História da Igreja Cristã
História da Igreja, por Zakeu A. Zengo
Proibida toda e qualquer reprodução deste material. Já está publicado como livro.

 

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I. O nascimento de Cristo e os fundamentos da Igreja Primitiva

Jesus Cristo é o fundamento sobre o qual repousa o cristianismo. Existindo antes como Deus, ele veio ao mundo (se encarnou) e pregou a fé, o arrependimento, a salvação e o amor de Deus. Deu-se ainda, enquanto Deus encarnado, como sacrifício para morrer pela salvação da humanidade. Assim, ele se tornou não só Senhor da Igreja, mas também o Salvador do mundo.

A existência de Cristo e de sua igreja, o cristianismo, não é um evento isolado do mundo. Ele nasceu num tempo determinado, num contexto histórico determinado e em condições históricas determinadas que servem como pano de fundo para o estabelecimento da sua igreja. É exatamente nesse pano de fundo (Cristo e o contexto histórico em que nasceu) que podemos encontrar as melhores evidências e os melhores vestígios da atuação divina que transformou e deu forma à natureza e mensagem da igreja cristã.

1. A "Plenitude dos tempos"

Leia Marcos 1:15 e Gálatas 4:4. Estes textos revelam que Jesus Cristo não nasceu numa época qualquer, mas ao chegar a "plenitude dos tempos". Como as profecias messiânicas não apontam para uma data da vinda do Messias, não se podem interpretar esses textos como fazendo alusão ao cumprimento de uma profecia específica. De acordo com os estudiosos, a interpretação adequada de "plenitude dos tempos" é: "tempo certo", "momento ideal", "ocasião propícia" designada por Deus, mas não revelada nas profecias escritas.

Assim, temos a seguinte definição técnica para a expressão "plenitude dos tempos": época ou contexto histórico cuja realidade (acontecimentos) foi tremendamente favorável ao objetivo da vinda de Cristo ao mundo, que é a anunciação e propagação universal do Evangelho do Reino de Deus. A natureza dessa realidade é a uniformização cultural e política propiciada pelo sistema administrativo do império romano, somadas as outras contribuições religiosas (dos judeus) e culturais (dos gregos) que já faziam parte desse ambiente mundial.

Não foram todas contribuições positivas, mas em muito contribuíram para levar o mundo uma a situação ideal na qual Cristo exerceria um impacto maior que não teria sido possível até então. Vejamos que realidade e contribuições foram essas.

2. O tempo do nascimento de Cristo

Jesus Cristo nasceu dentro do mundo romano. O mundo composto pelas nações mais conhecidas da época tinha caído sob o controle absoluto dos romanos. A Palestina, terra natal de Cristo, foi submetido pelos romanos no ano 63 a.C. O vasto território que reunia nações da Ásia, África e Europa caíra nas mãos de um mesmo domínio político, jurídico e econômico, o império romano. Chama-se império ao poder político-econômico e jurídico exercido sobre duas ou mais nações autônomas, mas que perderam a sua soberania em favor de uma outra (que as governa) por livre decisão ou à força.

De acordo com o calendário romano, que coloca a data da morte do rei Herodes no ano 4 aC, o ano provável do nascimento de Cristo fica entre 7 e 3 a.C. Além de contada em documentos e obras de historiadores antigos, muitos deles contemporâneos de Jesus, a existência histórica do filho de Deus é totalmente afirmada e historiada pelos evangelhos no Novo Testamento. O cristianismo é também, por isso, um assunto da história da humanidade e a disciplina que estuda tudo aquilo que acontece e aconteceu com ele é a História do Cristianismo (ainda História Eclesiástica ou História da Igreja).


3. Unificação do mundo pelos romanos

A partir do ano 146 a.C. os romanos haviam unificado e dominado, com a força das armas, o vasto território que ia desde a área toda que se estendia desde as Colinas de Hércules, o atual Gibraltar, até os rios Tigres e Eufrates, da Bretanha até o Reno, o Norte da África, tudo isso e mais a região do Danúbio estavam sob o domínio do Império Romano, o palco em que inicia a história da Igreja de Cristo. Nascia o império romano.

(NOTA: INSERIR MAPA DO MUNDO ROMANO: Cf. GONZALEZ, Vol 1, p. 9)

A política de unificação do mundo adotada pelos romanos era tal que facilitou muito o rápido crescimento da igreja primitiva na época dos apóstolos. Antes disso, por obra de outros impérios que também dominaram o mesmo mundo, dois outros fatores já haviam sido introduzidos nele e faziam parte da sua civilização. São a cultura grega e a religião judaica. Juntas, isto é, dominação política dos romanos, cultura grega e religião judaica, constituíram a realidade entendida pelos estudiosos como um "tempo altamente favorável" (=plenitude dos tempos) para a difusão do evangelho e sua rápida expansão.

Contribuíram os seguintes elementos da administração central dos romanos, e outros que caracterizavam essa época:

(a) Contribuição dos romanos. A Paz Romana (Pax Romana), a ordem e as estradas. O governo romano se preocupou em estabelecer paz e ordem social em todos as nações sob o seu domínio, planejou e construiu um excelente sistema viário (caminhos e rotas de navegação na terra, mar e rios) que interligava as várias regiões e nações. Além disso, concedeu cidadania a todos os cidadãos livres em todo o império e estendeu a obrigação do serviço militar a todos os cidadãos do sexo masculino.

O que existia, sob o governo dos romanos era um mundo semi-globalizado, unificado debaixo das mesmas leis válidas para todos os cidadãos, do mesmo sistema econômico e das mesmas determinações políticas. É verdade que no meio dessa unidade havia também problemas e maus costumes mundanos. Lutas internas pelo poder, responsável pelos comportamentos sanguinários das suas cortes e governantes, brutalidade humana exemplificada pelas suas diversões sanguinárias, escravidão, machismo, além de certa intolerância religiosa e devassidão dos costumes, levariam o império à decadência moral.

Veja a descrição que Paulo faz da imoralidade típica desse mundo em Romanos 1:18-32. Leia também atos 17:16-31. Qual é o problema fundamental para o homem? Existe, para Paulo, relação entre idolatria e imoralidade? Em que sentido?

(b) Contribuição dos gregos. A cultura grega é o segundo fator que mais contribuiu para a unidade do mundo romano. Por isso costuma se designar a civilização dessa época de greco-romana. Ela foi espalhada por toda a parte (na verdade imposta sistematicamente) entre os anos 338 e 146 a.C. pelas conquistas de Alexandre, o Grande. Desta cultura dos gregos o mundo da época herdou a língua (grega) e a filosofia (prática de refletir sobre a realidade do mundo e sobre as questões fundamentais da vida humana).

Língua. Do leste ao oeste do império romano falava-se a língua grega. Uma versão mais popular (vulgar), decorrente da mistura do grego com as línguas nativas, se tornou comum entre as populações. É o chamado grego koiné, falado também na Palestina e na grande maioria das regiões ao redor do mar Mediterrâneo. Todo o Novo Testamento foi escrito nessa língua e poderia ser lido em qualquer parte, e os apóstolos e os primeiros missionários pregaram em qualquer canto daquele mundo falando a língua grega.

Filosofia. Séculos antes de Cristo, a filosofia grega levara ao descrédito a existência dos deuses adorados pelos seus antepassados. Por causa dela, e também da derrota das nações por Roma (e outros impérios antes deles), além do aumento do sofrimento no dia-a-dia (os nativos passaram a desconfiar da proteção dos deuses), em todo o império os velhos deuses perderam a sua autoridade e as pessoas começaram a enfrentar algumas questões básicas da vida: "quem sou eu?", "de onde venho?", "que destino nos espera?", "em que posso esperar?". De fato, o vácuo deixado pela queda dos deuses levou a difusão de dois elementos de compensação moral e espiritual: as filosofias da vida e as religiões de mistério (ocultismo, esoterismo, etc.), oriundas do leste (oriente). Tudo isso contribuiu para aprofundar a sede espiritual e a necessidade por um Deus verdadeiramente salvador.

(c) Religiões e filosofias orientais de mistério. Essas religiões ensinavam que o mundo material é transitório e, para salvar-se, o homem precisa libertar-se dele e desenvolver a vida do espírito. A salvação está no alcance dos segredos da vida espiritual. A religião (qualquer que seja), graças a sua dedicação aos mistérios do espírito, leva qualquer homem à salvação. Isto exige iniciação no conhecimento dos mistérios ou da sabedoria oculta (=gnose) e desprezo pelos prazeres do corpo (=asceticismo). Em resumo, as religiões orientais promoveram no império a divulgação de uma nova moralidade (asceticismo), nova segurança para a vida (conhecimento) e nova esperança (salvação), e novo modelo de religiosidade para o qual todas as religiões ajudam (sincretismo). Até certo ponto, muito disso favoreceu o melhor entendimento da mensagem da salvação pela fé pregada pelos primeiros cristãos.

As religiões de mistério caracterizavam-se pelo seu panteísmo e dualismo. Descubra o significado destas duas doutrinas e compare-os com os ensinos bíblicos.

(d) Culto civil imperial. Com base na motivação religiosa comum do homem do mundo antigo, e também no pensamento e religiosidade do oriente (no Egito os faraós eram deuses), o senado romano estabeleceu, a partir do ano 27 a.C, o culto ao imperador. Considerando o imperador como pertence ao mundo divino (Augusto), estabeleceu como dever obrigatório de cada cidadão cultua-lo e dedicar-lhe sacrifícios como um deus. Depois ficou evidente que este culto servia melhor a finalidade de unificar os diversos povos do império romano através da lealdade política e cívica. Mais tarde muitos imperadores utilizarão a obrigatoriedade do culto do estado (civil) para perseguir os cristãos, a quem eles consideraram "inimigos" do bem do império. Como veremos, milagrosamente a perseguição se tornaram num fator de grande crescimento da igreja antiga.


Contribuição dos Judeus. A presença dos judeus no império foi vital para a expansão do Cristianismo no mundo daquela época. Basta notarmos que Jesus Cristo nasceu como judeu e que a igreja começou entre os judeus. No âmbito dos fatores catalogados como essenciais à idéia de "plenitude dos tempos", três foram as contribuições dos judeus: o livro sagrado (Antigo Testamento) e as sinagogas (lugares de culto a Javé).

(a) A Sinagoga e a diáspora. Com a invasão e derrota, pelos persas, dos dois reinos que compunham Israel no século sexto antes de Cristo, teve início um processo de dispersão do povo judeu pelo mundo que dura até hoje. É a chamada diáspora ou dispersão. Desde então, em todas as cidades importantes do mundo antigo existia uma colônia de judeus. E onde existiam judeus havia também uma ou várias sinagogas, onde os mestres e os escribas ensinavam as escrituras (Torá) e promoviam as cerimônias do culto judaico.

(b) A esperança do Messias. É importante também perceber que a transplantação dos judeus para outras partes do mundo levou à decadência do culto javista, denunciada e combatida nos escritos dos profetas menores. Graças ao ministério desses profetas, foi retomado um despertamento espiritual baseado na esperança da vinda do Messias restaurador (um rei político vencedor, que castigaria os gentios e exaltaria os judeus) e na fidelidade e obediência à vontade de Deus. Como conseqüências os judeus, tanto na Palestina quanto na diáspora, começaram um movimento de revoltas (luta) por liberdade política e religiosa contra seus opressores políticos (Assírios, Macedônios e mais tarde Romanos) e uma proliferação de seitas religiosas internas que pregavam, cada uma à seu modo, o ideal de pureza espiritual. Sobre o movimento de revoltas judaicas, veja Lucas 13:1, Atos 5:36,37.

NOTA: Antes do nascimento de Cristo surgiram no mundo antigo várias seitas judaicas que pregavam o ideal de pureza religiosa. As mais destacadas são os Fariseus (insistiram na pureza baseada na absoluta observância da lei mosaica, elaborando leis para a vida diária; tornou-se a mais popular), os Escribas (se notabilizaram por resguardar a pureza das escrituras e prática devida aos seus ensinamentos), os Saduceus (menos radicais, consideraram necessário contextualizar a religião judaica com os valores do mundo; adeptos da filosofia e cultura gregas, chegam a negar a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos) os Zelotes (baseavam suas motivações religiosas no cuidado e zelo espiritual em todos os detalhes da vida prática), os essênios (movimento espiritual radical que pregou a separação total do mundo e suas influências diabólicas; passaram a viver em cavernas ao longo do mar mediterrâneo - sendo Quram o local da comunidade mais destacada - onde aguardavam a vinda imediata do Messias) e os Sicários (para-militares que combatiam com táticas de guerrilha a presença dos opressores políticos na palestina).

Apesar de estarem sob o domínio romano, Herodes o Grande negociou com os romanos e conseguiu garantir legalmente a liberdade de culto para os judeus da Palestina, bem como isenção da obrigação de sacrificar ao imperador. Governados pelo conselho de Jerusalém (=Sinédrio), a vida religiosa dos judeus girava em torno do templo de Jerusalém. Fora de Jerusalém, de mais importância para a vida prática tornou-se a sinagoga. Nelas os escribas ocupavam a liderança que os sacerdotes tinham no Templo em Jerusalém.

(c) O Antigo Testamento. A Bíblia dos judeus é o Velho Testamento. No mundo romano já se utilizava também a versão grega dela chamada "Septuaginta", traduzida na primeira metade do século I a.C. (contagem de trás para frente) por um grupo de setenta eruditos judeus que trabalhavam na biblioteca pública da cidade de Alexandria (Egito), onde também existia a maior e mais importante comunidade judaica da dispersão. Foi essa tradução utilizada no ministério dos apóstolos.

(d) A teologia judaica. Em Alexandria surgiu também a primeira escola teológica judaica que tentou combinar os ensinos das escrituras com a Filosofia grega, prática também utilizada por alguns apóstolos como João e Paulo e, como veremos, por alguns pais na Igreja Primitiva. Para a compreensão do evangelho e sua aceitação entre as pessoas esclarecidas do império romano, este trabalho preliminar dos teólogos judeus em Alexandria (como Fílon) acabou representando uma contribuição fundamental.

Muitos gentios foram atraídos para o judaísmo já desde antes do nascimento de Cristo. Eram referidos como "os que temem a Deus" (sem deixar de ser gentios) ou "prosélitos", (aqueles que se convertiam completamente ao judaísmo). O livro de Atos informa que este grupo foi, muitas vezes, a ponte da igreja para o mundo pagão.

Cristo nasceu numa época muito favorável ("plenitude dos tempos") ao evangelho da salvação e à sua divulgação. Dominado pelos romanos, o mundo estava unificado em torno das mesmas leis, pacificado e cheio de facilidades para viajar de um ponto para outro por terra e mar. Os primeiros evangelistas e missionários que se levantaram na igreja primitiva viajavam através dessas estradas e rotas para alcançar o mundo distante, como cidadãos livres e protegidos pelas mesmas leis do mundo a alcançar. Falavam a língua comum aos demais povos submetidos por Roma (grego koiné) e pregavam às populações inteiras desiludidas pelos seus deuses e submetidos ao engano de filosofias vãs e da falsa religiosidade, que não saciavam a sede espiritual e a esperança por uma sorte melhor para o futuro. Além disso, ao viajarem de país em país, aldeia em aldeia, cidade em cidade, muitos missionários itinerantes na época antiga, como o apóstolo Paulo e Barnabé, procuravam primeiro as sinagogas judaicas onde liam e interpretavam as profecias messiânicas no Antigo Testamento, dando em seguida seu testemunho de salvação pela fé em Cristo Jesus. A providência divina utilizou todas as condições do mundo greco-romano em favor da expansão do reino de Deus ao nascer nele o salvador de todo o mundo.

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II. A Igreja Primitiva e a situação dos primeiros cristãos

 

O cristianismo começou quando Jesus reuniu os primeiros discípulos e convidou-os a segui-lo. Com eles e por meio deles nasceu a igreja primitiva. Já vimos que Jesus é a causa e fundamento da existência dessa igreja. Para ela e em vista dela, ele chamara os discípulos como garantia de sua continuidade e da propagação do evangelho do reino ao mundo todo.

1. O Pentecoste e os primeiros cristãos

O Novo Testamento mostra que os discípulos constituíram-se em alicerces para a edificação da igreja. Podemos notar isto nas palavras dirigidas particularmente a Pedro (Mateus 16:18) e na profecia do comissionamento universal, sob a direção do Espírito Santo (Cf. Atos 1:8,9). A forma evidente da igreja se manifesta, portanto, a partir do evento do Pentecoste (Cf. Atos dos Apóstolos).

Neste dia os discípulos receberam o poder do Espírito Santo, que os capacitou com virtude e poder extraordinário para testemunhar ao mundo a salvação de Deus em Cristo Jesus. Foi assim que nasceu a primeira comunidade (igreja) cristã na cidade de Jerusalém, que a história considera de Igreja Primitiva.

2. Igreja Primitiva

A Igreja Primitiva reunia todos os primeiros seguidores de Jesus (incluídos os 12 apóstolos), que residiam Jerusalém ou os que lá permaneceram depois das festividades da Páscoa, evento em que Jesus fora preso, julgado, condenado e morto injustamente. A grande maioria deles esteve também no último encontro de Jesus com os seus discípulos, quarenta dias após sua ressurreição, no Monte das Oliveiras, onde receberam a promessa do Espírito Santo (Atos 1:1-19).

Lucas narra, em Atos, que depois do Pentecoste uma comunidade de crentes na ressurreição de Jesus, cheios do Espírito Santo, crescia na graça, na unidade da fé, na glorificação do Salvador, no conhecimento de Deus e em número (Atos 2).

NOTA: Depois do Pentecoste o poder se manifestou entre os discípulos de maneira espetacular através dos dons de línguas, de operar milagres (como curar) e testemunhar destemidamente. Essas foram, sem dúvida, marcas muito próprias da igreja primitiva, que muitas vezes se repetem nalguns lugares e épocas ao longo da história da igreja cristã. Você acha que existe semelhança real entre a Igreja Primitiva e as igrejas cristãs na atualidade? Porque?

No início a Igreja Primtiva parecia uma seita judaica, vez que seus membros obedeciam ainda a lei mosaica, freqüentava fielmente o Templo e as sinagogas. Tanto assim que seus membros não eram chamados de cristãos. Isto só ocorreu alguns anos depois em Antioquia. A maioria era de judeus que acreditavam que o Messias era Jesus Cristo e que o seu reino já estava presente em Jesus. Parte desses judeus seguidores de Jesus provinha das comunidades judaicas da dispersão, que foram à Jerusalém nas festividades da Páscoa e se converteram no Pentecoste ou depois dele.

O Pentecoste foi muito importante, porque cumpriu uma importante profecia para a igreja de Cristo (Atos 1:8,9). Os crentes em Jesus receberam o poder e a virtude do Espírito Santo para testemunharem do Evangelho de Jesus até os confins da Terra. Apesar disso, infelizmente Atos nos informa que inicialmente eles ficaram em Jerusalém até que o desencadear de uma onda de perseguição os obrigou a fugir (Atos 8:1).

3. A perseguição dos cristãos pelos judeus

Passados os anos, a diferença entre os que acreditavam que Jesus era o Messias e os demais judeus em Jerusalém se tornou nítida. A separação absoluta entre a religião judaica e os crentes em Cristo como o Messias tornou-se inevitável.

A liderança religiosa judaica havia considerado abusiva a crença em Jesus como o Messias prometido aos judeus, e uma blasfêmia contra a lei mosaica a adoração de Jesus como o filho de Deus. O povo judeu esperava por um Messias-rei, um grande político guerreiro que os libertaria do jugo e poder dos romanos. E para eles, aquele Jesus filho de um carpinteiro e de uma camponesa, um homem que pregou amor aos inimigos, que combateu a religiosidade cerimonialista no Templo de Jerusalém, não era o Messias que a nação esperava.

Por isso, deram início a uma perseguição dos seus seguidores com vistas a impedir a propagação do seu evangelho. O primeiro incidente mais notável dessa perseguição foi a condenação de Estevão à morte, por apedrejamento, estabelecida pelo sumo sacerdote em Jerusalém. Assim como os demais cristãos, Estevão ensinava que Jesus é o Messias, crucificado e ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, para dar testemunho de Javé e para salvar os crentes.

4. A Igreja primitiva se espalha

Essa perseguição foi, até certo ponto, benéfica para a igreja. Deus aproveitou a oposição dos judeus ao crescimento da Igreja para espalhar os discípulos de Jesus pelo mundo fora de Jerusalém.

Na Palestina havia aumentado a instabilidade política e militar imediatamente após a morte de Cristo. Muitos judeus, cansados do jugo do romano, aderiram a movimentos armados e de insurreição pública contra Roma. Uma rebelião generalizada aconteceu no ano 70, quando então os romanos decidiram enviar uma expedição militar grande à região da Judéia, comandada pelo general romano Tito, e derrotaram os judeus. Em Jerusalém o tempo foi destruído e muitos habitantes debandaram para regiões distantes. Essas duas situações (perseguição judaica e fuga para outros territórios seguros), ajudaram a transplantar o evangelho para as regiões distantes de Jerusalém.

Muitos apóstolos saíram de Jerusalém por conta desses problemas e comandaram a evangelização em outras partes. Dados históricos do ministério dos doze, e dos milhares de missionários e pregadores itinerantes que alvoroçaram o mundo romano antigo, são escassos, praticamente inexistentes. Os mais conhecidos são aqueles que o próprio Novo Testamento descreve, bem como a literatura produzida pelos cristãos daquela época e que sobreviveu até hoje.

Em Antioquia, cerca de 500 km ao norte de Jerusalém, refugiados cristãos começaram a pregar não somente aos judeus, mas também aos gentios, que se convertiam ao evangelho cristão (Atos 11:19-21). Aí também se formou o primeiro núcleo da Igreja, cujos membros foram pela primeira vez chamados de "cristãos" (Atos 11:26). A Igreja de Antioquia foi também o primeiro centro missionário da história da igreja. Por inspiração do Espírito Santo, ela comissionou Saulo de Tarso e Barnabé enviando-os a pregar às regiões distantes, tanto para judeus quanto para os gentios (Atos 13:1-3).

5. Paulo, o maior missionário antigo

Paulo foi, particularmente, o maior missionário da Igreja Primitiva. Ex-fariseu e devotado a perseguir os cristãos, conheceu a Jesus numa viagem a Damasco para prender cristãos (Atos 9). Deste dia em diante o Espírito Santo tornou-lhe um apóstolo da igreja, com missão especial para evangelizar os gentios (Atos 11). Morreu como mártir crucificado em Roma, durante a perseguição de Nero, provavelmente no ano 67. Recomenda-se a leitura do quarto capítulo de O Cristianismo através dos séculos, de Earle E. Cairns (Edições Vida Nova), que oferece uma breve mas completa resenha histórica da vida, obra, método e pensamento desse grande apóstolo (missionário) aos gentios.

Primeiro trabalhou em Antioquia durante um ano, ao lado de Barnabé. Depois, em várias viagens, primeiro com Barnabé e depois com outros companheiros, Paulo levou o evangelho à ilha de Chipre, às várias cidades da Ásia Menor, à Grécia, à Roma, e talvez até à Espanha". Paulo pregava o evangelho da graça de Deus aos gentios (mas também aos judeus) nessas regiões. Não obrigava os gentios (pessoas não judias) a submeter as leis e costumes religiosos judaicos (como os demais apóstolos faziam) antes de batiza-los. Ele considerava a lei como substituída pela graça que veio através de Cristo, o ú

;nico salvador.

Conflito com os Judeus. Os judeus da Palestina e mesmo na diáspora exigiam que os gentios convertidos ao judaísmo (os tementes a Deus) deveriam adotar também as práticas e costumes culturais dos judeus. Seguindo esse exemplo, os judeus cristãos da Palestina também acabaram fazendo questão de que os gentios convertidos ao cristianismo deveriam guardar todos os preceitos da lei judaica e dos seus costumes. Paulo, e também Barnabé, pregavam que o que importa é apenas a fé em Jesus. A divergência acabou se transformando em conflito de opinião entre os missionários dos gentios, Paulo em particular, e os judeus cristãos de Jerusalém (Atos 15:1-5; Gálatas 2:11-14). Para Paulo, o que importava não era a circuncisão e as demais tradições judaicas, mas a fé em Jesus Cristo (Gálatas 1 e 2).

A situação obrigou os líderes da Igreja (apóstolos) a convocar a primeira reunião geral da Igreja (Concilio) no ano 48 a.D., em Jerusalém, para se encontrar uma solução universal (válida para todas as comunidades cristãs nas diferentes partes) para as divergências. Decidiu-se, entre outras coisas, acabar com qualquer distinção, na Igreja, entre judeus e gentios (=não judeus). Veja as outras principais resoluções em Atos 15:6-29.

Depois do primeiro concílio, a igreja começou a crescer bastante entre os gentios e o número de cristãos judeus tornava-se cada vez menor. Por algum tempo mais alguns cristãos judeus da Palestina, sob a liderança de alguns apóstolos, retomaram a defesa da circuncisão para os gentios convertidos, a ponto de aparecerem divisões partidárias dentro das comunidades cristãs. Negavam a autoridade apostólica de Paulo e exaltavam a lei à custa do Evangelho. Mas, por causa da luta dos judeus contra os romanos, e da perseguição destes contra os cristãos, além do crescimento da igreja cristã gentílica, os judaizantes ficaram isolados e diminuíram. Os remanescentes fixaram-se depois na Síria, onde desapareceram por volta do século VII com a invasão dos árabes. A igreja primitiva já era uma realidade em amplo crescimento e seus membros destemidos missionários de Cristo.

 

CRONOLOGIA DOS EVENTOS NA IGREJA PRIMITIVA

(Datas aproximadas)

Pentecostes -------------------------------------------- Ano 30

Conversão de Paulo ------------------------------------ Ano 31

Fuga para Antioquia ------------------------------------ Ano 43

Primeira viagem missionária de Paulo ------------------- Anos 45-47

Concilio de Jerusalém ---------------------------------- Ano 48

 

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