mito tribal

O MITO DO TRIBALISMO AFRICANO

©Zakeu A Zengo

Fulani, Mande, Asante, Hausa, Woodabe, Ga, Ovimbundo, Dogon, Yoruba, Baule, Wolof, Malinke, Berber, Woodabe. Embora descendendo da África, a grande maioria da população negra na diáspora desconhece os vários grupos étnicos que constituem o continente africano. Os descendentes eropeus, os brancos, em geral demonstram certo interesse em conhecer as suas raízes. A grande maioria da população branca brasileira, por exemplo, é capaz de traçar sua ascendência pátria, étnica e até mesmo familiar. Assim são os orientais também. Já com relação a população negra, a coisa muda de figura. Além da grande distância histórica que os separa do tempo em que seus antepassados escravos foram arrancados da sua terra, a África aparentemente nada se lhes oferece de glorioso capaz de provocar nos negros o interesse ou "nostalgia" pelas origens.

Outros fatores por detrás desse desinteresse tem a ver, naturalmente, com o problema da educação. A pobreza e a incultura, ou a baixa formação cultural, é responsável por essa sensação natural de "desenraizamento" que parece habitar o coração da negritude fora da África. Uma excepção talvez seja os negros americanos. Lá existe não só uma identidade negra, mas também uma certa consciência étnica que faz com que a comunidade negra viva reconciliada com a África, no discurso e nas atitudes. Inversamente ao que ocorre com relação as crianças de cor clara, cujas famílias se autodefinem como descendentes de eurpeus, em países como o Brasil, Costa Rica, Colômbia, etc., as crianças negras nada aprendem a respeito da história da sua raça e suas origens. Países como a França e os Estados Unidos, embora só recentemente, já fizeram da história de todos os ascestrais do seu povo uma disciplina obrigatória na educação colegial. Mas enquanto os descendentes europeus sabem e podem afirmar que o são, resta aos negros desses países o Brasil ou.... como referência final de sua identidade histórica. É verdade que todos aprendemos que os negros, fora da África, são descendentes de africanos escravos. Mas até que ponto essa informação ajuda os negros a densenvolver laços de identidade com a cultura, os costumes, a espiritualidade e a estética africanas?

Com efeito, países africanos, muitos dos quais impérios prósperos no passado, contando ainda hoje milhares de habitantes, têm sido referidos como tribos. Apenas muito raramente o mesmo termo é utilizado para descrever os conflitos e a diversidade dos grupos étnicos da Europa e América. Entretanto, como tivemos ocasião de constatar recentemente na guerra de Kosovo, as diferenças e desavenças históricas da Europa, tanto no passado quanto no presente, são tão etnicamente tribalistas como são hoje alguns conflitos na África.

Assim como na Europa e em outras regiões do mundo, os vários povos do continente africano são unificados pela lingua. Mesmo assim, no entanto, a diversidade étnica na África gira em torno de discussões tribalistas. No lugar de grupos linguísticos, de povos ou etnias, como de fato são os diversos povos que constituem o continente africano, usam-se termos como "tribo" para designa-los. Por que? Por que os africanos são referidos como tribos? Qual é acuracidade histórica de tal noção?

O idéia de tribo, tal como é utilizada hoje entre os estudiosos e escritores no ocidente, não passa na verdade de uma tentativa de reduzir a complexidade das sociedades não-ocidentais da África, da Ásia e das Américas para os leitores. Como conceito com densidade científica, a noção de tribo só foi desenvolvida recentemente, especificamente durante o levante das teorias racistas e evolucionistas do século XIX. Nestas, era utilizado como designante dos povos não-brancos, vistos como raças inferiores, incivilizados, que ainda não tinham evoluído dos estado simples e primitivo. Hegel, Hobbes e outros pensadores modernos usaram o conceito de tribalismo neste sentido.

Seu uso mais freqüente, no entanto, acontece hoje sobretudo na antropologia, com uma variedade de definições que, a rigor, atrapalham mais os estudiosos desatentos que os ajuda. Um dos antropólogos de maior destaque no estudo das sociedades tradicionais, Morton H. Fried, chega a defender numa de suas obras que, de tão ambíguo e confuso, o termo "tribo" deveria ser banido do léxico da antropologia, e que os cientistas sociais deveriam fazer o máximo para abandoná-lo de vez, em favor de outras formas de classificação das sociedades tradicionais.

Mas mais do que o uso antropológico, é o uso político do termo, feito por alguns países africanos e algumas personalidades políticas, que tem vindo a comprometer a sua racionalidade. Em muitos países ao sul da África, movimentos políticos têm utilizado a idéia de tribo para legitimar suas reivindicações nacionalistas. Muito mais por causa deste fato, a imprensa mundial continua utilizando o conceito como sinônimo de povos desorganizados e primitivos. Movimentos de resistência nacionalista na África como a ZAPU ou ZANU (Frente Patriótica Zimbabweana), a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), INCATA (Partido dos nacionalistas zulus da África do Sul) etc., são por isso classificados pela mídia ocidental como movimentos ou partidos tribalistas.

O que é, afinal, uma tribo? O que é tribalismo? Como entender as questões político-religiosas comumente associadas com a idéia de tribo na África?

Em 1997 o masacre dos Tutsi pelos Hutu, em Rwanda, trouxe de volta a concepção de tribalismo na mídia mundial, relativamente a organização das nacionalidades africanas. Veicularam juntamente depois que a violência na África do Sul, antes de 26 de Abril de 1994, data das primeiras eleições livres e democráticas naquele país, era um conflito tribal entre o povo Zulu e as outras etnias.

Walter Rodney, um ativista político de Guyana, explica no seu livro "How Europe Underdeveloped Africa" que a noção de tribalismo africano, no sentido clássico e corriqueiro com que é utilizado no ocidente, é produto da época colonial. Para ele, essa "idéia colonial" transformou-se em doença que hoje corroi as entranhas do continente africano, jogando-o num político. Vejamos como ele se justifica:

"Uma das mais importantes manifestações do vilipêndio e estagnação histórica na África colonial é aquela que emerge sob o termo "tribalismo". Este termo, no seu sentido jornalístico usual, é entendido como significando que os africanos tendem antes a submeter-se a tribo do que a nação, e que cada tribo ainda é detentora de uma hostilidade fundamental para com as tribos suas vizinhas. A imprensa capitalista e burguesa toma como exemplo a Nigéria e o Congo. Dizem que os europeus tentaram criar uma nação a partir dos povos da Nigéria e do Congo, mas fracassaram porque as várias tribos tinham suas longas disputas de ódio e hostilidade e, tão logo que eles deixaram o continente, os nativos voltaram a matar-se uns aos outros. A este fenômeno, os europeus geralmente acrescentam a palavra "atavism", para insinuar que os africanos estavam retornando à sua selvageria primitiva. No entanto, até mesmo uma pesquisa menor sobre o passado africano mostraria que tais asserções são o exato oposto da verdade. É necessário discutir primeiramente o que uma tribo significa - um termo que será evitado nesta análise, em parte porque ele sempre comporta conotações derrogatórias, e em parte por causa da sua vagueza e pela forma imprópria com que é empregada na literatura ocidental sobre a África".

Seguindo o princípio básico da vida em família, os africanos eram organizados em grupos que comparilhavam a mesma ancestralidade, a mesma religião, a mesma língua e os mesmos costumes específicos do quotidiano da vida. Mas é a história das origens (consaguinidade) que determinava a unidade da tribo. A extensão do grupo resistia à desunião e pulverização da identidade graças as peculiaridades folklóricas, além da língua, usos e costumes do grupo por longas gerações. Além disso, os membros de uma tribo constituam nalguns casos a mesma unidade política e, usualmente, identificavam-se com os mesmos interesses humanos na forma de organização social e política (agricultura, caça, pesca, guerra, nomadismo, pecuária, etc.). Apenas em estágios mais avançados algumas nações passaram a integrar grupos étnicos de identidades cultural e linguística díspares, o que também contribuiu para o surgimento de estados tradiconais, mesmo antes da ocupação européia, com uma amálgama de membros de diferentes comunidades étnicas. É a partir desse estágio que agrupamentos tribais passaram a se transformar em nações multitribais.

Todos os maiores estados da África do século XIX eram multi-étnicas e sua expansão continuamente ia fazendo de coisas como a "fidelidade tribal" algo do passado, sendo substituidos pela organização nancional e relação de classes. Contudo, em todo o mundo, substituir as relações nacionais e de classe por outras puramente étnicas comporta um longo processo histórico e, invariavelmente, sempre permaneceram bolsões regionais de indivíduos que, por longos tempos, permanecem fiéis ao seu provincianismo, identidade regional, relações tradicionais de poder, linguagem e cultura. Ao destruir as instituições tradicionais de poder, o que o colonialismo europeu fez foi bloquear essa natural evolução das nações africanas, que eram os principais agentes da manutenção das alianças inter-tribais.

As diferenças lingüisticas e culturais presentes nas sociedades africanas remetem primordialmente a uma diversidade de povos que o sistema colonial europeu, desconhecendo-a ou ignorando-a, confinou nos mesmos espaços geográficos e os obrigou a coexistir forçadamente durante a partilha geográfica do continente. Embora constituísse grave lesão à consciência de povo e de suas hegemonias históricas, as "tribos" então dominadas não tiveram problema em acomodar-se à nova realidade naqueles primórdios da descoberta e colonização do continente. Foi possível por muitos séculos a acomodação no mesmo espaço geográfico, as novas "nações" demarcadas pelos europeus, mas jamais o foi com relação as línguas, as tradições, os usos e costumes peculiares de cada grupo.

Depois da conquista de autonomia pelos estados africanos, a partilha do poder e do controle dos interesses nacionais tornou inevitável um "choque de poder" entre as autoridades "tradicionais" que representavam as diversas etnias. Assim, a divisão do poder nestes países passou a representar também a luta das etnias, em vista da reconquista e reabilitação das soberanias e hegemonias históricas e tradicionais, por muitos séculos sufocadas pela tirania colonial.

Na grande maioria dos países em que este conflito se tornou inevitável e mais evidente, as condições de organização político-partidária são particularmente determinadas por esse conflito. Os partidos políticos na África do Sul, na Nigéria, no Congo, na Argélia, na Zâmbia, no Zimbabwe... refeletem essas divisões étnicas no conjunto da sociedade. As identidades religiosa, linguística e regional determinam, nesses países, a base representantiva de cada partido que qualquer outro fator econômico ou social. Isto é evidente ainda pela existência, na maioria desses países, de fações e movimentos que lutam para isolar regiões quase sempre identificados com história de uma etnia. Guerras civis de natureza separatista existem hoje em Angola, na Etiopia, na Nigéria, na África do Sul, em Rwanda, na Argélia, etc.

É esta etnicidade da atual geopolítica africana, além dos conflitos sócio-religiosos nos estados africanos, que prossegue erroneamente sendo classificada e nomeada de tribalismo. Trata-se de um erro renitente que tem de ser combatido hoje do discurso oficial dos governos, da imprensa e do universo acadêmico, para que a África deixe de ser o reino da confusão tribalista, confusa e ingênua, em que o imperialismo ocidental a encarcerou. A este respeito, não é demais recordar um dos ensinamentos oportunos do lendário líder religioso chinês, Confúcio. Nos seus "Anacletos" ele ensina que quando os termos não são usados com correção, a linguagem nunca estará em conformidade com a verdade dos fatos. Pela mesma razão, dizia, se a linguagem não for conforme a verdade das coisas, os negócios humanos jamais serão conduzidos com sucesso. Chamar os conflitos africanos de tribalistas tem levado muitos governos do ocidente a adotar políticas injustas para com os estados africanos. O fato tem levado ainda os estudantes e a opinião pública em geral a acreditar em coisas que são, via de fato, completamente incompatíveis com a verdade sobre os povos da África. Considerar um movimento religioso, político ou social africanos simplesmente como tribal, significa subestimar a sua força e jamais poder compreender a sua causa.

Muitos governos africanos pregam o fim do "tribalismo" na África, este significando a tendência de alguns grupos e movimentos nacionalistas esclarecidos a utilizar as origens lingüísticas e étnicas como estratégia para usurpaçção de poder e autoridade. Mais ainda, o grande erro da conotação tribalista para os conflitos da África está no fato de nela se rotular pequenos grupos de caçadores nômades, com pouco mais de 100 pessoas, e grupos multinacionais (os Fulani, por exemplo) com milhões de pessoas, como tribos, respetivamente. Nem mesmo no período pré-colonial a idéia de tribo apresentava qualquer vitalidade. Portanto, a idéia de tribo como tradicionalmente é atribuida a África tem muito menos legitimidade hoje em dia.

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