O MATERIALISMO DE GASTON BACHELARD, COM REFERENCIA A MARX

O MATERIALISMO COMO PONTO DE PARTIDA PARA A TEORIA GNOSIOLÓGICA DE GASTON BACHELARD, COM REFERÊNCIA A TEORIA DE KARL MARX

©Zakeu A. Zengo

1. observações importantes; 2. Sobre a atitude precursora da epistemologia bachelardiana; 2.1- O Bachelard entre Newton e Einstein; 3. O Materialismo como ponto de partida da gnosiologia bachelardiana; 4. Conclusão: sobre a especificidade da noção de matéria em Bachelard. 5. Referências Bibliográficas

1. À guisa de Introdução. Observações importantes.

O materialismo de Bachelard constitui uma das facetas mais controvertidas do seu pensamento, não apenas em razão da especificidade dos seus argumentos, mas sobretudo por causa de sua atitude metodológica da “negação” dos sistemas e tradições anteriores. É ainda por causa desses dois aspetos que se torna difícil a tarefa de cotejar, aproximar ou coligar sua doutrina do materialismo com aquela desenvolvida por Marx.

Entretanto, parece justo tentar tal aproximação sob alguns aspectos. A meu ver, o aspeto em que tal aproximação seria mais fecundo é a gnosiologia, não já enquanto uma epistemologia/metodologia [1] , mas enquanto teoria do conhecimento ou investigação acerca das origens, da natureza, do valor e dos limites da faculdade de conhecer e como esta pode conhecer a realidade para além dela.

Como ponto de partida impõem-se os seguintes esclarecimentos:

1) Por causa da insuficiência de uma bibliografia capaz de viabilizar uma pesquisa deste alcance, tentarei apenas, neste trabalho que considero uma etapa inicial de um estudo que poder ser continuado, construir uma compreensão a respeito do que vem a ser a doutrina do materialismo em Bachelard, e qual é o papel que ela representa na sua possível teoria do conhecimento. Neste sentido, a aproximação desse seu materialismo com o materialismo gnosiológico marxiano aparecerá, por assim dizer, apenas nas entrelinhas.

2) O materialismo bachelardiano é aqui considerado apenas na perspectiva gnosiológica, mais propriamente no sentido de que a matéria é o dado primordial, a instância original a partir do qual o pensamento racional opera toda a apreensão e percepção do real conhecível [2] . Isto quer dizer basicamente duas coisas: a) que a razão é material, isto é, só pode agir/conhecer por causa da matéria; e b) que só materializada a realidade se oferece à faculdade da razão como conteúdo/“alguma coisa”, cujo valor, razões e significado podem ser precisados física (=ciência) ou “metafisicamente” (=filosofia teórica) pelo ser cognoscente [3] , segundo quais forem as razões que o incitam a conhecer.

Nesse sentido, quero chegar a precisar que em Bachelard o materialismo ultrapassa as experiências de laboratórios (=materialismo racional, construído) na prática científica contemporânea, cujo valor que a elas atribuía é usualmente tomado por motivo para classificá-lo como materialista.

3) Parto ainda da idéia de que não há, em absoluto, diferença fundamental entre as noções de matéria e mundo em Bachelard, tomados como conceitos constitutivos e não representativos.

Nesse sentido, e apenas do ponto de vista gnosiológico, é possível afirmar de antemão que não há diferença radical entre a doutrina do materialismo em Bachelard e o materialismo marxista; mas, essa aproximação de significado, por não ser categorial, não implica em afirmar igualmente que Bachelard é marxista, mesmo quanto a própria noção de matéria.

4) O materialismo bachelardiano é, como em Marx, apenas constitutivo; mas não é, como em Marx, destruidor do espírito. Por isso, enquanto Marx abre totalmente mão do idealismo metafísico (hegeliano), Bachelard une seu materialismo ao idealismo, sobretudo na instância da arte (cf. Poética). E enquanto em Marx a arte imita o  mundo em sua objetividade e seus fenômenos concretos, em Bachelard a arte nasce como produto da provocação/resistência da matéria do mundo sobre a imaginação do homem, a partir dele criando ou antes recriando novos mundos de “sobre-matéria” (=imaginação criadora).

5) Por outro lado, a noção de progresso/dialética em Bachelard, importante para o materialismo de feitura marxista, se incompatibiliza com esta última. Primeiro porque enquanto Bachelard define a Dialética ora como “negação” [4] , ora como diálogo ou cooperação entre partes antitéticas [5] , ela é em Marx oposição de contrários e funda a necessidade da superação não cumuladora. Nisto consiste o progresso.

Nesse sentido, faz mais sentido dizer que a verdadeira “dialética do não” é a do Marx, posto que é ela, e não a de Bachelard, que admite a roptura, a descontinuidade absoluta entre as diferenças na história. Bachelard, pelo contrário, pressupõe, tanto na sua idéia de progresso quanto na de descontinuidade, a noção de “cumulação”, de interação, de diálogo em vista de sínteses que são uma renovação. No seu Ensaio sobre o Conhecimento aproximado Bachelard considera o “inacabamento” fundamental do conhecimento como o principal postulado de sua epistemologia:

O conhecimento em movimento é assim um modo de criação contínua? O antigo explica o novo e o assimila; vice-versa, o novo reafirma o antigo e o reorganiza [...]. O passado, o antecedente é [...] o material da explicação. Esta inflexão do passado do espírito, sob a solicitação de um real inesgotável, constitui o elemento do conhecimento [6] .

Aqui se manifesta mais uma diferença entre ele e Marx. Este considerava que o movimento do pensamento não é mais do que a reflexão sobre o movimento real em benefício do homem [7] ; já para Bachelard a dialética trata da racionalidade inerente às coisas mesmas: “la dialectisation d’une notion prouve, à nous yeaux, le caractére rationel de cette notion. On ne dialectise pas un réalisme [8] . Ademais, em flagrante oposição com Marx, a grande conhecedora de Bachelard, prof. Marly Bulcão, observa que

Bachelard mostra que a dialética não é um simples jogo de contrários; mas sim um desenvolvimento das bases, pois não há destruição do passado que, de certa forma, permanece contido no presente. Retomando os três sentidos que constatamos nas obras bachelardianas, ou seja, o de dialética como diálogo, o de dialética como cooperação de pólos opostos e o de dialética como negação, podemos concluir que nenhum desses sentidos deve ser compreendido como oposição de termos contraditórios. No caso de dialética como diálogo e no caso de dialética como cooperação de pólos opostos, pode-se notar o sentido de complementariedade, apesar de haver confronto de idéias, pois, na medida em que há trocas recíprocas, um pólo sempre complementa o outro e vice-versa. No caso de dialética como negação também está claro que não há nem contradição e nem negação total, pois o que há é conservação e envolvimento de idéias [9] .

Exatamente por isso, para Bachelard só podemos despertar do mundo que está “em profundo estado de sonho” (Marx diria “em... alienação”) graças ao diálogo com as outras pessoas, graças a um “encontro” que pode ser considerado como a “síntese” do acontecimento e do eterno. Nisto consistiria o progresso.

Marx, ao invés, a única maneira de superar a alienação do mundo humano estaria na intensificação do “choque dialético” entre a tese e sua antítese, levando à síntese em forma de progresso, isto graças à sua vitória, ao “massacre” total das causas da alienação e seus representantes.

Para Bachelard: “despertar o mundo, eis a coragem da existência”; para Marx: “transformar o mundo”, eis o que importa à existência. Essa coragem é, para Bachelard, o trabalho da pesquisa e da invenção da comunidade científica [10] . E a transformação é, para Marx, a luta das partes (classes) dominadas e oprimidas, submetidas a alienação, em vista de sua redenção verdadeira. Desse modo, talvez a única compatibilidade na noção de progresso decorrente dessas duas doutrinas materialistas, estaria numa expressão cunhada por Japiassu a respeito daquilo que vem a ser “coragem da existência” em Bachelard: “o essencial é que permaneçamos sempre em estado de apetite” [11] .

6) Finalmente, entendo ainda, quanto a doutrina do materialismo como teoria do conhecimento, que Bachelard é, como Marx, um realista. No sentido de que sua doutrina pressupõe “certa” identidade fundamental entre natureza, entendida como realidade material, e razão. Esta assunção faz eco à justificação em 2a). Contudo, o realismo de Bachelard recusa o pressuposto marxiano de que a tarefa do cientista consiste em descobrir as leis e as regularidades existentes nela. Ao invés para Bachelard, por causa de sua recusa de todo o racionalismo determinista (cartesianismo), e no que seria sua atitude neopositivista, o papel do cientista no novo espírito científico consiste em inventar leis não só para descrever os fenômenos da natureza, mas também para construir inventando novos fenômenos da realidade [12] .

Essa atitude pode ser localizada no novo Realismo do século XVIII, que ressurge do velho Realismo deísta-cartesiano do século precedente, o determinismo. Com efeito, no século XVIII filósofos como Diderot e cientistas como Laplace, já dispensavam em suas pesquisas a hipótese do determinismo divino, passando a sustentar uma via intermediária que considerava que todo o fenômeno resulta de um encadeamento mais ou menos grande de efeitos e de causas (que também podem ser construídas, como em Bachelard) que só não podemos conhecer devido a complexidade do real, ou à ignorância momentânea (Bachelard) ou sustentada da ciência.

Em nossa comparação em curso, Marx se posiciona mais ao lado de Laplace, que dizia que todo o conhecimento de qualquer natureza, é efeito de uma causa e causa de um efeito. O que em outras palavras quer dizer: conhecendo o estado de um sistema em um momento dado, podemos, nos limites definidos por uma circunstância necessária, e por um estado histórico do conhecimento, prever com toda a certeza seu estado ulterior. Foi assim que Marx justificou a plausibilidade do estado comunista. E é por essa razão que o “realismo marxiano” é determinista. [13]

Ao invés, Bachelard só é realista até o ponto em que o Realismo funda o conhecimento na fé numa realidade física definida, que existiria mesmo se não houvesse um observador, mas que se torna acessível à pesquisa científica, ao conhecimento quantitativo e ao cálculo. E foi certamente em Einstein que ele encontrou as luzes para essa viés.

Com efeito, à semelhança do que Bachelard faria depois, Einstein lançou as bases para a desconfiança tanto com o racionalismo ingênuo do determinismo cartesiano, quanto do materialismo macanicista conseqüente. No novo espírito científico podemos dizer que Einsteim foi o primeiro cientista a escapar dessas duas atitudes extremadas (que Bachelard proscreverá do que constatou ser o novo espírito científico), defendendo, por seu turno, que a gênese das teorias do conhecimento não depende exclusivamente da lógica ou da epistemologia, mas também de outras formas do conhecimento como a Psicologia e a Sociologia. Bachelard virá a ser, nessa viés, o epistemólogo que melhor representa essa visão construtivista do real e a da ciência, que Einstein já reconheceu.

2. Atitude precursora da epistemologia bachelardiana

A compreensão do contexto histórico respectivo é o melhor ponto de partida para se entender as idéias e a atitude prática de um pensador. É no confronto com os problemas do seu tempo que o filósofo se impõe; e é na teoria e nos métodos coetânios que a prática científica dimensiona a sua grandeza. E com Bachelard não poderia ter sido diferente.

 Na busca desse elo com o seu tempo, deixarei intencionalmente de lado as idéias e o lugar que os seus influenciadores mais diretos ocupam no seu sistema, e tentarei apenas traçar os caminhos da mudança paradigmática em que se insere as suas atitudes epistemológica e científica, na intenção humilde de tentar estabelecer, primeiro, os limites de sua originalidade e, segundo, o estatuto e o lugar que o princípio da matéria ocupa na sua gnosiologia. E, conforme já afirmei acima, comparar (antes que confrontar) depois esse princípio com aquele desenvolvido no materialismo de Karl Marx.

Como é sabido, Bachelard não é o fundador do novo espírito científico de que ele é uma das principais figuras na história das idéias contemporâneas. Antes de esclarecer isto, convém talvez que nos recordemos que o âmbito crítico no qual Bachelard inscreve suas idéias pertence à história do passado do que do presente.

Com efeito, entre os séculos XIX e os começos do século XX, a filosofia ocidental surgiu dividida em duas grandes correntes opostas uma à outra, cuja polêmica constante pode ser facilmente estabelecida na literatura científica e filosófica desse período. De um lado estava o positivismo ou materialismo, e do outro lado estava o idealismo. A primeira é de origem aristotélica-cartesiana, e representava a filosofia que identificava a única realidade com a matéria, sustentando que até o próprio espírito é matéria; a segunda é sobretudo mais hegeliana, e considerava que a única realidade é o espírito e que a própria matéria é espírito.

Mas o aspeto mais importante desse antagonismo, que é a causa das diferentes atitudes contemporâneas comprometidas com esse passado, está na idéia de “movimento” associado à história e aos fenômenos na natureza. Mas as duas tendências compartilhavam uma ambição comum, que era “a de deduzir de uma entidade única e simples - a Matéria ou o Espírito - toda a realidade, e as manifestações dessa entidade todos os acontecimentos e vicissitudes do mundo” [14] . As duas filosofias, digamos, vislumbravam um processo único e contínuo que os articulava necessariamente e os orientava inelutavelmente no sentido do progresso.

O idealismo encontrou na “dialética” dos contrários a explicação desse processo; o materialismo ofereceu diferentes explicações para as transformações na natureza e no mundo, sendo as mais importantes o determinismo, com Descartes e os deístas,  o positivismo e, finalmente, o materialismo dialético (e não o histórico, necessariamente) com Marx e os marxistas. O mais importante é que depois de Descartes e dos deístas ingleses todo o racionalismo moderno tendia a aceitar o fato do dinamismo da vida e da realidade no universo. A fenomenologia fez essa via. E esse espírito foi determinante na virada científica antes do início do século XX. “A fé no progresso em todos os campos - na natureza, na vida, na sociedade e em todos os aspetos da cultura - animava as filosofias racionalistas e idealistas, e encontrava-se universalmente difundida mesmo no exterior do campo filosófico” [15] .

Além disso, no período histórico em que Bachelard viveu, pelo menos três grandes correntes dominavam a filosofia na França: o positivismo empirista e científico, de origem comteiana, o idealismo crítico, de inspiração kantinana, e o espiritualismo. Muito embora tenha frequentemente citado em suas obras os positivistas empiristas/cientistas, foi sobretudo à segunda corrente, na medida em que estava preocupada com a crítica das ciências e com o racionalismo crítico, que Bachelard vai se filiar. Aliás, grande parte dos críticos epistemólogos desse período se filiarão a essa corrente [16] . Da corrente do espiritualismo apenas Bergson, com sua preocupação com os problemas do tempo, do conhecimento e com sua antropologia metafísica, despertará certo interesse a Bachelard [17] .

O fator comum é que todas essas correntes se preocupavam com a evolução do conhecimento. Discutiam-se as relações entre o sujeito cognoscente e o mundo, ressaltando-se a ênfase na idéia de que filosofar é conhecer a coisa em si, que a verdadeira realidade é a relação, posto que o mundo objetivo é uma hierarquia de relações. Nesse espírito, era necessário superar a dialética pela negação, de Hegel, para uma dialética de correlações, conforme a estrutura fundamental da realidade. Conhecer,  então, tinha de ser visto como construção, um esforço humano para alcançar a harmonia concebida pelo espírito e inscrita no coração das coisas no mundo [18] .

Bachelard (1884-1962) é, como a grande parte dos pensadores e cientistas do seu tempo, herdeiro desse espírito. O contexto histórico no qual sua epistemologia está inserida é de sensível mudança de atitude não só do caráter efetivo da compreensão racional da realidade, mas e sobretudo da própria racionalidade aplicada. E as raízes remotas e coetâneas desse “novo” espírito podem ser traçados, particularmente em relação a sua epistemologia, a partir de Newton e Einstein.

2.1- O Bachelard entre Newton e Einstein

A física de Einstein (1879-1955), o físico alemão contemporâneo de Bachelard, constitui a segunda viragem crítica da ciência no mundo ocidental. A primeira foi  a que, iniciada por Galileu, culminou na obra de Newton [19] .  Com Galileu a ciência, mormente a da natureza, havia se dado conta pela primeira vez de que os meios de indagação de que dispõe são “as experiências sensatas” e as “demonstrações necessárias”. Enquanto as primeiras serviam para revelar os fatos, as segundas estabelecem as relações (as leis), ainda tidas como imutáveis, entre os fatos ou fenômenos.

Mas Einstein percebeu que os poderes cognitivos do homem não podem ser fixados nas categorias imutáveis que Kant considerava como as condições subjetivas de todo o conhecimento válido. Ao provar a equivalência da massa e energia, e ao relativizar as coordenadas espaço-tempo em que Kant havia aprisionado as possibilidades da formação do saber, Einstein acabara de inaugurar o “novo” espírito científico, no qual

O jogo da ciência é feito de regras que podem e devem variar sempre, que tratem de garantir a ordem que consente a previsão e a utilização de acontecimentos. Mas para poderem variar, os poderes intelectuais do homem têm que ser fluídos, susceptíveis de se adaptarem as novas circunstâncias, capazes de forjarem instrumentos de cálculo e de expressão dotados de uma eficácia sempre renovada. [20]

Quanto a acima referida lei das “demonstrações necessárias” (em oposição as leis das “experiências sensatas” dos fatos), um princípio no qual se identifica o pensamento de Bachelard, foi a física newtonianana que com sua teoria da gravitação universal, deu esse ponto de partida. Com ela, a ciência moderna deu seus passos para uma direção que queria estabelecer as relações imutáveis entre os fatos ou fenômenos [21] ; e com ela a ciência contemporânea renunciou a toda a explicação metafísica dos fenômenos.

A partir desse momento, “toda a coisa não dedutível dos fenômenos é chamada de hipótese, e na filosofia experimental não têm lugar as hipóteses quer metafísicas, quer físicas, quer de qualidades ocultas, quer mecânicas. Nesta filosofia as proposições são deduzidas dos fenômenos e generalizados por indução” [22] . Quer dizer, o conhecimento é inteiramente reorganizado no sentido de que o que antes eram fenômenos tornam-se hipóteses e, graças a dedução indutiva, para a nova ciência essas hipóteses devem ser vistos como o próprio fenômeno, passível de demonstração e generalização por meio do experimento instrumentalizado. De fato embora Newton ainda mantivesse que a ordem da natureza é uma ordem mecânica, reconhece no entanto que suas leis inerentes não só são “instáveis”, como também seriam demonstráveis com o auxílio da técnica.

Podemos dizer que aí está o luzir dos primeiros raios que constituem os fundamentos do “novo espírito científico”. Embora se inclinasse a negar alguns pressupostos do pensamento de Newton (a lei da atração dos corpos, por exemplo), que ele considerou como “um tipo maravilhosamente transparente de pensamento fechado” [23] , e embora também negasse também que o mundo neewtoniano prefigurasse o mundo einsteiniano em suas grandes linhas, Bachelard partiu da lei de indução de Newton e atravé

s dela, via Einstein, chegou a concluir que “o mundo é então menos nossa representação do que nossa verificação” [24] . Por isso Canguilhem vai classificar o movimento indutivo como definição da dialética em Bachelard:  “O que Bachelard chama de dialética é o movimento indutivo que reorganiza o saber, alargando suas bases, no qual a negação dos conceitos e dos axiomas não é senão um aspeto de sua generalização” [25] .

Com Newton o conhecimento da ordem mecânica do mundo só era válido para tornar possível a utilização das leis “ocultas” que a regulam, em proveito humano. Por isso, desde Newton a ciência tem se orientado para a instauração e a extensão deste domínio, isto é, seu progresso e seu valor. Com ele tinha terminando a aliança entre conhecimento e metafísica, e começava a aliança entre a ciência e a tecnologia, ao cujo domínio Bachelard se inscreve basicamente irrestritamente, com uma multidão de “nãos” à quase tudo o que está em relação de dependência gnosiológica com a primeira aliança.

Newton não é pai legítimo da atitude especificamente bachelardiana, mas é-o ilegitimamente de sua atitude típica. Ao sabor de Bachelard podemos dizer que apenas faltou às teses de Newton a transparência e o dinamismo que só Einstein logrou captar. O novo espírito científico não sobreviveria à natureza absoluta da noção de espaço e tempo newtoniano. Seu pressuposto de que existe um tempo absoluto, que flui uniformemente, e  um espaço absoluto, permanente, imóvel e sempre idêntico, é de fato não só estranho mas também condenável no bachelardianismo e no seu método epistemológico.

E por que a via de Einstein? Einstein afirmou, primeiro, a necessidade de se levar em conta o caráter específico do método através do qual um fenômeno físico pode ser verificado e medido [26] .  Este método implicava a utilização de certos instrumentos adequados na realização da observação e na construção dos fenômenos, efetuados sob determinando ponto de vista em que espaço e tempo são noções meramente relativos.

Aliás, com a relatividade do espaço e do tempo, são também relativas todas as entidades físicas em cuja determinação estão implícitos os fenômenos pelos quais se conhece, por construção, a realidade: o volume, a massa, a aceleração, a força magnética, a carga elétrica, etc. Em Einstein, assim como o é em Bachelard, o saber é construído; e o único método de observação dos fenômenos físicos é o instrumento, e para Einstein a relatividade do espaço e tempo é uma conseqüência inevitável da exigência de levar em conta esses instrumentos [27] . Os instrumentos colocam o observador diante de leis matemáticas, leis que não têm semelhança com os fenômenos físicos imediatos a que se referem. Desse modo os conceitos da “nova ciência” não descrevem os acontecimentos naturais, mas apenas permitem enquadrá-los num sistema de leis que nos fazem ver sua ordem e nos permite sua previsão. E “a ordem, que o sistema dá aos acontecimentos, não é diretamente perceptível: é abstrata e assenta unicamente em leis matemáticas” [28] .

A segunda contribuição de Einstein a atitude gnosiológica de Bachelard decorre de sua reforma da física pela qual eliminou a força da gravidade, atribuindo os movimentos gravitacionais apenas à uma curvatura do espaço-tempo. É nesta idéia que se funda o caráter específico do materialismo bachelardiano.

Com efeito, Einstein concluíra que “os corpos já não são realidade diferentes da força que os move nem do espaço em que se movem, mas apenas pontos nos quais a intensidade da força é maior”. Logo, o campo de ação da força torna-se a verdadeira realidade e as leis matemáticas que o governam tornam-se igualmente aplicáveis não apenas aos movimentos dos planetas, mas também ao das partículas subatómicas. A matéria deixa então de ser substancialista, e torna também uma realidade não-perceptível e calculável por meio de fórmulas cujo significado se esgota na sua capacidade de prever os acontecimentos ou, como seria de dizer de Bachelard, na sua capacidade de construir os fênomenos que constituem o verdadeiro conhecimento no novo espírito científico.

3. Materialismo, o ponto de partida da gnosiologia bachelardiana.

A intenção desta seção é tentar estabelecer o caráter materialista da teoria do conhecimento possível em Bachelard, e tentar asseverar os limites de sua relação com o materialismo marxista. Para tanto, convém primeiro que se faça alguns esclarecimentos a respeito dessa doutrina na história da filosofia moderna.

O conceito de materialismo é diverso em sua relação com a filosofia e com a ciência aplicada. Por isso, só identificando-o com uma determinada definição que será possível compreender a extensão e a especificidade do materialismo de Bachelard. Isto porque à diferença de outras noções,  não é verdade que o materialismo de Bachelard seja original, mesmo em sua especifidade. [29]

Do ponto de vista conceitual a doutrina do materialismo tanto abrange quanto passa pelas categorias ontológica, psicológica e ética. O materialismo ontológico é a doutrina segundo a qual não existe outra substância real além da matéria. Nela o conceito de matéria é qualitativo, cujas propriedades variam segundo as diversas formas de materialismo. Mas a caraterística comum é o fato de ser concebida como “um conjunto de objetos individuais, representáveis, figurados, móveis, ocupando cada um uma região determinada do espaço” [30] . O materialismo psicológico é a doutrina segundo a qual todos os fatos e estados de consciência são epifenômenos, e só podem ser explicados e tornar-se objeto de ciência se os referirmos aos fenômenos fisiológicos correspondentes. E há ainda o chamado materialismo ético, uma doutrina prática segundo a qual a saúde, o bem-estar, a riqueza, o prazer devem ser tidos como os interesses fundamentais da vida.

O materialismo teórico ou filosófico é fundamentalmente ontológico; mas diferentes escolas divergem quanto a idéia de que a matéria é o princípio pelo qual se dá todo o conhecimento possível, e que a sua natureza é tanto qualitativa quanto quantitativa. É exatamente isto que está em causa quando associamos o materialismo à gnosiologia.

Ao contrário da herança materialista de Descartes que procurou legitimar sua concepção de uma física quantitativa que considerava a matéria apenas enquanto extensão [31] e movimento [32] , a gnosiologia materialista parte do fato de que a matéria é o princípio primordial de toda a realidade, e sua existência concreta está não só dentro, mas também além da percepção dos sentidos. Mesmo do ponto de vista metafísico, o materialismo teórico defende que não existe nada que não seja  matéria, a não ser apenas verbalmente e por abstração. E do ponto de vista metodológico, só o estudo da matéria pode esclarecer a vida do espírito e permite abordá-la; e moralmente, o homem é um ser simples, do qual todas as tendências formam normalmente um sistema harmônico e homogêneo, e não um ser duplo, em que dois sistemas de fins estão em conflito, como o materialismo do século XVIII ainda imaginava.

Contudo, o materialismo teórico admite o pressuposto cartesiano que aceita que todo o movimento no universo pressupõe uma modificação da matéria, de tal modo que o próprio movimento é o próprio indício dessa modificação, no qual os atributos da matéria modificada podem ser desvelados. No materialismo marxista essa modificação é, à diferença de Descartes, histórica e não determinista, evolucionista e não estática. À diferença de Descartes, Marx exalta o trabalho, do tempo (história) ou do homem (ciência, etc.) em vista das novas idéias, do mesmo modo que Bachelard entenderá seu materialismo científico e imaginante. [33]

Finalmente, é para observar que o materialismo teórico marxista comporta duas formas que, por causa  do seu papel central  no pensamento contemporâneo, costumam ou ser confundidos entre si ou ainda tomados como a única forma de materialismo que existe: o materialismo histórico e o materialismo dialético.

O termo materialismo histórico foi criado por Engels para designar a doutrina de Karl Marx segundo a qual os fatos econômicos constituem a base e a causa determinante de todos os fenômenos históricos e sociais. O mesmo fez Bachelard, cujo materialismo se reconhece no trabalho da matéria, “a atividade que estimula a dinamicidade da razão sobre a matéria para a sua modificação e a modificação da realidade histórica em seu próprio benefício. A noção de materialismo aqui é, portanto, conceitualmente um tanto quanto enganadora, pois ela significa simples e primordialmente “determinismo econômico [34] ”, a doutrina segundo a qual os fenômenos econômicos determinam todos os fatos sociais. 

Já o materialismo dialético é a visão geral das coisas, de matriz marxiana, que consiste em considerar o universo como um todo, formado por matéria em movimento, envolvido numa evolução ascendente, atingindo níveis sucessivos onde o mais elevado grau de complicação quantitativa faz necessariamente aparecer, através de uma transformação brusca, mudanças qualitativas completamente novas.

A noção de materialismo dialético, conforme apurou os estudos de Engels sobre as idéias de Marx [35] , se opõe ao  “materialismo metafísico” enquanto estático ou imutável. É a teoria geral do mundo que, a diferença do materialismo metafísico do século XVIII (correspondente ao nível que havia atingido as ciências naturais nessa época e à maneira anti-dialética de filosofar que dela resultava,  incapaz de considerar o mundo enquanto processo e matéria envolvida num desenvolvimento histórico), se firmava na matéria como dado primordial e ponto de partida de toda a forma do conhecimento no universo. Marx chegou a recorrer à teoria do Uno Primordial de Heráclito para explicar que “o mundo é uno [...], uma chama eternamente viva que se acende e extingue segundo leis determinadas” historicamente. E que é na compreensão racional dos condicionamentos recíprocos dos fenômenos da realidade em que consiste o conhecimento. [36]

Para começar, é preciso observar que Bachelard fez referencia à lei dos quatro elementos na sua obra filosófica em que analisa a materialidade da realidade que está para a ciência contemporânea, o Materialismo Aplicado [37] . Utiliza essa lei como uma ilustração da estrutura transcendental do imaginário. De fato seu materialismo racional levará bem longe a análise desta materialidade fantástica nos seus diversos níveis de objetivação [38] . Comentando a maneira como Bachelard concebe tal princípio constitutivo e primordial da realidade, Pierre Quillet concluiu que

É uma idéia simples e uma idéia filosófica essa de supor um elemento de origem, de esperar explicar o mundo pela água, pelo fogo, pelo éter. Das três instâncias de exteriorização - objetos, matérias, mundos -, a mais objetivante, a que dá à consciência a sua atitude mais realista, é, sem nenhuma dúvida, a instância materialista; precisamos portanto livrá-lo da instância objetivista cosmológica. Isso não pode ser feito brutalmente porque nesse sentido a história do pensamento científico não conhece nenhuma brutalidade. Tudo está misturado nos pensamentos ingênuos; por exemplo, há uma objetividade do fogo, uma materialidade do fogo, uma cosmicidade do fogo e tudo isso forma uma filosofia à qual a tradição poderia dar um grande nome [39] .

Fosse qual fosse o nome da tradição, é irrecusável que estamos diante de uma filosofia inclinada para o materialismo filosófico como princípio gnosiológico fundamental. A noção com a qual Bachelard sustenta o conceito de matéria é semelhante ao seu conceito de “obstáculo epistemológico”, que designa os efeitos sobre a prática científica das relações que o cientista mantém com ela. Assim como o obstáculo epistemológico, a matéria aparece no momento da constituição do conhecimento, não sob a forma de um “contrapensamento” (Japiassu), mas como “parada do pensamento”, isto é, como uma resistência ou inércia do pensamento ao pensamento.

Assim, a matéria está para a percepção racional como o obstáculo está para o pensamento e para a prática científicas. Assim como o “obstáculo” é necessário para a estruturação da relação do cientista com o domínio e a prática científica, a matéria antecede a formação do pensamento sobre o real possível e conhecível. O processo do conhecimento é, por assim dizer, material a priori. A matéria dá à razão o “ponto de partida” da sua função, do mesmo modo que a epistemologia dá à ciência a filosofia que ela merece.

Mas a matéria de Bachelard não se confunde com a massa imóvel e extensa na natureza [40] , como repetidas vezes é feito e foi feito da matéria em Marx pelos marxistas [41] . Trata-se de uma matéria aberta que renuncia a toda a forma fechada e o imobilismo pelo qual ela foi tratada pelo materialismo clássico, prestando-se à dinâmica própria da atividade dos cientistas. O seu materialismo é, por isso, priomordialmente científico. Apenas uma filosofia dinâmica que “expressa as transformações constantes da razão no seu contato ininterrupto com a materialidade do mundo” (Bulcão, op. cit., p.64) é capaz de dar conta desse materialismo, e não a filosofia materialista tradicional que, para ele é, antes, um “materialismo sem matéria”.

A matéria é aberta não só por causa da capacidade que ela possui para se transformar, mas também porque é ela própria o objeto da prática científica. Ela não é apenas “matéria trabalhada”, mas é também “matéria em trabalho”. A razão material (=sujeito) não se opõe a matéria mesma (=objeto), mas há entre estas duas materialidades uma relação de intimidade. Diz Bachelard: “A matéria trabalhada, a matéria em trabalho, as matérias apreendidas na ação mesma de sua mescla, eis aí outras tantas lições de intimidade” [42] . Por isso quando Bachelard discute a questão da objetividade do conhecimento afirma que a objetividade não é resultado de um confronto direto entre sujeito e objeto, mas, como M. Bulcão o demonstrou, “fruto de um rítmo oscilatório entre objetivação e subjetivação”. (Ibid., p. 64). Aqui Bachelard está de acordo com Marx quando considera que “não se pode separar o pensamento da matéria pensante”, já que a matéria é o substrato de todas as transformações que se operam pelo trabalho do sujeito [43] .

Do ponto de vista gnosiológico, então, podemos dizer que assim como é de Marx, o materialismo bachelardiano é pleno por causa desse seu caráter abrangente no mundo. Como em Marx, a matéria não é apenas estrutura primeira da realidade, mas também o instrumento de trabalho: matéria prima da prática científica, de um lado, e matéria provocante para a imaginação criadora, do outro. Por isso o racionalismo é aplicado e a imaginação é material.

Assim como em Marx, a matéria é, em sua “infinidade em profundidade”, o dado primordial de todo o pensamento bachelardiano. A matéria é para a razão aquilo que a imaginação é para a arte, ou o que o trabalho é para o pensamento: sua infra-estrutura fundamental. A própria arte é uma operação (que é uma tensão) sobre a “objetividade material do real”. Por isso Bachelard dirá que “todo aquele que se esquece dessa tensão... ou se dedica exclusivamente à poesia, apegando-se às formas arcaicas do saber..., ou então se consola com sua própria ignorância científica, pretendendo que a poesia é a mais alta forma de saber” [44] . A matéria como sensação e resistência afeta a multiplicidade de funções pelas quais se processa o conhecimento e o reconhecimento pela via poética da realidade. Por isso Bachelard dirá também que a imaginação é energética. Porque ela não lida com arquétipos inconscientes da realidade, longe da positividade das imagens sobre a realidade objetiva.

A imaginação criadora é, pois, uma espécie de movimento imaterial que se enraíza na experiência material. Quer dizer, resistências como água, terra, fogo, etc., desempenham um papel essencial na vida interior do homem e, por conseguinte, em sua expressão poética. Ela, por causa da materialidade da realidade, será fecunda apenas no seu mergulhar na profundidade das coisas concretas. É nesse mergulho que somos levados a descobrir as resistências vivas da natureza. O artista é o sujeito que vive o drama do mundo, e sua imaginação é o “espírito” enquanto voltado para o corpo e misturado com o mundo.

Tudo é matéria e só há possibilidades materiais. A matéria bachelardiana se recria gerando (o que já chamei de) a sobre-matéria. Na Poética ele afirma que o homem é o ser que tem o poder de “despertar as fontes”, no sentido de que de sua relação com a resistência material da realidade ele cria novos mundos. A sobre-matéria é então a própria “matéria recriada”, ou, como sugere a noção de sobre-realidade em seu sistema [45] , a própria realidade objetiva apreendida em sua maior profundidade. Ou seja, o “eu sinto” do homem noturno deve primar sobre a sensação do “eu sinto” (ou talvez “eu vejo”) do homem diurno.

Referindo-se ao materialismo bachelardiano Pierre Quillet observa que “não é de forma alguma habitual na história das idéias que  a matéria seja afetada de uma tal multiplicidade de funções (como ocorre em Bachelard): ética, poética, psicológica, gnosiológica, metafísica. [...] Ela é o nó inteligível do pensamento bachelardiano” [46] .

Ainda na época newtoniana verificou-se um deslocamento no eixo lógico pelo qual se orientava a doutrina do materialismo na história da filosofia ocidental. Com Newton a filosofia da ciência assume a forma do positivismo ou do materialismo, considerando o mundo como um mecanismo e o espírito humano como o espelho no qual esse mecanismo se reflete. Sendo um mecanismo, a realidade que constitui esse mundo é a matéria e a força que o move é de natureza material. Mais tarde Einstein, no curso de suas observações que mudavam o rumo e o sentido das ciências aplicadas, nega vários pressupostos newtonianos, conservando contudo o dado da matéria.

Einstein vai ensinar que o que da realidade se revela na experiência são apenas fragmentos de natureza material, para os quais a ciência se esforça por estabelecer uma ordem através de relações inventadas (ou antes construídas) pela própria ciência. Este novo sentido, denominado ás vezes de neo-positivismo [47] e que se opõe ao absolutismo metafísico, quer, assim me parece, negar tanto o materialismo empírico do positivismo clássico, quanto o materialismo determinista considerado aí uma autêntica metafísica. A atenção do neo-positivismo “incide exclusivamente nos procedimentos por meio dos quais a ciência consegue captar fragmentos de realidade e dispô-los segundo uma ordem que é sua” [48] .

 Nesse intermeio não é fácil precisar a direção em que a doutrina materialista de Bachelard se orienta exatamente, mas, como cientista químico esses pressupostos de gesta científica o influenciaram sem dúvida alguma. Mas como já ficou evidente, sua noção de matéria vai, em sua especificidade, além da concepção empirista-positivista. Mas mesmo quando ele, pela via científica, fala da matéria não substancial, entendemos que Bachelard está fazendo alusão ao que chamei de sobre-matéria, uma noção bem presente e fecunda na Poética.

A via científica levou-o inicialmente a se interessar pela matéria, ou antes (como o disse Quillet) do “ponto material” em sua extrema profundidade e enquanto “tropismo infinitesimal”. Mas essas expressões um tanto “pictóricas”, atendem a sua busca de um olhar mais poético para o “conteúdo” da imaginação, a partir do qual concluiu que o segredo das coisas está na microfísica (não na astronomia), que o cume da arte está na miniatura (nenhuma arquitetura o impressionou), e que a duração tem como verdade constitutiva a intuição do instante. Por causa do ponto material, no qual todo o seu pensamento objetivo se concentra, “o surracionalismo bachelardiano é um racionalismo que se afina” [49] (Ibid. 71).

Reafirmemos aqui que é neste âmbito poético em que suas noções de mundo e matéria se identificavam intimamente. O mundo que é a provocação do homem é também a instância material que oferece a resistência provocadora, e que por sua vez causa o saber construído (ciência) e o do mundo recriado (=arte).

Bachelard percebeu isso quando constatou que o químico moderno havia despojado, para seu sucesso, a “subjetividade alquímica” para revestir a aridez técnica de um novo espírito em que o cientista é um compositor da matéria, “o mestre da harmonia” [50] .  Esta harmonia e esse “coroamento microfísico” instaurado pela Química levou-o a precisar sua noção de materialidade: a matéria “vibra sem nada que vibre” [51] .

Por detrás dessa descoberta estava ainda a mecânica ondulatória inaugurada por Huygens no século XVII. Na sua L’Activité rationaliste de la Physique contemporaine ele já reconhecia que a matéria reconhecida e recriada pela mecânica ondulatória “é um grupo de ressonância sem suporte, em perfeita coincidência” e que “o problema inicial não é tanto o de perguntar como a matéria vibra, mas de perguntar como a vibração pode tomar aspetos materiais” [52] .

A matéria na escala dessa microfísica não é uma coisa vibrante, mas ela é a própria vibração, um movimento sem transporte e sem substância, definido unicamente pelo seu rítmo. Assim foi que se chegou ao processo de depuração da matéria como a mais valiosa experiência laboratorial científica, muito louvada por Bachelard a propósito do novo espírito científico

oFootnoteReference> [53] . Partindo desses pressupostos Bachelard chegou não só à novas exigências teórico-filosóficas para a epistemologia da ciência contemporânea, mas também, como cientista, às técnicas ondulatórias que levaram Quillet a afirmar dele que “a técnica das comunicações é a que mais contribuiu para dar ao mundo moderno o seu rosto de ressonância: Bachelard é o primeiro filósofo da era ‘cibernética’” [54] .

É por esse ângulo material que se deve ver, também, a fenomenologia que ele desenvolveu. Bachelard seguiu a fenomenologia que Husserl definiu como um “retorno às coisas” em sua coisidade (matéria, conteúdo) concreta. Bachelard foi um grande fenomenôlogo da materialidade do mundo em sua “teoria do conhecimento”. Mostrou que a ciência deveria ser uma “fenomenotécnica”, conduzindo sua reflexão sobre a imaginação até ao ponto de ela poder manifestar seu “poder ontológico” [55] . E de fato mesmo quando Canguilhem diz, baseado em Bachelard, que “nós compreendemos o real na medida em que a necessidade o organiza”, não nega que o princípio gnosiológico bachelardiano seja a matéria; pelo contrário, reconhece que na constituição de todo o conhecimento do real “o pensamento vai ao real” [56] .

Conclusão: a especificidade da noção de matéria em Bachelard.

As relações de Bachelard com a matéria são complexas. Basta,  para o que demonstramos, as seguintes noções. Primeiro, para ele a base da personalidade é a imaginação cosmizante da matéria que difunde na obscuridade do inconsciente impessoal e suscita, em sentido inverso, as operações técnicas. O “vértice” dessa materialidade é a “rigidez da objetividade” que faz com que a estrutura impessoal da matéria só apareça na prática científica. Desse modo, o materialismo bachelardiano é científico, e nega qualquer concessão à noção de materialidade do empirismo subjetivo do senso comum. Para ele “a matéria artesanal é “imaginária” carregada de onirismo” [57] .

Segundo, o materialismo bachelardiano é metafisicamente imanentista, ao qual não corresponde nem a noção de substância e nem o da resistência empírica: “O conceito de matéria, aplicado ao seu materialismo anti-substancialista, é mesmo sutilmente falso: pois seu código metafísico não é a matéria (prima) mas a imanência. Chegou até”, revela Quillet, “a forjar o vocábulo - instável - extância para escamotear o sub de substância”. E ele conclui: a matéria bachelardiana não se opõe, como no materialismo clássico, as funções do espírito mas às fraquezas da carne.

Nessa psicanalisação do conceito de matéria Bachelard chega a noção de continuidade entre o ser do consciente no inconsciente, que se manifesta pelo dado da resistência da matéria. Na ação concreta sobre a matéria, “há comunicação do ser do agente e do paciente. [...] a mão que acaricia é também a acariciada, o amolecimento e a batida são recíprocos e o impulso profundo que anima o instrumento é da mesma natureza energética que a resistência da matéria” [58] .

Quillet, por exemplo, lembra a imagem do padeiro presente descrita no La Terre et les Rêveries de la Volunté (p. 80) concluindo que “se o padeiro bachelardiano não sabe temer uma identificação com a massa é porque ele mesmo toma consciência nessa ocasião da sua plenitude de ser e do seu dinamismo. A matéria lhe opõe não um programa de ser mas um coeficiente de adversidade onde são provados seu vigor e sua destreza”. Na obra acima, p. 80,  Bachelard afirma: “tudo me é massa, eu mesmo sou massa, meu devir é minha própria matéria, minha própria matéria é a ação e paixão”.

Terceiro, o materialismo bachelardiano é uma filosofia elementar, no sentido de que ele é antes de mais nada a filosofia dos elementos. Nela a matéria é a figura objetiva da imanência. Marx dirá que a matéria é o reflexo de toda a realidade. Da filosofia dos elementos que ele desenvolveu Quillet conclui também que “toda a epistemologia de Bachelard está apontada para a identificação das partículas elementares, os segredos da força do caroço. Ela é o anúncio e o esboço de uma filosofia nuclear” [59] .

Quarto, no sentido de sua poética o materialismo bachelardiano é infantil, como inversamente o próprio Bachelard observou na Água e os Sonhos: “a criança é um materialista nato. Seus primeiros sonhos são sobre as substâncias orgânicas” [60] . O bachelardianismo é, desse modo, a inocência infantil, uma volta ao reino do começo, onde idealismo e materialismo se fundem e se complementam. Diz Quillet desse materialismo infantil que “Há, desse modo, continuidade entre todas as eras históricas; as fontes da imagem são ao mesmo tempo as mais constantes, as mais antigas e, em seu fundo, de uma inspiração orgânica material”. E da mesma forma que se diz que a vida é, no fundo, química, assim a imaginação é, no fundo, material. [61] Há, por isso, quem diga que o materialismo bachelardiano é mera repetição da Naturphilophie do romantismo.

De tudo isso podemos concluir que Bachelard é como Marx um materialista, e que não é possível uma teoria do conhecimento em sua filosofia fora do âmbito da matéria, enquanto princípio constitutivo da realidade que é, historicamente, dinâmica em sua profundidade. O fato de ele ter “psicanalisado” a noção de matéria elevando sua natureza e significado às “baixezas” da ciência, de um lado, e às alturas da Arte, do outro, fazem dele um materialista neo- ou não ortodoxo. Por isso, como demonstrou Canguilhem, ou seu materialismo será racional ou não será materialismo: “se chamam-no de idealista, porque ele aborda a ciência pelos métodos físico-matemáticos, devemos responder: idealismo discursivo[...] Se chamam-no de materialista, porque ele valoriza as experiências de laboratório, devemos responder: materialismo racional; quer dizer, instruído e não ingênuo, operante e não dócil, que não recebe passivamente a sua matéria, mas que se dá sua matéria” [62] .

 

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Notas de rodapé

[1] O conceito de Gnosiologia costuma ser dividido por alguns teóricos em duas partes: primeiro como epistemologia ou metodologia, que é o estudo crítico dos princípios, das leis, dos postulados e das hipóteses científicas e, segundo, como gnosiologia propriamente dita, que é a investigação acerca das origens, da natureza, do valor e dos limites da faculdade de conhecer. Cf. por exemplo, André LALANDE; Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, 1996, p. 448. É esta última acepção que interessa ao nosso ponto de vista neste trabalho.

[2] O marxismo tradicional considera a matéria como o objeto primitivo da natureza que o trabalho do homem utiliza ou transforma com vista à um fim.

[3] Esta acepção guarda semelhança com as expressões aristotélicas de origem escolástica que consideravam a matéria como todo o dado, físico ou mental, já determinado, que uma atividade recebe e ulteriormente elabora. Numa de suas críticas Kant chama o mesmo princípio de “matéria do conhecimento”, aquilo que forma o conteúdo do pensamento.

[4] Cf. CANGUILHEM, G.; “Dialetique et philosophie du non chez Gaston Bachelard”, artigo em Études d’histoire et de Philosophie des Sciences, Paris: J. Vrin, p. 196. 

[5] Cf. BULCÃO, M.; “Materialismo, Dialética e Trabalho”, artigo na Revista de Filosofia, RJ: UFRJ, p. 70.

[6] BACHELARD, G.; Essai sur la connaissance approcheé (Paris: Vrin) p. 7)

[7] MARX, Karl; O Capital, p. 15: “O movimento do pensamento não é senão a reflexão do movimento real, transportado e transposto para o interesse do homem”.

[8] BACHELARD, G.; La Philosophie du non. (Paris: PUF, 1940), p. 53.

[9] Cf., BULCÃO, M., op. cit., p. 69-70. Os destaques constam do texto citado.

[10] Cf. JAPIASSU, H.; Introdução ao Pensamento Epistemológico,  p.77.

[11] Ibid., p. 77

[12] É oportuno aqui ressaltar que nossa intenção em construir uma teoria gnosiológica em Bachelard se justifica na medida em que sua epistemologia pressupõe necessariamente uma teoria do conhecimento. Entretanto, fundamentalmente trata-se de uma gnosiologia científica, dos cientistas. Isto porque ele considerava que o sujeito cognoscente da ciência contemporânea não se reduz, como na ciência moderna, ao sujeito cognoscente individual. Pelo contrário, o sujeito cognoscente para quem se propõe o problema do real  são fundamentalmente os cientistas, a “cidadela científica”, considerados como um todo. Aliás, no O Racionalismo Aplicado chega mesmo a dizer que o racionalismo não é solidário do imperialismo do sujeito. Cf. BACHELARD, G.; Le rationalisme appliqué, 1970, p. 8.  

[13] Cf. MARX, Karl. O Capital (Primeira Parte), p. 14ss.

[14] ABBANGNANO, N. Nomes e Temas da Filosofia contemporânea, p. 61

[15] Ibid., p. 61

[16] Por exemplo, Poincaré, Meyerson, Lallande, Raivasson e Le Roy, entre outros. Cf. CESAR, Constança M.; A Hermêneutica Francesa: Bachelard; (Campinas: Alínea, 1996), p.27.

[17] Ibid., p. 28

[18] É importante observar aqui Bachelard não fará à tout a via dos idealistas que ensinavam que a realidade, o mundo, não é coisa em si, mas fenômeno. Há um lugar grande deles em suas indagações epistemológicas, mas seu materialismo não se inscreve necessariamente à definição que eles davam ao mundo. É na relação mútua entre razão e experiência proposta pelo relativismo (veja adiante), bem como pela Física, Química e a Matemática do seu tempo que eu localizaria a especificidade de sua idéia de matéria. Nisso talvez consistiu também sua afinidade com Brunschvicg. Cf. CESAR, C., op. cit., p. 34

[19] Cf. “EINSTEIN”, in The Oxford Companion to Philosophy, p. 222

[20] Ibid., p. 222

[21] Cf. ABBAGNANO, N. op. cit. p. 71

[22] NEWTON, Princípios matemáticos da Filosofia natural; in: ibid., p. 71

[23] BACHELARD, G.; O Novo Espírito Científico, p. 43

[24] Ibid., p. 45

[25] CANGUILHEM, G.; Dialetique et Philosophie chez Gaston Bachelard; citado por BULCÃO, M. Materialismo, Dialética e Trabalho..., p. 70.

[26] Cf. ABBAGNANO, N. op. cit. p.73

[27] Cf. Ibid., p.75

[28] Ibid., p. 75

[29] Por causa do problema bibliográfico para um suporte teórico melhor, não posso sequer pretender, neste trabalho singelo, aprofundar ou esgotar esse problema. Mas qualquer possibilidade futura de eu desenvolver um estudo no bachelardianismo, tratarei de encaminhar minha atenção particularmente à essa questão.

[30] LALANDE, André. “Materialismo”, in Vocabulário Técnico e crítico da Filosofia, p. 650.

[31] No sentido de que algo é extenso quando é passível de toda a sorte de movimento e suscetível de divisão em partes

[32] Cf. DESCARTES, Meditação II, sobre a distinção substancial entre alma e corpo.

[33] Cf. BULCÃO, M., op. cit., p. 71

[34] LALANDE, A.;  op. cit., p. 652

[35] Cf. ENGELS; Estudos filosó

ficos, p. 29ss.

[36] Estas conclusões constam de uma minha pesquisa publicada como artigo na revista dos pós-graduandos em Filosofia da UERJ, o TRAMA. Cf. ZENGO, Zakeu A .; “Dialética Materialista e a Lógica do Conhecimento em Hegel”, sobretudo a página 117. Nesta página observo que em Marx “a matéria é o foto primordial, o reflexo do ser do mundo. Tanto o pensamento quanto a consciência dela são produtos”.

[37] Cf. Le Materialisme Appliqué, pp. 37-38; Citado de Quillet, p. 98

[38] Cf. QUILLET, Pierre (org.); Introdução ao Pensamento de Bachelard, p. 99.

[39] Ibid., p. 99.

[40] Cf. p.

[41] Cf. LÊNIN, V.I.; Materialismo e Empiriocriticismo: novas críticas sobre uma Filosofia Racionalista. Lisboa: Estampa, 1975.

[42] BACHELARD, G., Le matérialisme rationnel, p.20.

[43] Cf. STALIN, J.; Materialismo Histórico e Materialismo Dialético, p. 23

[44] Cf. citação de JAPIASSU, Hilton, op. cit., p. 75

[45] Cf. JAPIASSU, H., id., p. 77

[46] QUILLET, P.; Introdução ao pensamento de Bachelard, p. 71. O parêntesis é meu.

[47] Cf. The Oxford Companion to Philosophy, p. 222

[48] ABBAGNANO, N. op. cit. p. 78

[49] QUILLET, P.; op. cit. p. 71

[50] Ibid., p. 85

[51] Ibid., p. 86

[52] Ibid., p. 86

[53] Cf. BACHELARD, G.; O Novo Espírito Científico, RJ: Tempo Brasileiro, 1968,  pp. 59-75.

[54] QUILLET, op. cit., 87

[55] É bastante oportuna a explanação que Japiassu faz dessas noções em  Apud, pp. 78ss.

[56] CANGUILHEM, G., Hommage à Gaston Bachelard, pp. 3-12.

[57] Ibid., p. 88

[58] Ibid., p. 109.

[59] Ibid., p. 137

[60] BACHELARD, G.; L’Eau et les Rêves, p. 13

[61] Cf. QUILLET, id., p. 137

[62] CANGUILHEM, op. cit., p. 11.

 

 

Referências Bibliográficas.

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ZENGO, Zakeu A .; “Dialética Materialista e a Lógica do Conhecimento em Hegel”, In: TRAMA: Revista de Pósgraduação em Filosofia pela UERJ, Volume V, 9, 1998.

* Como tivesse esquecido registrar os dados pertinentes a essas obras na altura da pesquisa, não foi possível voltar a elas até a conclusão escrita deste trabalho.