais essa infelicidade entre os varios infurtúnios na pátria dos angolananos, esse aspecto levantado pelo maestro Silva está longe daquilo que realmente dimensiona a causa que leva milhares de jovens e adultos a se buscar refúgio no exterior.
Encontram-se nestes dias intensificados os esforcos entre as partes armadas em conflito civil para colocar fim a guerra e dar início a reconstrução dos sonhos de paz e bem-estar de suas criancas, jovens e velhos. Aproveito, pois, para apelar ao público evangélico para intensificar suas orações em favor dessa nação irmã e querida do Brasil brasileiro, a fim de que esse momento crucial traga paz como resposta definitiva de Deus às oracoes do seu povo. E ao dividirem o pão e o cálice, lembrem-se também dos angolanos que morrem de fome e sede da Palavra de Deus.
Londres, março de 1997.