Lukács: decadência ideológica e a recusa da alienação

LUKÁCS: DECADÊNCIA IDEOLÓGICA E A RECUSA DA ALIENAÇÃO*

Neste texto estão apresentadas como possibilidade atual para reflexão algumas questões suscitadas por Lukács em seu ensaio Marx e o problema da decadência ideológica, que apontam tanto para a crítica gral à decadência ideológica da burguesia, quanto para os seus aspectos intrínsecos na formação dos indivíduos. Lukács tece críticas ao discurso apologético ao capitalismo, encontrado na filosofia, na ciência e na arte a partir de meados do século XIX e observa que a noção de progresso e o materialismo espontâneo das ciências naturais são substituídos pela ideologia pura e pelo ecletismo; além disso nota que a divisão social do trabalho especializa e empobrece os indivíduos tornando-os mesquinhos e arrivistas. O texto de Lukács deve ser submetido a uma análise crítica de forma que possamos perceber até que ponto os indivíduos configurados por condições sociais objetivas podem efetivamente superar a alienação no quadro da sociedade capitalista.

A discussão que se seguirá é parte de um estudo mais amplo que tem por objetivo compreender a crítica deste autor ao irracionalismo na sociedade capitalista contemporânea. Não comentaremos as observações contraditórias sobre a arte, mais particularmente sobre a literatura, presentes no referido ensaio. Limitaremo-nos a abordar a sua análise corrosiva da ciência e da filosofia no contexto por ele caracterizado de decadência política e ideológica da burguesia.

Referenciando-se em Marx, Lukács diz:

"Esta decadência surge com a tomada do poder político pela burguesia e o seu deslocamento para a posição central da luta de classes entre a burguesia e o proletariado. Esta luta de classes, diz Marx, 'soou o toque de finados da economia científica burguesa’. Doravante não se trata mais de saber se tal ou tal teorema é verdadeiro, mas se ele é útil ou necessário ou prejudicial ao capital, cômodo ou incômodo (...). A pesquisa desinteressada é substituída por uma atividade mercenária, à análise científica sem prejulgamentos a má consciência e as intenções impuras da apologética". (Lukács p. 177)

O autor, citando Marx, afirma que a burguesia, após a revolução de 1848, percebeu que todas as armas por ela utilizadas contra o feudalismo voltaram-se então contra si mesma. E é a partir desse momento que se inaugura uma verdadeira reviravolta nas ciências humanas, pois estas constituem-se em apologias da sociedade burguesa.

  1. A fuga da realidade, que implica na substituição da dialética espontânea pela "ideologia pura". Segundo Lukács, no período heróico da burguesia, os cientistas praticariam um dialética espontânea o que permitiu o desenvolvimento científico. O pensamento apologético abandonaria as contradições da sociedade e se adapta "às necessidades econômicas e políticas da burguesia."
  2. Do ponto de vista metodológico tal procedimento teria levado a ciência e a filosofia a substituir a investigação histórica por uma fraseologia vazia e hermética. A pesquisa é substituída pela doutrina. O autor destaca o ecletismo que progressivamente dominaria as ciências; tornando a sua narrativa um cruzamento de frases que "glorificariam a ordem estabelecida".
  3. O abandono da teoria do progresso substituída pelo utilitarismo. A ideologia do progresso cederia espaço para uma ideologia de botequim, com características mesquinhas, pequeno-burguesa.

Lukács exemplifica este comportamento com a crítica de Marx a Guizot que teria passado de um sério historiador a um mistificador da história da Inglaterra.

Do ponto de vista metodológico, a reviravolta do pensamento burguês se caracterizaria por um abandono progressivo da própria realidade que seria substituído pelos "debates formais e verbais com as doutrinas anteriores". O debate com o pensamento anterior seria realizado de modo eclético, apresentando um pensamento multiforme, transformando os enunciados da ciência em frases. (Cf pp. 179).

Lukács apresenta dois exemplos, um econômico com James Mill que teria erigido a produção burguesa à condição de forma absoluta (única) de produção, transformado as contradições em simples aparências desta sociedade, bem como erigindo o pensamento de Ricardo à forma teórica absoluta da sociedade capitalista, desprezando as contradições internas do próprio Ricardo.

O segundo exemplo diz respeito à filosofia alemã dos neo-hegelianos que tomariam a expressão hegeliana do pensamento, do espírito como a contradição da própria realidade.

Outro elemento apontado por Lukács é o tratamento que este pensamento dá à noção de progresso, a defesa do progresso é substituída pela crítica romântica ao capitalismo.

"A partir da crítica romântica do capitalismo se desenvolve uma apologética da sociedade burguesa mais complicada e mais ambiciosa mas não menos mentirosa e eclética, a apologética indireta, a defesa do capitalismo de seus lados ruins "mauvais cotês".

Lukács cita vários autores que compartilhariam esta visão romântica como Sismondi, Carlyle, Jeremy Bentham (decadência da filosofia do progresso). O ecletismo seria a marca generalizada destes autores que negariam as contradições da vida social, entenderiam a oposição de maneira falsa, fugidia, superficial, não mediatizada e inconclusa. Estas teorias representariam um grande perigo para as classes trabalhadoras, pois além de não explicarem as suas condições de vida, confundi-as mais ainda, devido ao fato de apresentarem uma máscara de criticidade.

Buscando a explicação para esta reviravolta da ideologia burguesa no âmbito da divisão do trabalho, Lukács destaca os seus reflexos sobre o trabalho intelectual, sobretudo com o desenvolvimento das "especializações". A oposição entre trabalho intelectual e trabalho material, aprofunda-se na sociedade capitalista com o trabalho intelectual diferenciando-se em variados níveis:

"O traço particular do desenvolvimento capitalista consiste no fato de que as classes dominantes também são submetidas à divisão do trabalho. Enquanto que nas formas primitivas de exploração (...), criaram uma classe dominante, que no essencial, foi poupada da divisão do trabalho, esta última no capitalismo (...) se estende também aos membros da classe dominante na qual a especialidade consiste em nada fazer." (Pp. 188)

Lukács destaca que esta divisão do trabalho estaria entranhada em todos os homens, causando profundas deformações psicológicas e materiais, aprofundada no período da decadência. Este raciocínio lhe permite criticar os cientistas e as ciências modernas, a exemplo de Max Weber e a Sociologia. Este autor apesar de possuir um conhecimento enciclopédico teria se subordinado à especialização da sociologia, trabalhando a realidade social de modo parcializado, separando-a da política e da economia. A época da decadência conheceria um "limite-fronteira" artificial em relação aos problemas econômicos e sociais, criando-se disciplinas específicas que sustentariam uma separação artificial e pseudo-metodológica da realidade.

Max Weber, exercendo o seu conhecimento enciclopédico de modo seccionado (economista, sociólogo, historiador, filósofo e homem político), seria vítima da extrema especialização do trabalho intelectual:

Neste sentido, muitos intelectuais capitulariam diante do modo de vida capitalista, subordinando-se à divisão do trabalho e à separação entre a vida intelectual e a vida prática, entre a razão e os seus sentimentos.

A ideologia burguesa encerraria dessa forma o indivíduo no interior dos limites da profissão, empobrecendo e esvaziando a atividade social. Os indivíduos viveriam numa sociedade mistificada, que se apresenta como "uma potência incompreensível, mítica, na qual a objetividade, privada de toda humanidade, se dirige contra o indivíduo, ameaçante e incompreensível" ( pp. 192). A vida profissional tornaria os indivíduos pequenos homens arrivistas.

Este vazio da vida privada não encontraria solução no racionalismo - subordinado às necessidades objetivas do capital -, nem no irracionalismo - protesto impotente " também vergonhoso, vazio e irrefletido". A saída do irracionalismo para este empobrecimento da vida humana seria apelar para os "piores instintos humanos" para a animalidade e a bestialidade.

O autor preocupa-se com as possibilidades de libertar-se da armadilha da divisão social do trabalho, atendo-se de modo mais prolongado sobre os indivíduos de origem burguesa, pois crê que aqueles que pertencem ao proletariado também estão imersos na alienação derivada das relações de trabalho, no entanto são por elas vitimados, enquanto que aqueles que pertencem à burguesia se beneficiam dessa alienação.

Os indivíduos burgueses (compreendendo dentre estes os intelectuais) teriam dificuldades para romperem com sua própria classe e posicionarem-se de forma coerente no mundo capitalista, de modo sucinto, o autor considera as seguintes possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos da classe burguesa:

  1. submissão plena à decadência e à apologética burguesa;
  2. "ruptura total" do indivíduo com características morais mais elevadas com a sua classe;
  3. derrota "trágica" de homens "dotados de um grande talento", que sucumbem às contradições capitalistas;
  4. conflito permanente com a sua classe, mesmo sem ter consciência disso; este indivíduos viveriam "intensamente" as contradições de sua época;

Algumas considerações sobre as posições de Lukács

A questão posta acima por Lukács encerra dois problemas fundamentais: o primeiro de ordem objetiva situa os indivíduos no conjunto das relações sociais de produção e os circunscrevem às condições reprodutivas derivadas da divisão social do trabalho; a segunda refere-se às possibilidades de indivíduos burgueses libertarem-se de tais limitações e incorporarem traços e até mesmo um nova concepção de mundo que os distancie e libere da sua classe original.

A argumentação de Lukács é ainda crítica ao romantismo e ao irracionalismo e prenhe de possibilidades em termos utópicos (expressão que utilizamos aqui de modo positivo), dando-nos condições de antecipar as características dos indivíduos liberados da divisão social do trabalho em moldes capitalistas. Guarda ela também alguns elementos contraditórios, sobretudo se a analisarmos à luz da extrema especialização da divisão do trabalho nos nossos dias. O autor talvez não tenha percebido que a divisão do trabalho que ele denuncia como capaz de amputar os seres humanos da sua própria humanidade, não pode ser abolida no campo da consciência e que, por mais que os indivíduos apercebam-se das suas limitações e tentem libertar-se delas através da atividade prática, entendendo-a na dimensão política que lhe é emprestada pelo marxismo, não há como escapar completamente às armadilhas da divisão do trabalho que os especializou. Mesmo os intelectuais militantes também estariam sujeitos a vivenciar constantemente a contradição do anseio por uma personalidade una, autêntica e o vivenciar constante de condições práticas de alienação profissional. Não por acaso, no nosso tempo, o intelectual íntegro, à imagem de Marx, cedeu lugar aos intelectuais profissionalizados e, mesmo aqueles que exercem a política enquanto uma atividade revolucionária não escapam às limitações impostas pelo mundo do trabalho capitalista.

Por outro lado, em que pese o autor suscitar corretamente a questão da alienação dos indivíduos que compõem o proletariado, a sua solução para o problema posto pela decadência da ideologia burguesa é por demais objetivista, pois para o autor as condições de inserção dos indivíduos dessa classe no processo produtivo lhes permitiria, mais facilmente, emancipar-lhes da apologética burguesa. Outros autores, a exemplo de Gramsci mostraram o quanto os trabalhadores vivenciam a ideologia burguesa na esfera da concepção de mundo e, que mesmo a sua prática política não transforma plenamente a sua consciência de mundo. Logo, a consciência de classe também se forma de modo contraditório e até certo ponto de forma heterogênea. Mantendo-nos, portanto, na perspectiva marxista a questão da consciência de classes e, sobretudo, os inter-relacionamentos entre a formação dos indivíduos e a consciência de classe parece-nos ser necessário ir mais longe na compreensão das formas de dominação decorrentes da divisão capitalista do trabalho e da ideologia burguesa correspondente enquanto formas tradicionais arraigadas que dominam as consciências individuais.

Referências Bibliográficas

CÂMARA, Antônio da Silva, "A atualidade de Lukács: Polêmica Contra a Irracionalidade em Nietzsche." In: Interfaces da História. Oficina Cinema-História. UFBA. 1998. pp. 20-31.

LUKÁCS,G. "Marx et le problème de la décadence ideologique" in: Problemes du Réalisme. L'Archeur Editeur. Pp. 176-229

LUKÁCS, G. El Asalto a la Razon, Grijalbo. Barcelona-México - DF 1972.

LUKACS, G. História e Consciência de Classe. Publicações Escorpião, Porto, 1974.

*Este texto foi elaborado a partir de caminhos indicados pelo Prof. Dr. Antônio da Silva Câmara, da Universidade Federal da Bahia, Departamento de Sociologia.
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