Magia do Amor

A MAGIA DO AMOR E DAS PEQUENAS GENTILEZAS

Zakeu A. Zengo*

Nosso tempo desconhece a magia do verdadeiro amor. Silenciosamente nos impõe o fardo da sua carência e normatiza, com seus esquemas materialistas e competivistas, o egoísmo, a misantropia e a desumanidade generalizadas. Nossas sociedades são de crianças renegadas, abandonadas aos destroços da vida e ao lixo da humanidade. As emoções dos adolescentes e dos jovens são mercantilizadas, submetidas à baixeza da prostituição e da desordem afetiva - resultado da ganância e da cobiça, da busca desenfreada pelo poder, fama e riquezas.

Nosso é ainda um mundo de multidões de homens e mulheres consorciados em vínculos que se querem afetivos, mas que são, uns para os outros, no quotidiano da vida, o próprio pesadelo. É um mundo de sociedades em que vizinhos e concidadãos privilegiam a disputa, as desavenças encarniçadas e oódio sangrento; em que a violência racial e social dilacera o tecido da experiência comunitária; em que o pobre, o doente, o idoso e o desabilitado psíquica e/ou fisicamente são marginalizados com crueldade e requinte. Somos uma geração de tal modo egoísta que ninguém tem tempo ou deseja perde-lo para conversa fiada sobre este assunto. Tudo, segundo perfeito juízo, vem a ser o mesmo que mandar à danação este nosso mundo da vida, nossas sociedades e, principalmente, a possibilidade de qualquer realização essencial para a própria existência que somos.

O amor verdadeiro é algo que antropólogos, cientistas sociais e especialistas da mente e das emoções já constataram ser parte das históricas necessidades da experiência humana. Estudos recorrentes indicam que as melhores comunidades humanas são aquelas nas quais o senso de co-participação e irmandade sempre foram marcas da sua quotidianidade, fundadas na reciprocidade e na solicitude mútuas. Em qualquer sociedade em que esses elementos são incentivados e cultivados, reina um subido desejo de amor e respeito pela vida, pelo bem comum, pela legalidade e pelo patriotismo responsável.

Fato curioso é que ainda hoje aspetos muito simples da mutualidade e da coe-existência no amor e no respeito são constatáveis, mas apenas quando visitamos as grandes metrópoles do mundo dito desenvolvido. As pessoas saúdam-se espontaneamente, impera a magia das pequenas e grandes gentilezas, a sonoridade maviosa da "desculpa" e do "por favor" sinceros, o respeito pelos simples e pelos idosos. Mas em nenhum outro grupo se identificam melhor os traços da conviviabilidade realizante que nas sociedades tradicionais (do tipo comunitarianas) da África, Ásia, Oceania e entre os indígenas das Américas.

Amar é preciso se quisermos dar a nossa vida um sentido real e infalível. É uma infelicidade imaginar que até mesmo os cristãos conseguem falar de amor apenas como uma imposição ética de Deus. A verdade é muito diferente disso. Estudos e pesquisas têm revelado que para uma criança crescer e desenvolver-se normalmente, ela precisa de um lar estável e firmado no amor. Os adolescentes anelam por amar e ser amados porque eles sentem nitidamente que a vida foi feita para ser compartilhada. Na maioria das vezes os teens são incompreendidos pelos adultos e pela sociedade em geral, exatamente por causa dessa orientação natural de suas emoções. Eles tendem a formar pequenas tribos de camaradagem, a constituir pequenos círculos afetivos nos seus tradicionais redutos de existência (com a galera da rua, do colégio, da academia, da igreja, etc.) porque é o estágio em que se experimenta mais esse dilema natural da solicitude pela complementaridade humana. O mesmo se pode dizer de toda a sorte de diversões ou companhias à que facilmente, e muitas vezes perigosamente, se dão alegremente.

Fatos e experiências evidenciam que maridos e esposas experimentam maior felicidade pessoal e conjugal quando são capazes de amar e ser amados verdadeiramente. Famílias inteiras vicejam e prosperam nas relações vitais quando nelas há o verdadeiro anelar uns pelos outros. Os idosos ainda encontram prazer na vida quando têm certeza de que alguém se interessa afetivamente por eles. Até aqueles que são fisicamente incapacitados, experimentam o mesmo ardor da vida comum às pessoas "normais" quando participam de uma coletividade humanizada, que os aceita e integra verdadeiramente.

Portanto, nem tudo está perdido. Quando somos capazes de aceitar o desafio da solicitude do nosso ser natural para um real e mais profundo mútuo pertencer-se, podemos esperar da vida mais do que simples prazeres fugazes. O verdadeiro amor é uma exigência da fé, sem o qual, por mais "santo" que um homem se julgue, jamais alcançará a graça da própria realização, da auto-inserção no propósito original consignado pelo criador da existência humana. Amemos a todos e amemos a nós mesmos. Amemos, acima de tudo, o criador e o seu plano criador.

*Zakeu é formado em Teologia e Letras Clássicas, mestre em Filosofia e Doutorando em Antropologia. Professor de História eclesiástica, História da Teologia, Filosofia da Educação e Antropologia da Cultura. É também autor do livro Deus não Está Morto: Desafio para um Cristianismo Autêntico (Editora Criação: 1998).

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