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INTERNET:
METÁFORA DE DEUS NA ERA DIGITAL?
©Zakeu A. Zengo
Alguém disse recentemente que a Internet oferece à humanidade uma nova janela por onde se pode enxergar o infinito. De fato, a rede dos computadores que interligam o mundo da informação das experiências íntimas de pessoas e instituições humanas têm aumentado a sensação de que o mundo não é mais previsível, ao ponto de provocar sensações espirituais e religiosas de grande significação. Todas as coisas no mundo atual parecem evoluir, com a internet, por meio de forças que não podem ser controladas. Ela revela a autonomia de uma força que tudo condiciona, auto-suficiente, que lembra a evocação do poder atuante de Deus no meio da criação. Por isso mesmo, a internet tornou-se, no campo dos símbolos da vida, uma metáfora de Deus. É uma instância que cumpre bem, para uma grande maioria dos seus usuários compulsórios, o objetivo de suscitar o senso do numinoso, a consciência do sagrado. Mas, até que ponto a Internet é essa metáfora de Deus?
Como um cristão convicto que sou e um teólogo da cultura, alguém que se tornou, pessoal e academicamente envolvido todos os dias com essas questões, e que por força da pesquisa acadêmica gasta muito tempo com incursões no mundo da grande rede da informação, desejo tecer algumas observações a respeito do assunto. E o problema que se põe é exatamente o seguinte: se a Internet está cada vez mais sendo pesada pelo seu significado um tanto sagrado, que tipo de símbolo "religioso" ela é?
Para muitos deve ser algo um tanto forçado conectar Deus e a Internet numa coisa só. Muitas circunstâncias alimentam essa resistência. Antes de mais nada, o computador é uma máquina,, e Deus de modo nenhum pode ser identificado como uma máquina, que por definição é um objeto de origem humana e não divina. Ademais, máquinas pertencem ao universo da matéria palpável, enquanto a grande maioria imagina Deus como um espírito - ou ao menos uma força invisível. Entretanto, no universo atual feito de redes, essa fronteira entre o humano e o mecânico está em colapso. Enquanto os computadores cada vez mais fazem coisas que antes só eram feitas por seres humanos, e por essa razão as pessoas cada vez mais procuram fundir suas atividades diárias com os seus computadores (incluindo a mais humana de todas as atividades: a comunicação), num futuro bem próximo as redes de computadores se tornarão não só parte do ser das pessoas, mas serão mesmo uma extensão desse ser.
Desde a sua concepção e início a Internet veio crescendo tanto em tamanho quanto em função, com uma força não prevista e nem planejada por seus genitores. Sua popularidade surpreendeu até os especialistas abalizados nessa tecnologia, como é o caso do cidadão americano Bill Gates que por causa dela hoje anda às voltas com a fúria da justiça americana. Ela continua dando sinais de crescimento acima da capacidade de controle de seus idealizadores. Trocado em miúdos, isto só quer dizer que a internet tem mais em comum com o monstro do Dr. Frankenstein do que com o Deus criador e amoroso revelado nas escrituras sagradas. E se ela está se comportando hoje como um símbolo para Deus, temos de perguntar que tipo de símbolo é esse. Ou, mais importante talvez, que tipo de Deus é esse ao qual ela se refere.
Tomemos outro fato simbólico como ilustração. Num dos números da trilha sonora do filme Evita, o narrador pergunta sobre a personagem interpretada brilhantemente por Madonna: "Que tipo de deusa é essa que viveu entre nós?". Com efeito, se a Internet pode ser tomado como símbolo de Deus, por aquilo que está podendo representar nas emoções e experiências do homem pós-moderno, ela aparece em primeiro lugar tão deslocado das imagens tradicionais de Deus assim como Madonna é deslocada da imagem da mãe do Deus-Filho, cujo nome coincidentemente ela carrega. A Internet é basicamente um símbolo diferente daquele associado com a divindade tradicional da fé judeu-cristã.
Recordemos por exemplo as imagens de Michelangelo, pintadas no teto da capela sistina. Nelas, à luz da imaginação criadora revelada em Gênesis, Deus, o Pai todo poderoso e criador, chama à existência todos os mundos e planetas por meio de uma simples ordem. Essas imagens do velho imaginário estético estão hoje sendo renovadas na imaginação pós-moderna graças a presença delas na Internet. Ao contemplar-se tais imagens desvinculadas do seu contexto primitivo, as capelas e catedrais, e postas diante de nossos olhos na superfície lisa da tela do computador, fica aparente quão pouca credibilidade elas têm. Isto porque num tempo em que a própria instituição do patriarcado é posta em questão, não é de espantar essa projeção de Deus com um pai todo-poderoso assim como a internet é portadora de um poder simbólico incontestável. Num tempo em que está irremediavelmente patente o fracasso e o desmoronando de todas as ideologias políticas, inclusive o ainda vigente capitalismo, não é mais convincente na lógica das pessoas imaginar-se um Deus sentado num trono, mesmo se esse é aquele lá do céu. Num tempo em que nos conscientizamos cada vez mais da interdependência entre humanidade e o mundo natural, torna-se mais uma expressão de orgulho imaginar a humanidade no topo da hierarquia dos seres.
Na sociedade pós-industrial em que vivemos, símbolos tradicionais e metáforas da vida espiritual foram desconstruídas e continuam sofrendo desconstrução, postas como irrelevantes para a experiência humana. Há muitos anos as crianças nas escolas são treinadas a enxergar o mundo através de uma perspectiva científica. Aprendem que planetas, estrelas e todas as galáxias estão espalhadas caoticamente sobre o universo. Logo, o que significa falar de céu acima, e inferno abaixo, quando sabemos que do ponto de vista científico "acima" e "embaixo" não passam de simples concepções humanas sem representação na realidade? Vê-se aí como em tempo a ciência cavou um grande abismo entre a percepção das pessoas de como esse mundo realmente funciona e como ele é dito funcionar pelas imagens tradicionais e religiosas que herdamos.
E com o esvanecer dos símbolos religiosos tradicionais, outros têm emergido para ocupar o vácuo deixado por eles. Com a renovada apreciação tanto da beleza quanto da fragilidade da natureza, tendemos hoje a enxergar os objetos do mundo natural como possuindo uma potência simbólica. Montanhas, rios, oceanos, falam de um poder e uma presença que está além delas mesmas. Plantas e animais são hoje vistas não mais como objetos criadas por Deus para o usufruto e deleite humanos, mas como partes íntegras de um todo maior, que não pode ser negado, mas atualizado. Em outras palavras, somos todos parte de uma grande rede de criação.
Esta mudança de ordem dos símbolos sagrados não é provocada pelo capricho desordenado dos crentes, ou da capacidade de alguns de sacrificar tais símbolos por causa de atitudes doutrinário-teológico cientificamente ignorantes, mas pelo próprio ambiente cultural, social e político da vida do qual as pessoas emergem. O cenário da religiosidade mundial está passando hoje por uma espécie de sublevação sísmica. Desde suas fundações como repúblicas, impérios ou monorquias, as pessoas nos países desenvolvidos sustentaram sua vida religiosa por meio da afiliação numa ou outra das diversas denominações chamadas tradicionais do cristianismo ocidental (presbeterianos, congregacionais, batistas, epicospais). Estas, entre poucas outras, deram forma à vida espiritual a primeira modernidade dessas nações, bem como suas instituições e governos, à luz de cuja fé organizaram seus sistemas de vida e legalidade.
Nos últimos dois séculos, entretanto, a esses grupos tradicionais juntou-se uma multidão de outros grupos novos, incluídos os católicos e judeus, como paralelos e análogos, constituindo com as antigas o que veio a ser conhecido como "sistema denominacional". Hoje estas denominações, em torno das quais a história dessas nações pode ser traçada, estão em estado de declínio, num estado de queda livre. Enquanto as velhas denominações se desintegram, um esquadrão de novos grupos emerge para cobrir o vácuo que foi se criando: para-igrejas e tele-igrejas, Maioria Moral, Coalizão Cristã, Cruzada Estudantil para Cristo, Marcha de um Milhão. Ao mesmo tempo, a Cabana dos nativos americanos e o Templo Budista, a Mesquita muçulmana e a Livraria da Nova Era tornaram-se parte integrante daquilo que chamamos "espiritualidade" do mundo atual. Ao invés de serem moldadas dentro das denominações tradicionais, a espiritualidade está agora sendo formada nos e através de uma multidão de movimentos religiosos, associações, redes, ministérios e, é claro, os próprios meios de comunicação em massa. Ainda que possa parecer caótico aos olhos do observador casual, este conjunto eclético que associaríamos com a palavra "espiritual" revela formas e símbolos claros, assim como a ordem emerge do caos aparente.
Se no passado Deus era visto como um Senhor todo-poderoso, na era da informação Deus é cada vez mais visível no lugar-comum e costumeiro, e está disponível na intensidade do momento presente. Se na era dos impérios Deus reinava num trono celestial, na era da democracia ele vive dentro dos corações e mentes dos crentes, e todas as criaturas têm um lugar igualmente importante no círculo da vida. Se na era dos governos hierárquicos, Deus se comunicava por meio de ordens que dava, a partir do seu trono no céu, através de mensageiros chamados de servos, num mudo globalizado e interligado como o nosso ele se tornou relacional; o Deus da era da informação fala a partir de dentro dos relacionamentos e acontecimentos da vida diária real. Se na era industrial Deus foi imaginado como o grande arquiteto que inventou as leis da natureza, em meio ao caos do presente ele é visto como o criador disponível para todos no interstício dos seus relacionamentos pessoais. O Deus da era da informação não é o imutável, remoto, o motor imóvel dos antigos, mas o parceiro afetuoso e amante que nos inspira continuamente a crescer, mudar e aprender - a se tornar pessoas justas e amorosas, que vivem e conduzem o próprio ser que é conforme a imagem e semelhança de Deus.
Se a internet está sendo vista como uma metáfora de Deus, não ocorre porque a nova metáfora caiu magicamente do céu, mas pelo mesmo processo através do qual a grande maioria dos símbolos religiosos foi gerada: naturalmente a partir das experiências do quotidiano das pessoas. Deus falava do alto das montanhas para as pessoas que habitavam a volta delas; falava-se de Deus como rei quando as nações da terra eram governadas por verdadeiros reis; do mesmo modo, na era da informação, Deus será percebido como estando presente dentro e através daquela rede que nos conecta uns aos outros e com o mundo em que vivemos. De certo modo, essa rede interligadora é a internet.