\n'; document.write(barra); } } changePage();
DA IDÉIA DO SAGRADO À HARMONIA DO MUNDO. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDÉIA DE DEUS EM LEIBNIZ E SUA RELAÇÃO COM A TEORIA DO MELHOR DOS MUNDOS POSSÍVEIS.
©Zakeu A. Zengo
Introdução
A idéia de que o nosso é o melhor dos mundos possíveis e o mais perfeito, é uma das teses filosóficas que tornam o pensamento de Leibniz ao mesmo tempo interessante e controvertido. Mais controversa ainda é a doutrina da “harmonia preestabelecida” na qual fazia depender a perfeição deste mundo, por implicar a afirmação de uma mente divina anterior a tudo o que existe. Isto por uma série de razões, algumas delas, de difícil inteligibilidade. O maior problema talvez seja o fato de que na perfeição desse melhor mundo está implícita a idéia de um padrão divino de perfeição.
Com efeito, uma questão fundamental se impõe: que cânones Leibniz invoca quando ele admite a possibilidade da existência de outros mundos, nos quais opera as comparações possíveis, e de que maneira podemos esperar que esses padrões afetem a busca por um mundo humano de uma verdadeira harmonia [1] ?
A fim de acessar as em pauta no sistema de Leibniz, pretendo me deter neste trabalho inicial num bem limitado levantamento compreensivo dos critérios pelos quais Leibniz procurou justificar a doutrina da harmonia do/no melhor dos mundos possíveis, seus graus de possibilidade e, finalmente, a sua relação com a idéia do sagrado e com a perfeição do que ele chama de unidade simples e autônoma, a mônada.
Utilizarei, para tanto, alguns textos básicos aos quais tive acesso apenas na versão inglesa. Não tive como cotejar os textos com as versões possíveis disponíveis em português, porque aproveitei a estadia no exterior (Inglaterra) para proceder não só as leituras mas também a redação do trabalho como um todo. Por esta razão, creio, incorrerei muito provavelmente no risco de utilizar vocábulos ou conceitos em português que não sejam aqueles usados nos manuais ou traduções desse pensador pelos especialistas.
1. O múltiplo e o uno. Sobre a diversidade e simplicidade no mundo.
A primeira forma pela qual Leibniz problematiza sua doutrina da harmonia preestabelecida do mundo é sua relação com aquilo que ele considera a sua própria causa, isto é, Deus. A harmonia preestabelecida, que em seu sistema se configura como resultado imediato da percepção e da mútua independência das mônadas, prevê que Deus fez sua infalível escolha do melhor dos mundos possíveis com base em leis eternas que são objetivas. Tal escolha é fundamentalmente racional, e deve ser nesta que se deve basear a solução para os problemas inerentes à justificação, a possibilidade e a plausibilidade do melhor mundo entre os possíveis. Da mesma maneira, a objetividade da bondade divina nessa escolha é determinada pelo mesmo princípio da razão suficiente, que é o fundamento do melhor dos mundos possíveis.
Os critérios de perfeição adotados por Deus para constituir o melhor dos mundos possíveis são, segundo Leibniz, objetivos. Leibniz não diz nominalmente que critérios são esses, e por isso se torna como que missão difícil determiná-los nestas linhas. Contudo, ele recorre a duas noções que tomarei como fatores determinantes na elucidação desses critérios. Tais são as idéias de diversidade e simplicidade, ou seja, o múltiplo e o uno e a relação que existe entre os dois. Partindo da idéia da divina razão suficiente, Leibniz conclui que Deus fez consistir a perfeição do múltiplo naquela do uno:
A natureza de toda a substância simples, alma, ou verdadeira mônada é tal que seu estado seguinte é uma conseqüência do precedente; aqui é descoberta a causa da harmonia. Pois Deus necessita tão somente fazer que uma simples substância se torna uma vez e de início uma representação do universo, de acordo com o seu ponto de vista; já que isso é suficiente para que daí se conclua que assim será perpetuamente; e que todas as substâncias simples terão sempre uma harmonia entre si, porque representam o mesmo universo [2] :
Ao estabelecer o mundo, portanto, objetivamente Deus terá escolhido “aquele mundo que é o mais perfeito, isto é, que é ao mesmo tempo o mais simples em suas hipóteses (=leis) e o mais rico (múltiplo) em seus fenômenos” [3] . Mas esse critério impõe dificuldades adicionais, sobretudo quando se tenta percebe-lo dentro do sistema deste filósofo e relacioná-lo com outros, digamos, “índices de valor” que ele adotou ao longo do seu pensamento.
Para começar, Leibniz vê uma identidade - o que lhes torna uma só coisa - entre perfeição e harmonia. Ele define essa identidade como “unidade na diversidade”. Na verdade uma gama variada de termos podem ser encontrados em seus escritos se referindo à essas noções com a mesma realidade. Por exemplo, harmonia é “consenso na ... diversidade”, “similaridade na diversidade, equilibrados pela identidade”, e ainda ordem (i.e., regularidade, uniformidade, etc.) na pluralidade [4] . Todas essas variadas noções querem significar a mesma coisa, qual seja, uma certa ordem que unifica a diversidade. Assim, o critério da simplicidade/diversidade é a ordem específica que determina a harmonia.
No Discurso sobre a Metafísica, Leibniz diz por exemplo que não é possível imaginar no mundo eventos que são irregulares ou que não evidenciam alguma uniformidade, por mais complexos que eles possam ser [5] . E, pelo fato de que qualquer série é ordenada, embora cada uma não seja particular e igualmente harmoniosa, o grau de harmonia depende da extensão em que as séries integram uma forma ideal de ordem.
Esta ordem ideal é a que melhor satisfaz o critério da razão, já que ela unifica o que é multiforme de maneira mais simples e belo, uma maneira que faz muito com o pouco ou produz o desejado máximo efeito pelo meio mais eficiente [6] . É essa harmonia assim estabelecida que satisfaz o intelecto e alegra o ser qual ser racional, o que não poderia ter sido diferente com o criador. N’A Confissão do Filósofo Leibniz chega a dizer que satisfazer-se (racionalmente) é o mesmo que sentir a harmonia e que “de fato nada é tão mais agradável à mente do que a harmonia”. Em todo o lugar a sensação de harmonia alegra a percepção, porque ela a torna mais fácil e livre de confusão.
A correspondência se procura na variedade, e quando mais fácil ela é ali observada mais ela agrada; nisto consiste a sensação da perfeição. Dessa forma, a perfeição de alguma coisa é maior no sentido de que há mais correspondência na maior diversidade, quer a observemos ou não. É, portanto, nisto que consiste a ordem e a regularidade [7] .
Embora todas as séries tenham certa forma de ordem, a mais harmoniosa ordem envolve a maior variedade de fenômenos, regulados pelas leis mais simples. E Deus, que deseja sempre maximizar a harmonia, escolheu o mundo que melhor satisfaz o critério da variedade/simplicidade.
Por isso na seção 5 dos Discursos Leibniz compara Deus com um hábil geômetra que sabe como encontrar as melhores construções de um problema, ou um bom arquiteto que faz o mais vantajoso uso possível do espaço a sua disposição e do capital necessário para a construção, nada permitindo faltar capaz de prejudicar ou diminuir a beleza de que a construção pode receber; ou ainda à um hábil maquinista que realiza suas atividades pelo mais simples processo disponível, ou ainda um sábio autor que inclui o maior número possível de assuntos no menor volume possível.
Com isso Leibniz torna patente que o critério da simplicidade, do uno, se evidencia especialmente através dos meios que a razão divina utilizou, enquanto a diversidade, a opulência e a abundância ocorre com relação aos fins e aos resultados pressupostos no movimento turbulento das realidades simples originais. Nessa interdependência um aspeto está em equilíbrio com o outro, assim como o capital necessário para custear uma construção deveria ser proporcional ao tamanho e a beleza que se pretende atingir com ela.
Aqui no entanto só se trata de simples comparação possível, já que Deus de nada precisou para criar senão apenas (atualizar) seus decretos inteligentes [8] , o que torna infalível a harmonia no melhor dos mundos possíveis. De fato Leibniz reconheceu e enfatizou o caráter falacioso das comparações para entender os critérios divinos, pois elas “retratam uma imagem imperfeita da sabedoria divina”. O uso delas, dizia, lhe serve apenas “para despertar nosso espírito para alguma concepção de algo que não pode ser expressado de outro modo melhor”. Pergunte-se: para quê concepção de critérios nosso espírito está então sendo despertado?
Nicholas Rescher faz consistir o critério da diversidade/simplicidade ao cálculo diferencial, dizendo que pelo fato de que a regularidade (orderliness) representa fundamentalmente a simplicidade, o critério da perfeição do mundo é a soma de sua realidade múltipla em sua relação necessária com a simplicidade. Por isso, também, o melhor dos mundos possíveis incarna o que ele chama de nulo intercâmbio (trade-off) ideal entre múltiplo e uno, que surpreendemente se descobre como estando em conflito entre si: “o mais imediato e surpreendente aspeto desse critério é que os dois fatores se opõem entre si e levam em direções”. E explica:
Um mundo cujo único metal é (por exemplo) o cobre, ou cuja única forma de vida animal é a ameba, terá obviamente uma estrutura mais simples de leis por causa desse empobrecimento. Mas, por outro lado, o mundo cujas leis são mais complexas do que as leis dos astrólogos, requer maior variedade de ocorrências para sua exemplificação. Assim, quanto menos variedade um mundo tem - mais monótono e homogêneo ele é - mais simples serão suas leis; e quanto mais complexo suas leis, maior será a variedade de seus fenômenos deverão ser para que deles se apercebamos. Leis muito simples produzem monotonia; fenômenos demasiadamente variados produzem caos. [9]
O verdadeiro mundo, pois, supõe o maior número possível de intercâmbio eficiente desses dois fatores ou determinantes da perfeição. Pela mesma razão, segue explicando esse estudioso, o índice de variação é maior no melhor mundo do que nalguns dos outros mundos, e menor do que em outros. E, pode conseqüência, o mesmo ocorre com o índice da “regularidade” (orderliness). Mas mesmo que se aceita sem reservas esta observação, em Leibniz o nosso mundo ainda é o melhor em tudo, porque a soma dos seus dois elementos de valor (o uno e o múltiplo) é maior do que de qualquer outro mundo [10] .
Apesar de sua inicial plausibilidade, essa noção de intercambialidade oferece, ao que me parece, sérias dificuldades quando aplicada à extensão relativa do múltiplo. Com efeito, Leibniz deixa claro que o mundo real é mais rico e contém a maior variedade de fenômenos que se pode conceber. Nos Discursos observa que este mundo é “o mais rico em fenômenos”, acrescentando nos Princípios da Natureza e Graça, que ele tem não só a maior variedade, mas a tem tanto quanto tem a maior ordem. Repete-o ainda na Monadologia, afirmando que o mundo real “tem a maior diversidade possível”. Desse modo, parece supor que seja evidente que Deus não necessita intercambiar a diversidade e nem fazê-la consistir nele, mas que tal harmonia á anterior ao movimento presente no mundo [11] .
Leibniz também acreditava que o mundo de maior variedade/diversidade tinha de ter o maior número possível de indivíduos. No seu estudo crítico de Leibniz (cf. Critical Exposition) Bertrand Russel reconhece que em muitos de seus textos nosso filósofo afirma que este mundo tem tanto o máximo número de entes reais ou, como em outros textos, o maior número de mônadas. Aqui entes fenomênicos (fenomenal entities) e mônadas são duas noções complementárias que remetem a uma só diversidade de entes singulares, no sentido de que a diversidade dos indivíduos está fundada na diversidade das mônadas [12] .
Um vasto continuum de espécies liga os fenômenos no interior do múltiplo - plantas, animais, homens, e uma infinidade de outros - que formam séries únicas cujos traços/ligações estão de tal modo intimamente unidos que é impossível aos sentidos e à imaginação fixar o ponto preciso em que cada uma começa ou termina. Do mesmo modo, mesmo quando ele diz que muitos outros mundos têm infinitos membros [13] ,não deixa de acreditar que, ao nível dos fenômenos, é o melhor mundo que contém uma infinidade de coisas dentro de uma infinidade de coisas ad infinitum. Tão grande é o número e a diversidade de coisas que “cada pequena parte do universo contém um mundo com um infinito número de criaturas” [14] . E esta incomparável variedade nasce da atividade intelectiva do maior número de mônadas subjacentes.
2. Sobre a dificuldade de conciliar o uno e o múltiplo. As leis simples e universais
Isto posto, como conciliar a noção de que este mundo possui a maior diversidade concebível com a necessidade de simplicidade no melhor mundo? Leibniz responde recorrendo a idéia de leis simples. O mundo real tem a maior diversidade de fenômenos, mas estes são governados por leis que são as mais simples, compatíveis com o máximo de diversidade no melhor mundo.
Nosso filósofo sustenta que, muito embora leis mais complexas pudessem (talvez) acomodar maior diversidade através de leis mais simples e capazes desse ato, Deus pode e maximiza a harmonia sem a necessidade do intercâmbio na diversidade. Logo, o uno e o múltiplo está submetida a harmonia preestabelecida divina, que implicam afirmar que todas as ações de Deus estão em conformidade com as leis mais gerais:
Assim como não existe linha livremente traçada pela mão, por mais irregular que ela possa parecer, que não pode ser reduzida à uma regra ou definição, do mesmo modo toda a série de ações de Deus formam toda uma certa disposição regular sem excepção alguma. E [...](a lei de Deus} é a mais perfeita possível ou a mais simples, do mesmo modo que de todas as linhas que podem passar nos mesmos pontos, uma será a mais simples.
Isto significa então ou pelo menos sugere que Deus poderia ter maximizado a diversidade usando leis mais complexas; mas, ao invés, escolheu fazê-lo de maneira mais simples e a mais perfeita [15] .
Mas vista de modo radical, essa explicação parece configurar conflito com outra doutrina importante de Leibniz: a identidade dos indiscerníveis. Isto porque, em sentido mais amplo, tal explicação implica em aceitar não só que possíveis leis complexas de outros mundos possíveis podem ser de modo tão rico compatíveis com os fenômenos no nosso mundo, mas também que tais leis são compatíveis qualitativamente com esses mesmos fenômenos (Leibniz fala de diferentes linhas passando nos mesmos pontos). Se assim for, esta noção vai contra a identidade dos indiscerníveis, mais por pressupor a existência de pelo menos um outro mundo possível que, em nenhum sentido puramente qualitativo, difere do nosso em suas leis.
Isto quer dizer que não podemos tomar a passagem acima ao pé da letra? Assim me parece. Talvez Leibniz tenha querido dizer o que esta interpretação sugere, isto é, que leis mais complexas são consistentes e coincidem com os fenômenos em qualidade, como as leis no nosso mundo, embora não exatamente igual com as do nosso. Mas, se assim é, então, ao menos um outro mundo possível terá tanta diversidade de fenômenos quanto tem o nosso. E isso contradiz a idéia de que o nosso é o melhor mundo possível.
Há quem diga que com a doutrina de que o nosso é o melhor dos mundos possíveis Leibniz quis apenas significar que nenhum mundo é mais rico em fenômenos que o nosso. Mas essa não parece ser uma noção comum por não ser recorrente ao seu pensamento, com excepção de um ou outro texto em que isto se evidencia [16] . Por outro lado, ele define o existente como tudo aquilo que é compatível com a grande maioria das coisas; e é evidente que essa “grande maioria das coisas” se refere tanto às mônadas quanto as entidades dos fenômenos no universo do múltiplo.
Finalmente Leibniz sugere que a uno é o meio pelo qual se chega à múltiplo e que alcançar a maior diversidade possível, portanto, requer o uso das mais simples leis na natureza. Assim, por exemplo, ao rebater Malebranche ele argumenta que se Deus não tivesse usado leis simples, teria sido incapaz de criar tantas coisas quanto criou:
Deus faz tantas coisas quantas ele pode; e o que o obriga a usar de leis simples é a necessidade de encontrar um lugar para as tantas coisas quantas ele pode reunir; se ele tivesse usado outras leis, isto seria como tentar fazer um edifício com pedras redondas que nos fazem perder mais espaço do que eles ocupam [17] .
Ainda em outro texto afirma: “o ser necessário age segundo os procedimentos mais simples. Porque entre as infinitas maneiras possíveis há algumas que são as mais simples, e são as mais simples que mais (resultados) oferecem” [18] . Essa mesma conclusão aparece também na Teodicéia, onde explica que “procedimentos complexos requerem demasiado espaço, demasiado lugar e demasiado tempo que, de outro modo, teriam sido melhor empregues” [19] .
A tese de Leibniz nessas citações é que a lei da simplicidade é a mais eficaz, a mais produtiva. Ao decidir maximizar os fenômenos Deus usou as leis mais simples, porque apenas elas poderiam produzi-los. E isto anula a idéia de que há mundos que possuem tanta diversidade de coisas quanto o nosso, mas com mais leis complexas. Pela mesma razão isto também anula a noção do intercâmbio, que sugere que simplicidade e diversidade puxam em direções opostas.
À luz de tudo isso, parece então que a posição de Leibniz é a mais radical do que todas as outras consideradas. Em última instância ele pensa que o melhor mundo contém os mais diversos fenômenos e as mais simples leis naturais [20] ; de fato, ele acredita mesmo que neste mundo o maior número e a maior diversidade possíveis de coisas são possíveis mesmo aparte dessas leis. A isto alguns estudiosos costumam chamar de “harmonia preestabelecida do múltiplo e do uno” [21] .
Parece então necessário admitir, como me parece, que com esta forma de harmonia Leibniz não estaria constituindo um paradoxo no interior do seu sistema, que é basicamente uma filosofia das mais inesperadas harmonias. Quando Leibniz observa que simplicidade é o meio, o caminho, para a diversidade ele não está sugerindo que poucas leis geram a grande diversidade, mas apenas que são as mais simples que o fazem. Ou seja, Leibniz não nega que o melhor dos mundos possíveis possui “uma multidão” de leis naturais.
E em relação aos critérios que mencionei acima, precisamos perguntar: de que maneira Leibniz chegou a idéia da simplicidade e porque ele pensa que o maior índice de simplicidade é a extensão na qual uma lei se aproxima da perfeita universalidade, isto é, em que se liberta de todas as excepções, se bem o entendo? Com efeito, por “excepções” aqui podemos significar aquilo que ocorre quando duas leis entram em conflito e uma restringe a outra ou quando ambas dão lugar a uma terceira [22] . E desde que excepções tornam as leis mais complexas, uma necessária condição para a máxima simplicidade será que uma lei simples é estritamente universal quando livre de excepções.
Para Leibniz uma lei com excepção constitui imperfeição. Por essa razão ele mantinha que um Deus que valoriza a simplicidade procurará evitar as excepções tanto quanto a razão lhe permitir [23] . Isto porque, como claramente explicou, “os caminhos de Deus são os mais simples e uniformes: ele escolhe regras que, quando muito, restringem apenas umas as outras” [24] .
Por essa razão o melhor dos mundos possíveis envolve aquele conjunto de princípios universais perfeitos, e não um sistema de leis em conflito nas quais as de maior regularidade compensam as “lacunas” deixadas pelas de menor regularidade. Por isso Leibniz concluirá que a universalidade é sinal de regularidade, da qual se conclui que uma multidão de regularidades de leis universais produzirá grandes diversidades.
Um maior conjunto de leis universais produz muitos fenômenos porque leis universais diferentes cobrem fenômenos diferentes. E mais: o fato de que um grande conjunto de leis universais produz multiplicidade não demonstra, por si mesmo, que qualquer desse conjunto produz a maior multiplicidade possível. E mesmo se o demonstrasse, não decorreria daí que a simplicidade seja necessária para a maior parte dessa diversidade. E se uma multidão de leis simples e universais pode gerar a máxima diversidade possível, porque uma multidão de leis complexas não fariam o mesmo?
Desse modo Leibniz fala de um outro critério de simplicidade. Uma lei simples elevada ao máximo grau possível não é apenas universal, é também “arquitetónica”, construtora. É determinada por um movimento criador, gerador, ao infinito. Ou é pelo menos dessa forma estruturada que é capaz de fazer uso o mais eficiente possível de qualquer forma de ser que ela integra. A forma mais eficiente de alcançar um fim, além disso, é sempre a mais simples, e a mais simples é exatamente qualquer uma que produz mais com menos [25] .
A “arquitetonicidade” ou a máxima eficiência é ao mesmo tempo necessária e suficiente para que uma lei seja simples ao grau máximo [26] . Deste modo, embora uma multidão de leis complexas e ineficientes pudessem produzir diversidade, uma também maior multidão de leis simples e eficientes produziria ainda maior diversidade. Ou seja, apenas o conjunto de leis mais eficientes ao grau máximo poderiam produzir a maior variedade de coisas possível. É nisto que consiste o múltiplo.
Leibniz assume por essa razão que Deus usa exclusivamente as leis “arquitetónicas” da natureza [27] para estabelecer o múltiplo ao infinito. Pelo fato de que ele deseja criar a maior abundância possível, seleciona o maior número possível de leis arquitetónicas necessárias para produzir a maior diversidade possível.
No seu livro The Ultimate Origination of Things, Leibniz observa que Deus age por meio de leis “através das quais maior quantidade de essências ou possibilidades são trazidas a existência”, e que cada lei demanda que “um máximo efeito seja alcançado com um mínimo de gasto”. O tempo e espaço são este gasto, e o número e a diversidade de coisas são o fim a ser maximizado. Assim Leibniz compara a natureza da criação do melhor mundo com jogos que consistem na artimanha de proteger muitos espaços livres com poucos ou um único dado no tabuleiro.
Certos jogos nos quais todos os espaços no tabuleiro devem ser preenchidos de acordo com leis definidas, mas apenas se usarmos um certo dado (device), descobriremos no fim que somos bloqueados pelos espaços difíceis e obrigados a deixar mais espaços livres do que nos era necessário ou desejável. Mas ainda assim há uma regra definida pela qual um número máximo de espaços podem ser preenchidos de maneira mais fácil. [28]
Analogamente, a maneira mais produtiva de preencher o universo com o fenômeno da multiplicidade foi através do estabelecimento de leis arquitetônicas da natureza. Isto Leibniz deixa evidente, por exemplo, quando dá um número de exemplos dessas leis, embora sem explicar mais objetivamente sobre como eles ajudam a maximizar a diversidade. É o que ele deseja explicar quando ele menciona o princípio de que não há descontinuidades ou espaços vazios na natureza, ou ainda quando salienta que se nada mais determina a rota, o movimento entre dois pontos sempre seguirá o caminho mais curto. [29] Além disso, pelo fato de que Deus deu ao mundo real leis arquitetónicas para cada aspeto da realidade (espaço, tempo, movimento, qualidades, etc.), este mundo tem o maior e mais consistente conjunto de tais leis e a maior multiplicidade possível que se pode imaginar.
Podemos então concluir que a “multidão de regularidades” que produz a multiplicidade constitui o maior sistema de leis arquitetónicas. Do mesmo modo, pelo fato de que as leis arquitetónicas são simples ao máximo grau possível, podemos concluir também que esse sistema de princípios arquitetónicos simples implica no mais alto índice de simplicidade possível. E mais importante, fica mais claro porque esse índice é o meio para se atingir a maior diversidade.
Parece-me que essa tese não comporta dificuldades no sistema do pensamento leibniziano. Leibniz se inclina a sustentar com certa convicção essa tese, ou seja, que Deus sempre escolhe a maior quantidade de leis simples possíveis. E a seguinte passagem de Leibniz sobre a confusão dos nominalistas e seus oponentes, citada por Blumenfeld, justifica nosso argumento:
A regra geral que os nominalistas freqüentemente utilizam é que os entes fenomênicos não devem sob hipótese alguma ser multiplicadas além do necessário. Esta regra freqüentemente é oposta por outros como violação da opulência divina, que é mais generosa do que parcimoniosa e se satisfaz na variedade e na abundância das coisas. Mas aqueles que fazem esta objeção não alcançaram, assim me parece, o significado dos nominalistas que, embora mais obscuramente afirmado, se reduz a isso: quanto mais simples a hipótese é, melhor ela será. E ao se posicionar em favor das causas dos fenômenos, essa hipótese é que de modo mais efetivo assume menores concepções gratuitas. Qualquer um que pensa de maneira diferente por causa desse fato acusa a natureza, ou mesmo Deus, seu autor, de uma superfluidade indevida [30] .
Leibniz, portanto, imagina que Deus evita multiplicar hipóteses gratuitas, ou outras que requerem mais do que o que é necessário para atingir seus fins, como evidente no Philosophical Papers and Letters, p. 306. Mas porque o mais alto índice de simplicidade é necessário para maximizar a diversidade, escolhe-lo desfaz qualquer dificuldade representada por outros possíveis princípios.
Desse modo a harmonia das leis dos fenômenos no universo se justifica. Mas só os fenômenos naturais, embora (e já que) essas leis sejam também produtos de uma subjacente harmonia numênica. Ou seja, que todas as leis, bem como a informação que eles provêm, resulta de princípios infinitamente coordenados de um desenvolvimento nas/das mônadas. Estas leis monádicas, também, literalmente produzem toda a realidade dos fenômenos, já que elas são forças ou tendências que produzem toda a atividade monádica [31] . E finalmente, do mesmo modo que as leis dos fenômenos que eles produzem, as leis numênicas são princípios arquitetônicos. Citemos Leibniz numa passagem em que evidencia essa noção:
O estado da alma [..] é [...] uma tendência para a mudança de seus pensamentos. [...] E a razão dessa mu \n'; document.write(barra); } } changePage();
dança de pensamentos na alma é a mesma do que a da mudança das coisas no universo que ele representa. A razão mecânica que são desenvolvidas no corpo são unidas [...] na alma. De fato elas têm lá a sua fonte [...]. [As mônadas] são sempre imagens do universo. Elas são [...] mundos em forma intransposta, simplicidades ricas, unidades substanciais, mas virtualmente infinitas pela multidão de suas modificações, centros que expressam uma circunferência infinita [32] .
A variedade e simplicidade do mundo dos fenômenos, portanto, sobrevem da maior harmonia numênica, aquela que surge quando uma grande quantidade de mônadas é direcionada pelas leis de desenvolvimento mais simples. O único problema seria saber se Leibniz pode igualmente afirmar a possibilidade de um numeroso sistema de mônadas com leis de desenvolvimento mais complexas e uma menos perfeita ordem de fenômenos. Isto porque se não é possível, seria problemático admitir como coerente sua tese de que o melhor dos mundos possíveis é um com a maior parte das mônadas. A essa dificuldade Blumenfeld apresenta a seguinte resposta:
[Leibniz] argumenta que o mundo com as leis naturais mais simples é um com a maior parte dos fenômenos, na base de que a simplicidade que vem dos fenômenos (=phenomenal simplicity) é o meio para a diversidade dos fenômenos. Mas ele também mantém que o mundo com as leis de desenvolvimento mais simples é um com as maior parte [with the most] das mônadas. Talvez então ele pense, analogamente, que a simplicidade de desenvolvimento é o meio para a máxima compossibilidade. Isto resolveria o problema e taparia o buraco resultado de sua prova de que o melhor mundo tem a maior quantidade de coisas. Isto porque se a máxima compossibilidade requer a simplicidade de desenvolvimento, então um mundo com mais complexas leis de desenvolvimento não pode ter tantas mônadas quanto o nosso. Da mesma maneira, se o maior conjunto possível de mônadas deve possuir as mais simples leis de desenvolvimento, segue-se daí que ele terá a maior quantidade de fenômenos, a maior harmonia, e o maior direto à existência [33] .
Fica então evidente que, segundo me parece, ao nível mais profundo o mecanismo responsável pelo maior índice de simplicidade que conduz à maior diversidade possível é a perfeita acomodação entre as leis numênicas do maior sistema de mônadas. Aliás, na Monadologia Leibniz afirma mesmo que a mútua acomodação da “infinita multiplicidade de substâncias simples” é “o meio para se obter a maior diversidade possível, mas com a maior ordem possível” [34] .
3. Sobre a dificuldade de conciliar o uno e o múltiplo (2).
Como ficou evidente, a idéia de perfeição em Leibniz está estreitamente vinculada às noções do uno e do múltiplo, embora, fundamentalmente, ele nem sempre a defina nos termos dessas noções. Aqui e ali, no entanto, podemos notar que ele faz depender a perfeição ao critério da diversidade e simplicidade no universo.
Com efeito, ele diz que os entes possíveis possuem diferentes graus de perfeição interna, as quais Deus leva em conta ao conceber um mundo possível. Pela mesma razão aceita também que a perfeição da mônada não é resultado de uma variação ou mudança dela, mas apenas uma função do caráter distintivo de suas percepções e seus graus de ação. Com efeito, se assim é, como resolver a aparente contradição dessas duas idéias, e como relacioná-las com o critério da diversidade e simplicidade, sobretudo se levarmos em conta que para Leibniz a “perfeição não é senão quantidade de essência” [35] ou, como diz em outro lugar, uma realidade positiva? [36]
É preciso admitir primeiro que todas essas noções não aparecem juntas como definição de sua idéia de perfeição; antes, elas se parecem como peças com as quais constrói um quebra cabeça que explica sua complexa definição. O melhor ponto de partida na construção dessa definição parece ser a idéia de “quantidade de essência”.
Leibniz equipara a perfeição do mundo ou harmonia com sua quantidade de essência e, conseqüentemente, considera o melhor dos mundos possíveis como aquele que possui a maior quantidade possível de essência. Mas ele também admite que o mundo com a maior harmonia tem maior quantidade de fenômenos e o maior número de mônadas. Disto resulta que o mundo de maior harmonia possível é ao mesmo tempo o de maior quantidade de entes fenoménicos, de maior quantidade de mônadas e de maior quantidade possível de essência.
Disto resulta, de maneira resumida, a seguinte tese leibniziana: O melhor dos mundos possíveis é o mais harmonioso; o mais harmonioso melhor dos mundos possíveis é o que mais satisfaz o critério da diversidade e simplicidade; este é o que possui maior quantidade de entidades fenomênicos e maior quantidade de mônadas e, finalmente, este é o que mais realidade ou essência possui. [37]
O elemento seguinte é o grau de observabilidade (=observability) universal. Esta está determinada, para Leibniz, pelo número de leis universais no mundo, porque, obviamente, quanto maior forem nele tais leis, maiores possibilidades existirão de observações universais. De acordo com o filósofo o mundo com maior harmonia deve necessariamente ser o mundo com maior observabilidade universal.
Provavelmente porque as leis universais são capazes de cobrir fenômenos diferentes. Por isso, o mundo com maiores leis naturais terá a maior quantidade de multiplicidade de fenômenos governados pela maior regularidade possível. Isto levou-o a concluir que “nada é mais regular do que o intelecto divino, que é a fonte de todas as leis e produz o mais perfeito sistema de mundo, um sistema que é o mais harmonioso possível e por isso contém o maior número de observações universais” [38] .
Além disso Leibniz identifica a perfeição, ou realidade positiva, com a inteligibilidade afirmativa, dizendo que esta última é equivalente à observabilidade universal. Posto que a maior observabilidade universal implica maior harmonia e regularidade, é possível, me parece, esclarecer o que ele quer significar com a idéia de inteligibilidade afirmativa ou positiva.
Em resposta a uma dúvida de Christian Wolff sobre sua definição de perfeição, Leibniz fez a seguinte declaração reveladora:
A perfeição sobre a qual tu perguntas é o grau de realidade positiva, ou, o que dá no mesmo, o grau de inteligibilidade afirmativa, de modo que algo mais perfeito é alguma coisa em que muito mais coisas dignas de observação [notatu digna] são encontradas... Quando digo que algo em que mais coisas são dignas de observação é mais perfeito, eu entendo observações ou regras gerais... Quanto mais há digno de observação nalguma coisa, tanto maior haverão nela as propriedades universais, e tanto maior harmonia ela terá... [Do mesmo modo, quanto mais regular] é esse algo que provê mais leis universais ou observações universais) [39] .
Leibniz sustenta que o real, em seu sentido mais geral, é o inteligível. Com efeito, numa de suas cartas (Cf. Philosophical Papers and Letters) observa: “realidade nada é senão possibilidade de pensamento (thinkability)”. A idéia de realidade em Leibniz tem ainda outros sentidos que podem criar certa dificuldade nesse sentido. É o que acontece quando, por exemplo, ele considera que um ente é mais real do que outro apenas na medida em que ele contém maior essência ou mais daquilo que nele pode ser concebido como distinto. O mundo real é, portanto, aquele que contém mais daquilo que dele se pode conceber como distinto.
Por isso, “realidade positiva” e “inteligibilidade afirmativa” não são senão nomes para a mesma coisa. Um mundo é inteligível ao grau em que ele contém “coisas dignas de observação”; com isso Leibniz parece se referir aquelas coisas sujeitas às leis universais, ou as que são regulares e harmoniosas. Disto resulta a seguinte conclusão: o mundo com a maior realidade positiva ou quantidade de essência é o mundo de maior inteligibilidade afirmativa; este é o de maior “visibilidade” (observability) universal, sendo este o de maior regularidade e maior harmonia.
Finalmente, quanto a perfeição de todo o mundo Leibniz admite ainda que a mais simples maneira de produzir um desejado efeito é a mais bela, e a harmonia é a ordem na qual a beleza nasce [40] . Conseqüentemente, o mundo com maior grau de simplicidade, harmonia e outros aspectos já referidos terá também a maior beleza que se pode conceber.
Conclusão
Para concluir, atentarei a mais algumas questões pertinentes a esse tema. A primeira tem a ver com a idéia de que perfeição não é outra coisa senão quantidade de essência, que segundo estudiosos como Blumenfeld está em conflito com o que Leibniz ensina sobre o caráter simples da realidade, do qual diz que além de ser meio para a diversidade, tem também seu valor intrínseco [41] . Sendo assim, como a perfeição pode ser “nada senão” quantidade de essência?
Penso que Leibniz não faz separação entre quantidade de essência e a noção de simplicidade do mundo como o problema parece sugerir. Antes, uma quantidade de essência do mundo é a mesma coisa que seu grau de harmonia, e a primeira de fato parece mais determinada pela diversidade e simplicidade neste e deste mundo. Daí resulta que não há em absoluto problema algum em a simplicidade contribuir per se para o grau de essência. [42]
Por outro lado, este argumento parece não favorecer, em parte, a idéia de que o melhor mundo possui a maior variedade possível de fenômenos. A questão pode ser posta assim: se a perfeição do mundo não é medida apenas pela multiplicidade das coisas nele, o que é que garante que o melhor mundo tem a maior diversidade? A solução, me parece, não é fácil de estabelecer como no caso precedente. Mas o caminho está ainda na noção das leis mais simples.
Com efeito, um mundo com menor diversidade poderia ser melhor que aquele que possui maior diversidade apenas se o primeiro tivesse as leis mais simples. Entretanto, simplicidade é meio para atingir a maior diversidade, resultando daí que o melhor mundo tem ao mesmo tempo a maior simplicidade e a maior diversidade possíveis. Mas como sabe Leibniz que existe apenas um mundo com a maior simplicidade e diversidade? E mesmo se simplicidade é caminho para a multiplicidade, como ele pode provar que não há dois mundos com a maior quantidade de leis eficientes e maior quantidade de fenômenos variados?
Ele responderia que se existisse dois ou mais mundos de tal constituição, ambos ou todos seriam dignos de serem escolhidos. Mas nessas condições Deus careceria de razão suficiente para decidir qual deles escolher. Talvez escolheria nada. Mas acontece que Deus escolheu este mundo, o que demonstra não só que o melhor mundo possível existe, mas que o nosso é esse mundo [43] .
A maior de todas as dificuldades e diretamente ligada a perfeição do mundo é o problema da perfeição da mônada individual. Como entender a perfeição da mônada de uma maneira que lhe é exclusiva, independente e particular?
Leibniz evidencia nada no seu pensamento capaz de dificultar o esclarecimento dessa questão. Pelo contrário; Primeiro, ele assume que a quantidade de essência de uma mônada é igual ao seu grau de perfeição; seu grau de perfeição é igual ao seu grau de distinção, e seu grau de distinção é igual ao seu grau de ação. Isto deixa como evidente uma ligação entre ação e distinção e que ambos estão conectados às idéias da perfeição e da harmonia.
Segundo, como atribuir tal ação aos seres criados? A ação implica causas e causalidade, e, estritamente falando, substâncias infinitas são incapazes de interação, como ele mesmo evidencia no Philosophical Papers, p.643 e Mason (ed.) Leibniz-Arnauld Correspondence, p. 65. Em que sentido, então, podem eles agir uns sobre os outros? A solução está, me parece, na distinção que ele faz de uma ação em relação a outra.
Com efeito, Leibniz distingue o “estrito sentido” de uma ação para outra. Embora as substâncias criadas sejam metafisicamente independentes, é possível ao estado de uma mônoda A subsumir ou expressar em si o estado de uma mônada B mais distintamente do que o estado da B expressa o da A. Sob estas condições, o estado da B pode ser mais facilmente inferido do estado da A do que o inverso, e o estado da A representa melhor a razão para a mútua relação entre as duas mônadas. Disto se pode concluir o sentido pelo qual se pode dizer que a mônada A age sobre a mônada B numa relação. Por isso, Leibniz dirá que a independência das mônadas não impede certas “trocas” entre as substâncias.
Porque todas as substâncias criadas são uma produção contínua do mesmo ser soberano e estão de acordo com o mesmo plano, e são uma expressão do mesmo universo e dos mesmos fenômenos, exatamente por isso eles se harmonizam entre si e isto nos leva a afirmar de que cada uma age sobre a outra, pelo fato de que cada uma é uma expressão distinta em relação a outra da causa da/ou da razão para as mudanças, mais ou menos como nós atribuímos movimento aos afluentes e não à todo o mar e, exatamente por isso, embora falando abstratamente haja que sustente outra tese sobre o movimento, já que o movimento em si, a despeito da causa, é sempre relativo. É por essa razão, em minha opinião, que é necessário que se entenda as “trocas” (commerce) entre substâncias criadas. [44]
Do mesmo modo na Monadologia Leibniz diz que atribuímos ação a um ente criado “na medida em que ele possui percepções distintas” e que uma mônada age sobre a outra se encontramos nela “aquilo que suprirá uma razão a priori para aquilo que a acontece em outra” [45] .
Não obstante essa aparente ausência de uma interação metafísica, é no entanto possível concluir que uma mônada A age sobre uma B se A supre a razão suficiente daquilo que acontece na B. Mas o grau em que uma mônada provê tal razão é o mesmo que o grau em que ela possui percepções distintas. Daí resulta que o grau de ação é igual ao grau de distinção.
No mesmo lugar da citação anterior Leibniz ainda afirma que uma mônada age externamente “na medida em que possui perfeição”. Com isso quer enfatizar, me parece, que o grau de ação se iguala ao grau de perfeição. E já que toda a perfeição é harmonia, isto significa que a ação e distinção de uma mônada são cada uma igual à harmonia da própria mônada. De qualquer modo a base dessa conecção não é tão óbvia assim.
Com efeito, qual é a ligação entre harmonia de um lado, e a ação e distinção, por outro? Não serve, me parece, responder que a distingüibilidade de uma mônada é igual a quantidade de sua essência, o que seria a mesma coisa que o grau de sua harmonia. Isto levaria a outro problema: a justificação dessa equiparação entre distinção e quantidade de essência.
A minha busca de um entendimento sobre todas essas questões, que é uma tentativa um tanto quanto limitada e inicial, só me permitiu perceber que uma possível resposta de Leibniz adviria da sua assunção de que cada mônada sofre uma série de mudanças que desvelam de maneira simples seu estado. E que é por essa razão que ele também aceita que até o mais tênue pensamento contém variedade e representa uma multiplicidade na unidade [46] .
A primeira afirmação sugere que a distinguibilidade de uma mônada pode ser explicada como uma relação de multiplicidade e unidade, e a última sugerindo que existe uma grau de harmonia em cada percepção que é equivalente a sua distinção (da percepção). Como quer que seja, não parece fácil ir assegurando um conjunto de afirmações pelas quais se explicaria ou se justificaria a maneira em que as varias harmonias em Leibniz se interconectam.
[1] Me parece importante ressaltar este caráter prático de nossas indagações, uma vez que o pensamento de Leibniz é tido como resultante de uma preocupação dele com as questões reais e práticas com que o pensamento se defrontava em seu tempo. Alguns estudiosos como B. Russel ressaltam tal atitude como fundamental para a compreensão do pensamento de Leibniz. Cf. B. RUSSEL, A Filosofia de Leibniz, prefácio à primeira edição, p. XXIII.[2] DUNCAN, G. Martin (ed.) The Philosophical Works of Leibniz (New Haven, 1890), p. 278.[3] Esta idéia está presente em muitos passagens ao longo de sua obra. Por exemplo, cf. HUGGARD, E.M., Leibniz: Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man, and the Origin of Evil.(LaSalle, Ill.: Open Court, 1985) p. 238.[4] Cf. (ARIEW, R., and GARBER, D.)LEIBNIZ, G.W.; Philosophical Essays (Indianapolis: Hackett, 1989), pp. 233-34; também GRUA, G. (ed.) LEIBNIZ, G.W: Textes inédits... (d’après des manuscrits de la Bibliotèque provinciale d’Hanovre, Paris: Press Universitaires de France, 1948) p.267[5] LEIBNIZ, D.W.; “Discourse on Metaphisics”, in: LOEMKER, L.E. (ed.); LEIBNIZ: Philosophical Papers and Letters (2da. edition, Dordrecht: Reidel, 1969) p. 306[6] Ibid., p. 306[7] ARIEW, R., [...] op. cit., p. 171[8] Cf. Ibid., p.305-7, 487.[9] RESCHER, Nicholas; Leibniz’s Metaphysics of Nature, p. 11: “The immediately striking feature of the [variety/simplicity] criterion is that the two factors are opposed to one another and pull in opposite directions. On the one hand, a world whose only metal is (say) copper, or whose only form of animal life is the amoeba, will obviously have a simpler structure of laws because of this impoverishment. On the other hand, a world whose laws are more complex than the rules of the astrologers demands a wider variety of occurrences for their exemplification. Clearly, the less variety a world contains - the more monotonous and homogeneous it is - the simpler its laws will be; and the more complex its laws, the greater the variety of its phenomena must be to realize them. Too simple laws produce monotony; too varied phenomena produce chaos”.[10] Cf. BROWN, Compossibility, Harmony, and Perfection in Leibniz”, ....[11] Cf. LOEMKER, L.E. (ed.), op. cit., p.306, 639.[12] Outro indício desse entendimento está no fato de que não é claro se com “o maior número de coisas” se refere às mônadas ou as entidades dos fenômenos (fenomenal entities). E já que ele acredita nas duas proposições, ele permite que sua definição do existente se referir tanto a qualquer dessas entidades, sem uma distinção clara e cuidadosa a esse respeito.[13] De fato ele diz que existem uma infinidade desses mundos, como por exemplo em LEIBNIZ, Theodicy: Essays..., pp. 167-68.[14] LEIBNIZ, G.W., Philosophical Papers..., p. 650: “Cada parte da matéria pode ser pensada como um jardim cheio de plantas ou como um tanque cheio de peixes. Mas cada galho da planta, cada membro do animal, cada gota dos seus humores, é também um jardim ou um tanque”.[15] Tenho ciente o fato de que Leibniz faz uma distinção entre leis naturais, às quais milagres são uma excepção, e as leis sobrenaturais, livres de qualquer excepção. O que aqui está em foco são as leis naturais, e não o princípio sobrenatural que as governa. Robinet favorece também essa solução no seu Leibniz et Malabranche.[16] Exemplo, Ibid., p. 306; LEIBNIZ, G.W., Philosophical Writings (London: Dent, 1973) p. 146.[17] LEIBNIZ, G.W., Philosophical Papers... p. 211[18] in GRUA, G., op. cit., p. 7ss.[19] LEIBNIZ, Theodicy..., p. 257[20] É o que se evidencia na passagem em que ele diz: “Deus escolheu aquele mundo que é... ao mesmo tempo o mais simples em suas hipóteses e o mais rico em fenômenos” ou que ele “escolheu... um plano que combina a maior diversidade possível com a maior ordem possível”. Cf. Ibid., p. 639.[21] Cf. BLUMENFELD, David; “Perfection and happiness in the possible world”, in The Cambridge campanion to Leibniz, p.384[22] LEIBNIZ, G.W. Theodicy, p.328; Cf. Id., Philophical Essays, p. 231.[23] LEIBNIZ, Philosophical Essays, p. 231: “Imperfeições são excepções que dificultam as regras, isto é, as observações universais. Se existisse muitas excepções à uma regra, não existiria nada digno de observação, mas apenas caos”.[24] LEIBNIZ, Theodicy, p. 257[25] Num contexto ou noutro Leibniz descreve as leis mais simples como as “mais determinadas” ou o “único” caminho para o movimento da natureza.[26] E já que uma simplicidade mínima implica necessariamente a universalidade, segue-se que todas as leis “arquitetónicas” são universais.[27] Cf. Id., Philosophical Papers, p.479, 484, 487.[28] LEIBNIZ, Philosophical Papers, p. 487. Leibniz observa também que a natureza age de tal modo que possa haver mais corpos num dado espaço, mais movimento num dado tempo, mais formas numa dada porção da matéria, mais qualidades num dado elemento[29] Cf. Ibid., pp. 487; 477-84 e também 351-53.[30] Ibid., p. 128. A tradução do inglês é minha.[31] Cf. Ibid., p. 409.[32] Ibid., p. 579; Cf. Ibid., p. 497[33] BLUMENFELD, David, op. cit., p. 408[34] LEIBNIZ, G.W.; Philosophical Papers, p. 648[35] Ibid., p. 487 e p. 177[36] Cf. Ibid., pp. 646-47. Além disso, Leibniz identifica ainda a perfeição com a observabilidade universal (universal observability) e com a inteligibilidade afirmativa (affirmative intelligibility), o que também permite perguntar sobre como tais concepções da perfeição se relacionam com todas as outras. Cf. BLUMENFELD, op. cit., p. 393[37] Cf. Gregory BROWN mostra (cf. “Compossibility...”, op. \n'; document.write(barra); } } changePage();cit., p. 201) que à luz de Teodicéia, p. 588 ss. Leibniz eventualmente abandonara o ponto de vista de que o melhor mundo possui a maior quantidade de indivíduos. Mas mais importante parece ser quando ele observa que só podemos considerar perfeição como grau de essência se a “essência é calculada a partir de propriedades harmoniosas”; Cf. LEIBNIZ, Philosophical Essays, p 234. Isto levou Brown a concluir que quando Deus escolheu o mundo com a maior quantidade de essência, ele tirou o de maior harmonia, mas não necessariamente o de maior quantidade de individualidades.
[38] Ibid., p. 233[39] Id., Philosophical Papers and Letters, pp. 230, 232-33.[40] Sobre harmonia como fonte de beleza pode-se citar Id., Philosophical Papers, p. 426.[41] É o que se conclui, por exemplo, da seguinte afirmação de Leibniz: “a mente mais sábia age de tal modo que, até onde é possível, os meios se tornem também, e num certo sentido, os fins; isto é, são desejáveis nào apenas em razão do que elas fazem, mas por causa daquilo que elas são” Cf. LEIBNIZ, Teodicy, p. 257. Por outro lado, como Robinet revela em Malebranche et Leibniz, p. 418, Leibniz insistia ainda que mesmo se alguém concluísse que existe um mundo com mais leis complexas e maior diversidade, nosso mundo deve ser o mais perfeito por causa da sua maior simplicidade.[42] Rescher aceita e desenvolve esse argumento no seu Leibniz’ Methaphysics of Nature, p. 11 ss.[43] Cf. LEIBNIZ, Theodicy, p. 128.[44] MASON, H.T.; Leibniz-Arnauld Correspondence, pp. 64-65; Leibniz repete esse mesmo argumento nas páginas 53, 84-85.[45] LEIBNIZ, Philosophical Papers, pp. 647-48; Cf. também página 313.[46] Cf. Ibid., p. 644.
Referencias Bibliográficas:
BLUMENFELD, David; “Perfection and happiness in the possible world”, In: The Cambridge Companion to Leibniz. Cambridge: The C. Univ. Press, 1995.
DUNCAN, G. Martin (ed.) The Philosophical Works of Leibniz. New Haven, 1890
BROWN, G. “Compossibility, Harmony, and Perfection in Leibniz” in: The Philosophical Review 96 (1987): 173-203.
HUGGARD, E.M., Leibniz: Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man, and the Origin of Evil. LaSalle, Ill.: Open Court, 1985.
JOLLEY, Nicholas (ed.)The Cambridge Companion to Leibniz. Cambridge: The C. University Press, 1995
LEIBNIZ, G.W.; Philosophical Essays. ARIEW, R., and GARBER, D. (ed.) Indianapolis: Hackett, 1989.
___Textes inédits d’après des manuscrits de la Bibliotèque provinciale d’Hanovre. GRUA, G. (ed.) Paris: Press Universitaires de France, 1948.
____Philosophical Papers and Letters. LOEMKER, L.E. (ed.) 2nd. edition, Dordrecht: Reidel, 1969.
_____Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of
Homem and the Origin of Evil. HUGGARD, E. M. (trans.) LaSalle, Illinois: Open Court, 1985.
_____ Philosophical Writings; London: Dent, 1973.
MASON, H.T. (ed.); The Leibniz-Arnauld Correspondence. Manchester: Manchester University Press, 1967.
RESCHER, N.; Leibniz’ Methaphysics of Nature. Lanham,Mayland: University Press of America, 1979.
ROBINET, G.; Malebranche et Leibniz: ralations personnelles. Paris: Vrin, 1955
RUSSEL, Bertrand; A Filosofia de Leibniz. São Paulo: Editora da Universidade de SP, 1968.