História da Igreja Antiga
História da Igreja, por Zakeu A. Zengo
Proibida toda e qualquer reprodução deste material. Já está publicado como livro.

 

&&&&&&&

 

III. Perseguição romana e expansão do cristianismo


Com o tempo a influência dos judeus na igreja havia declinado completamente e o trabalho missionário das comunidades cristãs era intenso. Das centenas de missionários que alvoroçaram o mundo dessa época nos primeiros dois séculos da era cristã, poucos nos são conhecidos. O mais conhecido de todos é sem dúvida o apóstolo Paulo, o ex-rabino (mestre da Torá) que se dedicara a perseguir os cristãos fora de Jerusalém e se se converteu quando seguia missão de prender cristãos na cidade de Damasco. Paulo concentrava suas atividades nas principais cidades do leste do mar Mediterrâneo (Chipre e Ásia Menor), onde o cristianismo floresceu mais rapidamente, até ser preso e executado durante a perseguição do imperador Nero.

Portanto, apesar de o número de cristãos ser relativamente pequeno ao tempo do falecimento dos apóstolos , uma característica da igreja dessa época foi realmente à rápida expansão. A pregação na época enfatizava o retorno iminente de Cristo, mas quase um século havia passado e o Senhor não retornara. Por isso, a segunda característica será a estagnação seguida da consolidação.

1. Nasce a igreja da resistência e da fidelidade.

Depois da morte dos apóstolos, começou uma nova era para a igreja. É a Igreja Pós-apostólica, porque quase todos os apóstolos (os Doze) já haviam falecido. Novos líderes capazes designados historicamente de pais da igreja (ou pais apostólicos) se despontariam como os instrumentos de Deus para a consolidação da obra começada na Igreja Primitiva.

O que é absolutamente impressionante desse período é o fato de que a igreja cresceu em meio a perseguição dos romanos. A história da perseguição dos cristãos pelos romanos começa no ano de 64. Já notamos que Cristo nasceu quando os romanos dominavam o mundo e que o cristianismo se desenvolveu sob o domínio do império romano.

2. Razões da perseguição.

Já por algum tempo desde os primeiros tumultos entre judeus e cristãos em Jerusalém, os cristãos eram acusados pelo povo de algumas coisas que chamavam a atenção das autoridades romanas.

Acusações populares contra os cristãos. Por causa das refeições comunitárias comuns entre os cristãos desde os temos do Pentecoste (ver Atos 2), que denominavam de Festa do Ágape (=Festa ou Refeições do Amor, da Comunhão), foram acusados de imoralidade (dizia-se que promoviam encontros de amor livre, em que mães podiam ter contato sexual com filhos e pais com filhas); Por outro lado, por causa da liturgia da Ceia do Senhor (=refeição em memória do Senhor Jesus) em que "se comia o corpo de Cristo e se bebia o seu sangue" simbolizados pelo pão e vinho, a opinião popular difama-os como praticantes de canibalismo. Como também se negassem a consumir carnes, alimentos, adereços e objetos consagrados aos deuses pagãos (ídolos), base da economia e do comércio em muitas regiões do império romano, bem como a recusa a observar certos costumes sociais de inspiração religiosa pagã, foram difamados como anti-sociais, inimigos do bem-estar comum e até mesmo da república.

Acusação das autoridades romanas. A acusação mais perigosa veio, no entanto, das autoridades romanas. Como também se negavam a adorar o imperador como Deus, foram oficialmente acusados de desleais ao imperador e de ateus (negavam a existência do imperador como deus). Foi assim que a igreja caiu sob a perseguição dos romanos.


3. O início da perseguição

Incêndio de Roma. Esta foi a causa que deu início real ao ciclo da perseguição romana. Em 64 mais de dois terços da cidade de Roma foram destruídos por um grande incêndio, com um número incalculável de vítimas e de danos materiais. Como ninguém assumisse a culpa e as investigações apontassem para direções sinistras, até mesmo o próprio imperador, trataram de achar um bode expiatório. O primeiro que as autoridades acharam, com complacência do imperador, foram as mais suspeitadas pessoas que existiam na sociedade romana: os cristãos. Nero inflamou mais ainda o ânimo de revolta popular contra os cristãos jogando sobre eles a culpa pelo incêndio.

Esse imperador, um dos mais cruéis que Roma já teve, ordenou a perseguição e morte cruenta dos cristãos em Roma. Inicialmente era, portanto, uma perseguição apenas local. Às vezes havia perseguições também em Antioquia e outras vezes em Éfeso. Mas até o ano 250 eram perseguições apenas locais, esporádicas e desorganizadas (não sistemáticas).

Depois de Nero a maior onda da perseguição aconteceu no reinado do imperador Domiciano (81 a 96), que proibiu totalmente o culto cristão e renovou o decreto que obrigava todos os cidadãos ao culto do imperador. As igrejas da Ásia Menor sofreram muito nesta fase, e provavelmente esta é a perseguição referida no livro de Apocalipse. A partir de 98, com o imperador Trajano (98-117) a perseguição diminuiu. Até 250 tolerava-se os cristãos, embora permanecessem as velhas acusações e certos focos de perseguição nalgumas províncias romanas. A perseguição violenta chegou a ser retomada na época do imperador Marco Aurélio (161-180), mas durou apenas cerca de 15 anos. Fez muitos mártires especialmente em Lion e Veneza, na Itália. Mesmo assim foi a terceira fase da perseguição em que a igreja sofreu bastante.

4. Perseguição universal.

Imperador Décio (249-251). Em 250 assumiu o trono o imperador Décio, que pela primeira vez decretou que os cristãos fossem caçados e mortos em todo o império romano. É o início da perseguição universal. À seu mando, um certificado (libelli) era emitido em favor dos habitantes do império que cumpriam o ato obrigatório anual de cultuar com sacrifício ao imperador. Naturalmente, os que não possuíssem o documento, caso dos cristãos, eram presos, julgados e condenados.

Diocleciano (284-251). 53 anos depois o imperador, por achar que os cristãos eram os culpados por todas as tragédias que continuavam assolando o império, renovou e reforçou as bases do decreto da perseguição universal. Se no período de Décio o número de mártires cristãos já era incalculável, Diocleciano superou todos os seus antecessores em violência. As escrituras sagradas foram queimadas, milhares de cristãos encarcerados e tantos outros martirizados.

Os cristãos eram mortos com toda a sorte de métodos e requintes de crueldade. a) Decapitação com espada, se o condenado era cidadão romano nato; b) condenados a serem jogados aos animais ferozes famintos, no meio de arenas públicas; c) crucificação; d) queimados e sufocados com calor; e) açoites e torturas. Deus no entanto conservou firme a sua Igreja, as portas deste inferno não prevaleceram, e a igreja crescia.

Milhares de cristãos convertidos aceitavam alegremente o martírio e consideravam uma honra morrer por Cristo. Um bispo da época, Clemente de Alexandria, escreveu uma obra comovente que intitulou "Em Louvor do Martírio" para confortar e encorajar a igreja a permanecer firme em Cristo. Contudo, alguns abriam mão da fé na hora de escolher morrer (=apostasia), ou sacrificavam ao imperador para adquirir o certificado de isenção.

NOTA: Depois da perseguição, a igreja cristã enfrentou a questão da readmissão dos que apostataram da fé durante a perseguição. Se você estivesse na igreja antiga e algum de seus irmãos tivesse apostatado na perseguição, você o deixaria retornar à comunhão da igreja depois que a perseguição terminasse? Pense nisso.

5. O fim da perseguição

A perseguição da igreja antiga durou pouco mais de dois séculos e meio. Em 313 o imperador Constantino assinou (juntamente com Licínio, que governava no oriente) o famoso "Edito de Milão" que punha fim a toda a perseguição religiosa, proclamava o cristianismo como religio licita (religião legal), além de conceder plena liberdade religiosa para todos os habitantes no império.

NOTA: Edito é um decreto (ordem) emitido pela autoridade máxima, que estabelece um regulamento com valor legal e irrevogável.

Por causa de muitos fatores políticos e sociais, e também do que se considerava ira dos deuses, na época em que Constantino se tornou imperador o bem-estar do império romano se tornava cada vez mais precário. Dizia-se que os deuses estavam infelizes por causa da religião dos cristãos, que se recusavam a oferecer-lhes sacrifícios. Por esta razão, como vimos, a igreja sofreu as piores perseguições entre 250 e 311.

Mas o Espírito Santo de Deus amparou a Igreja. Alguns que abandonavam a igreja por causa da perseguição começaram a voltar. O evangelho começou a entrar nos círculos sociais importantes (na corte imperial, no exército e nas classes mais altas). Enquanto isso, a unidade do império parecia depender cada vez mais da existência de uma religião oficial fundada no tripé um Deus, um império e um imperador. E no lugar de persegui-lo, parece que só restava ao império reconhecer o poder do Deus que agia no cristianismo.

6. Conversão de Constantino e início da Igreja imperial

Quando se tornou imperador em 312, o império se achava dividido. Tendo usurpado o poder depois da morte de seu pai, ele tinha pretensões de unificar o poder e chegar ao poder máximo. Seu inimigo nessa corrida veio a ser o filho do ex-imperador Maximiano, chamado Maxêncio, que também se fez proclamar monarca em Roma. Constantino marchou então, com essa finalidade, em direção a Roma até estacionar seus exércitos na outra margem do rio Tibre. Apenas uma ponte, a Ponte Mílvea, separava seus exércitos dos exércitos de Constantino. Temendo ser vencido, Constantino teria evocado a ajuda do Deus dos cristãos, que numa visão lhe teria revelado o segredo da vitória. Usando o sinal da cruz de Cristo nas suas armaduras, seus exércitos teriam vencido Maxêncio. Desde então o imperador começou a tomar medidas que favoreceram a religião cristã, até que em 316 se tornou a única e oficial.

Teria Constantino se convertido a fé cristã ao favorece-la? Há duas interpretações. A primeira diz que de fato se converteu, tornando-se mesmo um ardente cristão; a segunda, que ele decidiu usar o poder agregador do cristianismo para vantagens políticas. De acordo com o historiador Earle Cairns, "Constantino cria que a 'adoração a Deus' deveria ser o 'primeiro e o principal cuidado' do governante, por isso ele pensava que não podia haver outra alternativa senão a liberdade religiosa como política do império".

Tanto um quanto outro desses fatores justificam as medidas de Constantino que elevaram o cristianismo à religião lícita e mais tarde oficial em todo o império. Estabeleceu uma sociedade em que deveria haver uma adesão universal a uma religião comum, o cristianismo. Para isso tomou algumas medidas essência: a) no ano 321 proclamou o domingo como dia oficial do descanso para culto; b) deu aos bispos autoridade sobre certas responsabilidades civis, como julgar intrigas litigiosas entre os membros da igreja e fazer casamentos com validade civil; c) liberou verbas para construção de templos, que passaram a se chamar de "basílicas" (de basileus = do reino, portanto, igrejas imperiais); d) estabeleceu dias festivos cristãos de interesse público, como o natal de Cristo; e) transferência, aos poucos, da data do nascimento de Jesus de 6 de janeiro para 25 de dezembro , o dia do nascimento do deus sol, deus de Constantino.

Este processo de favorecimento político do cristianismo pode ser chamado de imperialização da igreja, que foi o primeiro passo em direção a histórica união do estado e a Igreja Católica Romana. Houve conseqüências positivas e negativas no processo. Em primeiro lugar, positivamente, o processo abençoou o cristianismo com o total fim da perseguição dos cristãos em todo o império; em segundo lugar, negativamente, entraram para a igreja muitos pagãos sem uma genuína conversão ao evangelho de Cristo; como resultado, várias práticas, crenças e doutrinas religiosas pagãs se infiltraram na igreja (=paganização ou secularização da igreja), que começou a se esfriar e perder seu entusiasmo e visão típicas da Igreja Primitiva.

O paganismo e suas conseqüências na Igreja. A influência dos costumes e das práticas religiosas pagãs aumentavam na igreja à medida em que o tempo passava. A mentalidade mágica típica das religiões pagãs tornou-se comum entre os "cristãos". Alguns sacramentos, como a ceia do Senhor, eram cada vez mais vistos como tendo poderes mágicos. Por outro lado, o desafio de ainda permanecer um verdadeiro cristão numa igreja invadida pelo paganismo, favoreceu a propaganda do exemplo dos antigos cristãos que morreram por causa da sua fidelidade a Cristo. Deste modo teve início da veneração dos mártires como santos (mais tarde também suas imagens e relíquias). Por causa do baixo nível moral no império que também se aprofundava, o desafio da santidade levou alguns bispos à prática de exigir confissão auricular, que prescrevia penitências (obras que valem como punição difícil) aos crentes em pecado. Finalmente, muitos líderes importantes da igreja (bispos e teólogos), sedentos de poder, começaram a lutar para ampliar suas influências e poderes políticos e jurídicos.

7. Conseqüências da Perseguição

Como conseqüência da perseguição aconteceram três coisas importantes: um grande crescimento da igreja e o surgimento de dois tipos de literatura: as biografias ou testemunho dos mártires e manuais de defesa da fé cristã.

Martirologos. Os "atos dos mártires" descreviam o exemplo de fidelidade dos cristãos que se recusavam a apostatar da fé e adorar o imperador; descreviam ainda como eram presos, torturados, queimados, decapitados, exilados ou entregues aos animais para serem devorados em circos públicos. O amor de muitos cristãos pelo reino de Deus e pelo salvador Jesus Cristo era tal que procuravam mesmo o martírio como forma de testemunhar do Evangelho.

Graças aos "atos de martírio" é conhecido o testemunho de perseverança de notáveis homens e mulheres de Deus, especialmente no segundo século. Os mais notáveis foram Inácio, bispo de Antioquia, morto em 115, Policarpo, bispo de Esmirna, morto em 156 e Justino "o Mártir", morto em 165.

Crescimento da Igreja. A segunda conseqüência importante foi o crescimento de igreja. Certa vez o teólogo cristão Tertuliano, importante defensor da fé nessa época, escreveu que o sangue dos cristãos é a semente da igreja. Quanto mais eram perseguidos, mais os cristãos se sentiam encorajados a testemunhar as glórias da fé cristã. Disto resultou um crescimento que assombrava as autoridades romanas ao verificarem o fato. O imperador Trajano chegou a ordenar que se parasse a matança dos cristãos porque quanto mais eram mortos, mais corriam para o martírio como as abelhas correm para as colméias.

No fim do terceiro século, estima-se que a população da igreja oscilava entre 5 e 15 por cento da população do império, que girava em torno de 50 a 75 milhões de pessoas. A terceira conseqüência foi a defesa da fé, que discutiremos mais adiante.

8. Oficialização da igreja pelo Estado Romano

O fim da perseguição levou ainda à oficialização formal do cristianismo como religião oficial civil do império no século V. Depois da morte de Constantino, venerado na igreja ortodoxa como décimo terceiro apóstolo de Cristo, e no cristianismo católico ocidental como "Magno" (grande), veio uma série de imperadores que ou trabalharam para consolidar as reformas religiosas iniciadas por Constantino, ou tentaram restaurar os cultos pagãos através da pugnação do cristianismo. O imperador Juliano, o Apóstata (361-363), foi particularmente quem mais fez para devolver o império ao paganismo. Numa guerra contra os persas, morreu desiludido depois de ver fracassados seus esforços. Ao expirar, teria reconhecido a vitória de Cristo com as célebres palavras "Venceste Galileu!".

Chegara ao trono imperial Teodósio, que em 380 assinou uma série de Editos que oficializaram o cristianismo como religião civil da sociedade romana. Entre outras coisas, (a) proscreveu como ilegais todos os cultos pagãos no império; (b) considerou heresia condenável, também pela lei civil, qualquer doutrina que divergisse da genuína doutrina cristã dos apóstolos. Assinou um decreto que proibiu oficialmente os "hereges" de realizarem reuniões públicas, evocou para eles o juízo divino e promulgou punição civil para eles. De perseguida a igreja cristã se tornou perseguidora dos hereges. Depois dele, o império dividiu-se entre o oeste (derrubado e subdividido mais tarde pelos germanos no ano 486) e o leste. No leste (parte orienta), com o imperador Justiniano (527-565), a igreja foi totalmente submetida ao estado e se tornaria igreja do império romano. Veremos que o cristianismo acabará dividido também seguindo a divisão do império.

Relembremos o que aprendemos nesta parte. A característica mais notável da Igreja Primitiva foi sua rápida expansão. Depois do Pentecoste, o Espírito Santo levou os primeiros cristãos a uma grande determinação missionária que levou o evangelho tanto a judeus quanto aos gentios espalhados no império romano. Paulo e Barnabé foram os mais notáveis missionários do primeiro século. O rápido crescimento dos cristãos, bem como seus hábitos e práticas santas, incomodou os pagãos a ponto de persegui-los. O imperador Nero começou a onda de perseguição localizada contra os cristãos, que se tornou universal nos reinados de Décio e Diocleciano. Contudo, a conseqüência da perseguição veio a ser exatamente o inverso do que pretendiam os inimigos do Espírito que atuava na igreja. O cristianismo cresceu com a perseguição. E ao terminar a perseguição com Constantino, ela se tornou na única religião do império.

&&&&&&&&&

 

IV. A Era dos Pais da Igreja


Vimos que ao período que vem depois da morte dos doze apóstolos, principais líderes da igreja primitiva, costuma se chamar de a "era dos pais". A designação tem a sua origem no uso do nome "pai", tratamento carinhoso com o qual os cristãos ocidentais distinguiam os bispos de suas comunidades. "O nome foi usado mais amplamente a partir do terceiro século para descrever os campeões ortodoxos da igreja e expoentes da sua fé. Geralmente estes homens eram bispos". São os homens que conheceram os apóstolos, a doutrina e a prática apostólicas, e que depois levaram adiante a tarefa terminada por eles.

O estudo da vida e obra desses importantes líderes da igreja costuma ser designado de Patrística. Aqui não estudaremos os detalhes da vida desses homens, e nem da grande obra que realizaram. Caracterizaremos apenas a época deles de maneira geral, que vai desde a morte do último apóstolo até ao século V, mais precisamente até a realização do Concílio de Calcedônia em 451.

1. Os Pais e seus escritos

A mais notável das contribuições dos bispos desse período foi a produção de uma vasta literatura cristã, grande parte da qual foi escrita entre os anos 95 e 150. Os mais importantes nomes dos pais desse período são: Clemente de Roma (30-100), Inácio (entre os séculos I e II) e Policarpo (70-155). Destacam-se ainda os escritos Epístola de Barnabé, Epístola a Diogneto, os escritos de Papias, além da Didaquê (Ensino dos Doze Apóstolos) e o Pastor de Hermas, um livro do estilo de Apocalipse. Um historiador bastante lido entre os estudantes de História da Igreja caracteriza os escritos dessa época da seguinte forma:

"Certas características delineiam-se bem claramente nestes escritos. Seu estilo é informal; suas singelas expressões de fé e de piedade sincera mostram pouca influência da educação filosófica pagã que se pode ver nos escritos de Orígenes e Clemente de Alexandria. Os Pais Apostólicos nutriam uma grande reverência pelo Velho Testamento, dele se servindo para apoiar as suas idéias. Por esta razão, é possível notar-se um uso realmente excessivo da interpretação tipológica. O cristianismo é apontado como o cumprimento das profecias e dos tipos do Velho Testamento... Estavam também familiarizados com as formas literárias do Novo Testamento, tanto que as usaram como modelos para suas produções. Sem dúvida alguma, o objetivo principal de seus escritos era a edificação da Igreja".

Algumas observações sobre a citação. Os escritos desses pais eram epístolas ou homilias informais, com as quais procuravam edificar o povo de Deus. Em alguns transparece certas influências da filosofia pagã, provavelmente pela necessidade de dialogar com ela visando convencer os eruditos. Destaca-se a influência do Antigo Testamento, especialmente na valorização dos personagens e motivos que encerram ensinamentos importantes no cristianismo (=interpretação tipológica). Mas já são escritos que refletem o conhecimento do Novo Testamento, embora o Novo Testamento canônico (que temos) ainda não existisse oficialmente.

2. Contribuição dos pais da Igreja

O advento da era dos Pais da Igreja trouxe consigo alguns desenvolvimentos positivos e outros negativos. A partir da primeira metade do século II a ênfase começou a recair sobre a consolidação da igreja. Muitas heresias (adiante) começaram a disseminar-se na igreja, ao lado de ataques externos contra a reputação doutrinária e a validade dos ensinamentos cristãos da parte das pessoas educadas. Tudo demandava uma resposta da igreja.

Por esta razão os pais apostólicos serão bispos teólogos, preocupados em consolidar os fundamentos doutrinários do evangelho, além de dar uma resposta convincente aos detratores e combater as heresias dentro da igreja.

Consideremos primeiro os aspetos negativos:

a) Rígida organização eclesiástica. Na época dos apóstolos as comunidades cristãs eram locais e independentes, unidas apenas na fé em Cristo e seu evangelho. Sua liderança era composta pelo Espírito Santo que capacitava os líderes locais a conduzir as respectivas comunidades a difundir com intrepidez o reino de Deus. Um bispo, diáconos e um número limitado de anciãos compunham a liderança local, sem subordinação ou dependência entre as igrejas e as comunidades cristãs. Portanto, as comunidades compartilhavam apenas uma unidade espiritual.

NOTA: Muitos cristãos consideram desnecessárias as igrejas como instituições organizadas. Enfatizam que somos todos "irmãos em Cristo" e não precisamos das estruturas orgânicas das igrejas atuais. Começando nos primeiros anos da Igreja do Novo Testamento até hoje, demonstre como a organização se tornou necessária.

Face ao relaxamento que começou a verificar-se, e ao processo espontâneo de auto-consolidação, a igreja começou a hierarquizar-se. Os bispos, que haviam sido responsáveis (administradores) da comunidade local, começaram a despontar-se como sacerdotes monárquicos. Isto levou ao surgimento da estrutura hierárquica da igreja, isto é, um sistema em que o corpo sacerdotal é dividido em ordens, cada um subordinado a outro acima dele. Bispo, diáconos e anciãos começaram a ser vistos como ministérios subalternos (hierarquia) e a maioria dos crentes como simples leigos (povo).

NOTA: Desses desenvolvimentos tivemos: I século: Igrejas locais independentes lideradas pelos apóstolos (homens cheio de dons espirituais, I aos Coríntios 12), pelos diáconos e presbíteros; II século: surgimento dos bispos locais ou monárquicos; III século: crescimento da influência do bispo sobre uma vasta região (governo eclesiástico diocesano); IV século: aceitação das dispositivos especiais de autoridade de certos bispos de destaque como os de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém (patriarcados); V século: reiv

indicação de autoridade sobre toda a igreja cristã pelo Bispo de Roma, por causa de três motivos: as palavras de Jesus a Pedro em Mateus 16:18,19 e alegação dos romanos de que Pedro foi seu primeiro bispo (doutrina de sucessão apostólica); a posição de destaque de Roma como velha capital política do império e as pressões pessoais do bispo Leão I (440-461), marcante líder cristão em Roma que se tornaria historicamente o primeiro papa.

b) Liturgia. O culto também se transformou em algo formal e sem vida. A celebração eucarística antes feita para lembrar a morte e ressurreição de Cristo, recebeu uma nova definição. Ensinava-se agora que Cristo se fazia literalmente presente no pão e no vinho, que a ceia garantia imortalidade e que apenas ao sacerdote competia ministrar a sua celebração.
c) Moralismo. O terceiro aspecto negativo veio a ser uma exacerbada ênfase no papel das obras humanas. Confundida com os sacrifícios do Velho Testamento, a ceia tornou-se uma espécie de repetição do sacrifício, de obra humana, em vez de uma celebração da graça divina. Além disso, o evangelho tornou-se também uma nova lei, da qual Jesus é visto como o mestre e exemplo perfeitos. A vida cristã era cada vez mais vista como um conjunto de normas, comportamentos e atitudes morais a ser observadas pelo crente. Para isto começaram a surgir vários escritos, chamados apócrifos (O Evangelho de Tomé, Atos de Paulo e Tecla, Evangelho de Pedro, etc.), para suplementar a literatura apostólica do Novo Testamento. A tônica destes escritos são os milagres e os acontecimentos estranhos.

Mas não são apenas os fatos aqui tomados como negativos que chamam atenção na Era dos Pais da Igreja. Foram aspetos altamente positivos a defesa da fé e os primeiros desenvolvimentos teológicos que definiram e sistematizaram os ensinamentos de Cristo e dos seus apóstolos, conforme aparecem no Novo Testamento.

3. Defensores da Fé ou Apologistas

Enquanto a igreja era perseguida politicamente, era também perseguida intelectualmente. Os homens de cultura, entre eles filósofos, poetas, juristas e políticos renomados, puseram-se a criticar em seus escritos a validade dos ensinamentos e práticas cristãs. Com isto, a imagem da igreja sofria mais ainda perante o povo e as autoridades. O mais conhecido escritor que se opôs primeiramente ao cristianismo foi o filósofo Celso, que publicou um livro chamado Doutrina Verdadeira por volta do ano 180, no qual atacava todos os fundamentos da fé cristã.

Foi tudo isto que levou ao surgimento, dentro da igreja, de cristãos ilustres que começaram a escrever livros em defesa do cristianismo. Estes homens eram conhecidos como apologistas, palavra de origem grega que significa defensores.

a) O maior de todos os apologistas foi Justino "o Mártir" (110-165). Foi o mais importante entre os que procuraram estabelecer um diálogo com os filósofos. Seus conhecimentos filosóficos eram muito profundos. Quando se converteu ao cristianismo aos 25 anos de Deus, convenceu-se de que a fé cristã esclarece toda a filosofia, sendo portanto a maior de todas as filosofias. Que em Cristo toda a filosofia chega a perfeição, uma vez que ele é o Logos (=Razão) Universal que a Filosofia busca compreender. Defendeu qualquer verdadeiro filósofo tem que ser cristão, pois os cristãos são os verdadeiros filósofos. Em 153 escreveu sua Apologia, obra endereçada ao imperador Antonio Pio, em defesa do cristianismo contra as três principais acusações que os romanos faziam (ateísmo, deslealdade ao imperador e misantropia. Mais tarde redigiu o Diálogo com Trifo, em que defende o cristianismo da objeção dos judeus. Estas duas obras de Justino constituem até hoje uma das mais esclarecedoras explicações da fé cristã. Justino foi martirizado por causa de sua fé, razão porque é cognominado "o mártir".

b) Tertuliano (160-230). Este brilhante advogado africano, de Cartago, foi um cristão apaixonado por Jesus e da conversão à morte dedicou-se a escrever em defesa do cristianismo. Escreveu vasta obra apologética no fim do século II e início do terceiro, na qual buscou desenvolver uma teologia cristã sólida e refutar as falsas forças filosóficas e pagãs que combatiam o cristianismo. Escrevendo ao imperador, argumentou que as acusações contra os cristãos eram falsas e que os cristãos eram leais cidadãos do império. Utilizou pela primeira o termo "Trindade", cuja doutrina esclareceu e lançou as bases para as discussões teológicas sobre o conceito, que veremos mais adiante. Leia mais sobre ele na próxima lição.

c) Clemente de Alexandria. Conhecido como o "educador cristão", este primeiro teólogo da igreja viveu por volta do ano 200 em Alexandria, uns dos principais centros da fé cristã nessa época. Lá ele era professor de catequese (=educação cristã). Além de apologeta, ele desenvolveu uma teologia bíblica baseada nos conhecimentos filosóficos. Defendeu a necessidade da fundação de escolas de treinamento cristão em todas as comunidades para ensinar os cristãos o sentido mais profundo da vida humana, que era explorada pelas filosofias. Isto porque, dizia, a ninguém a vida tem tanto mais sentido quanto tem para os cristãos. Para este propósito escreveu uma obra importante intitulada "O Pedagogo" (=educador).

d) Orígenes (185-254). Foi discípulo de Clemente, e sob a influência do mestre ajudou a consolidar em Alexandria a escola de catequese e a transforma-la no primeiro seminário de teologia de que se tem notícia. Foi um escritor incansável. Publicou milhares de livros para ajudar os cristãos e a igreja a entender a fé e vive-la de maneira sábia. Escreveu um monumental comentário de quase toda a Bíblia (Antigo Testamento) com o título de Hexapla. Escreveu também uma teologia sistemática que deu o título de De Principiis (=estudo completo das doutrinas sobre Deus, sobre Cristo e sobre a Igreja). Contra as filosofias anticristãs escreveu o Contra Celso. Celso foi um filósofo cujo pensamento alimentava o anti-cristianismo dos eruditos e do povo comum. Respondeu que o cristianismo é a única filosofia que produz mudança de vida, que os cristãos estão sempre procurando a Verdade e a pureza graças ao exemplo de Jesus Cristo, seu fundador.

e) Outros apologistas importantes foram Cipriano, Quadratus, Taciano, Melito, entre outros. É importante notar que muitos termos teológicos comuns hoje, que não se encontram na Bíblia, aparecem nos escritos apologéticos. É o exemplo do termo Trindade, usado pela primeira vez por Tertuliano.

Avaliação dos apologistas. A estrutura do conteúdo dessas defesas da fé era quase sempre a mesma, e visava três pontos básicos: (a) refutação das críticas pagãs; (b) dar provas racionais da veracidade do cristianismo (que a vida de Jesus cumpre as profecias do Velho Testamento e que os ensinos do evangelho concordam com o melhor na filosofia pagã); (c) demonstrar que os deuses pagãos são falsos, absurdos e imorais; e que, além disso, o melhor dos pensamentos pagãos (=filosofia) começou no oriente e vem especialmente dos ensinamentos de Moisés no Antigo Testamento.

Muitos homens simples e eruditos abraçaram o cristianismo nessa época graças ao trabalho dos defensores da fé. Os cristãos firmavam-se mais em suas convicções de fé. Depois dos Apóstolos, os Pais da Igreja foram os líderes que ajudaram o cristianismo a estabelecer-se como povo de Deus e portador da mensagem da salvação. Graças aos seus escritos e a sua pregação a igreja do início do século II tiveram como características a expansão, a consolidação da igreja, mas também uma inconseqüente deformação institucional. Isto porque, a tensão gerada por essas situações levou ao surgimento de um governo eclesiástico hierarquizado, a mudança da doutrina da ceia, a espiritualidade "legalista" ou moralista, que ocasionou o surgimento de novos escritos que enfatizavam mais as boas obras e milagres do que a graça divina.

Problemas:

Assim como os apologistas na igreja primitiva, nós os cristãos somos também chamados a defender a fé. O mundo tem vários preconceitos sobre os cristãos, a quem acusam de acreditar em absurdos, tal como dizer que a Bíblia é um livro infalível, sem erro e verdadeiro. Como você responderia a esse preconceito de uma maneira sábia e esclarecida?

Orígenes ensinou que o cristianismo é, entre todas as filosofias, aquela que produz verdadeira mudança de vida. Você concorda ou discorda? Por que?

 

&&&&&&&&

 

V. O problema das heresias na Igreja Antiga

 

Entre os grandes problemas enfrentados pela igreja na era apostólica a infiltração de heresias foi, sem dúvida, o maior. Do ponto de vista teológico, heresia é toda aquela doutrina que não está de acordo com os ensinamentos bíblicos ou, no caso da igreja antiga, as doutrinas que eram contrárias a pregação e ensino dos apóstolos de Cristo.

Apareciam na igreja pessoas (mestres) que ensinavam doutrinas e filosofias falsas ou erradas. Por exemplo, alguns desses mestres hereges diziam que o Deus mencionado no Antigo Testamento e adorado pelos judeus, que é o criador do mundo, não é o ser supremo e nem pode sê-lo. Outros ainda diziam que Cristo não é divino, mas apenas um homem que se tornou Deus. Sem dúvida alguma, estas eram heresias. Vejamos as principais heresias enfrentadas pela igreja primitiva.

1. Gnosticismo

O gnosticismo é uma estranha mistura de idéias religiosas e filosóficas baseadas nos pensadores gregos e nas religiões de mistérios do oriente. De fato, por incrível que possa parecer, o mundo no qual o cristianismo precisou desenvolver-se, ao qual ele teve de pregar a fé de Cristo, era um mundo mágico onde sinais, milagres e visões eram algo normal.

A gnose, mais do que uma corrente de filosofia, era uma doutrina de salvação baseada em revelações "espirituais". Para obter a salvação, é necessário que o crente da gnose tenha desenvolvido o conhecimento dos mistérios espirituais que não estão ao alcance da pessoa comum. Ele representou um grande problema para a igreja primitiva quando alguns cristãos adotaram essa doutrina e começaram a mescla-la com os ensinamentos cristãos.

Os gnósticos ensinavam que o mundo da matéria é mau e que por isso não foi criado por de Deus. Pela mesma razão, Jesus Cristo não foi homem no sentido humano (possuindo corpo material), nem morreu e ressuscitou como homem. Para os gnósticos cristãos a coisa mais importante para a salvação é a gnose, palavra grega que significa conhecimento. Trata-se de um conhecimento especial, superior ao da Bíblia, acessível as pessoas apenas mais cultas e espiritualizadas.

E se matéria é má, é também mau tudo é que vem da matéria (compare com Gênesis 1:31). O conhecimento que salva não pertence ao mundo da matéria, mas de origem e natureza apenas espiritual. Outro grupo de gnósticos apareceu nas igrejas, por volta da segunda metade do século II ensinando que o que acontece no plano da matéria (corpo) não afeta a essência espiritual da vida. Uma pessoa que vive uma vida imoral no plano material (no corpo) pode perfeitamente salvar-se, porque a salvação se opera espiritualmente e não existe qualquer dependência entre um plano e outro. O que acontece na matéria não influi no espírito.

(S) As principais heresias gnósticas são então quatro: (a) Deus não criou o mundo da matéria; (b) o mundo da matéria é mau, assim como o deus que é o criou - o Javé do Antigo Testamento; (c) a salvação vem por meio do conhecimento espiritual; (d) Cristo não foi um ser humano, isto é, não possuía corpo material. Ele é o Deus bom, que veio trazer o conhecimento espiritual superior, necessário para a salvação.

É importante notar que ao lado destas heresias o gnosticismo ensinava também muitas coisas boas. Por isso mesmo é que era uma heresia muito perigosa para a igreja antiga. A luta contra a gnose foi uma das mais acirradas que a igreja cristã teve que travar. Muitas epístolas do Novo Testamento possuem advertências contra os gnósticos, caso de I Timóteo 6:10; I João 4:1-3; Atos 8:9-24.

2. Docetismo

Este nome vem da palavra grega dokein, e significar parecer, aparência. Por volta do segundo século surgiram também mestres na igreja primitiva que, seguindo alguns ensinamento gnósticos, começaram a ensinar que Jesus Cristo não possuía um corpo real, mas apenas uma aparência de corpo. E porque não possuía um corpo verdadeiramente humano, tanto a sua morte quanto a sua ressurreição foram apenas aparentes embora tivessem acontecido de fato aos olhos humanos.

Assim como os gnósticos, os decetistas negavam a humanidade de Cristo. Não tendo sido homem real, ele não sofreu tentações, não sentiu dor ou fome, não morreu e sua ressurreição não existiu realmente. Esta doutrina foi muito perigosa porque abalava os alicerces da igreja neotestamentária, fundada na vida, na obra, morte e ressurreição de Jesus (compare com João 1.14 e I João 4:2).

3. Marcionismo

Esta heresia foi desenvolvida por um mestre gnóstico chamado Marcião (81-160). Na sua igreja local que ficava na região de Sinope, perto do Mar Negro (veja Mapa), começou a divulgar idéias estranhas e sedutoras sobre a fé cristã. Por causa disso seu próprio pai, que era o bispo da igreja, expulsou-o e foi parar em Roma, onde também se juntou a igreja local. Lá passou a ensinar que o mundo foi criado por um Deus inferior - o Deus do Antigo Testamento. E que sendo o mundo mau por natureza, não pode ter sido criado pelo Deus de bondade e graça ensinado no Novo Testamento.

Em 144 foi expulso também da igreja de Roma por causa dos seus ensinos e organizou a sua própria igreja, que durou até pelo menos o século V. Marcião ensinava as pessoas dentro da Igreja a detestar o Antigo Testamento por conta do seu legalismo mosaico (de Moisés). Aceitava apenas poucos livros que hoje compõem o Novo Testamento. Chegou mesmo a formar seu próprio Canôn do Novo Testamento, que constava apenas de algumas partes do evangelho de Lucas e dez das treze cartas de Paulo, mas totalmente modificadas por ele.

Para ele existe uma oposição (dualismo) entre o material e o espiritual. O mundo material representa o Deus do Antigo Testamento e sua lei, e o evangelho da graça o Deus do espírito, que é ensinado no Novo Testamento. Marcião era do tipo que não vai com a maioria. Toda a interpretação cristã da Bíblia (Antigo Testamento) feita desde os apóstolos para ele estava errada.

O Javé dos judeus, argumentava ele, é um Deus imperfeito e sua criação não é uma bênção, mas uma sem-vergonhice. Como se pode considerar bom um Deus que cria um ser humano para depois lança-lo à perdição, e depois exigir dele a responsabilidade de escolher salvar-se? Ele era impossível! Para ele, tudo o que o Javé do Antigo Testamento inventou é uma nojeira e indecência. Desde a forma humana de gerar e parir até ao mundo dos animais (cobras, escorpiões, tarântulas, insetos e vermes), tudo o que veio desse Deus era para ele uma grosseira irracional.

Contra Javé Marcião contrapôs que se revelou em Jesus Cristo, no Novo Testamento.Um Deus que é, para ele, totalmente diferente, cuja mensagem é de amor misericordioso. Considerou a apóstolo Paulo como o único cristão antigo que melhor entendeu a revelação de Deus em Cristo. Procurando mostrar o verdadeiro evangelho de Deus, selecionou nos escritos sagrados alguns e formou seu próprio cânon.

NOTA: Cânon é o nome que se dá ao conjunto de livros considerados como verdadeiramente inspirados por Deus e aceitos pela Igreja como regra de fé e prática.

NOTA: Marcião tentou diminuir a importância do Antigo Testamento. Será que existe nas nossas igrejas doutrinas, práticas ou atitudes marcionistas com relação ao Antigo Testamento?

4. Montanismo

Por volta do início da segunda metade do século II, algumas práticas e influências mundanas começaram a aparecer na igreja. As coisas do mundo ou práticas da carne evidenciavam o surgimento de uma distância entre a igreja dessa época com a fé e caráter espirtual dos primeiros cristãos. Foi nesse contexto que um pregador chamado Montano começou a combater o mundanismo nas igrejas, enfatizando a segunda vinda de Cristo.

Montano era da Frigia, interior da Ásia Menor, região de forte presença de cristãos. Voltou-se contra a institucionalidade da igreja e contra o que ele considerou sua mundanidade. Tudo isso começou com a sua experiência de conversão. No ano 156, logo ao ser batizado entrou em êxtase e começou a falar em línguas. A maioria das pessoas presentes não sabia do que se tratava, mas duas mulheres (Prisca e Maximila) mostraram-se entendias. Juntamente com elas Montano formou sua igreja, que passou a ensinar que a igreja dos seus dias era pobre de espírito, pois não falava em línguas. O montanismo colocou uma grande ênfase no dom de falar línguas, profetizar e na doutrina do segundo Pentecoste. Diziam que com Montano iniciou-se uma nova era do Espírito (Parácleto) e que profetizar no Espírito era a evidência do seu ministério espiritual.

Montano auto-proclamou-se como o novo "profeta espiritual" de Cristo, portador da segunda e última revelação profética. Seus discípulos levavam a vida cristã a sério e condenavam todo e qualquer prazer ou divertimento do mundo. Anunciavam que o fim do mundo estava prestes a acontecer, e que a alegria e o prazer são proibidos aos cristãos.

Infelizmente, esta doutrina tornou-se radical a ponto de recusarem não só alegria aos seus membros, mas também o casamento dos viúvos. Condenada pela igreja como heresia, de tempo em tempo ela reaparecia na igreja, como aconteceu nos séculos III e IV, nos quais alcançou grande notoriedade.

5. Monarquianismo

O termo vem da palavra monarca, isto é, um só rei. Contra a doutrina bíblica da Trindade ensinada na igreja, os monarquianos ensinavam que Deus é uma só pessoa (um monarca). Deste modo preocupavam-se em preservar a doutrina monoteísta do Antigo Testamento. Mas a dificuldade surgiu na hora de explicar o significado das três pessoas afirmadas no Novo Testamento (Mateus 28:19). Eles tentaram e deram as seguintes explicações, condenadas mais tarde como heréticas:
(a) Monarquianismo Modalista. Os defensores desta fórmula diziam que há apenas uma pessoa divina (Deus), que se apresentou ao mundo em três formas ou modos diferentes. Primeiro, existia o Pai que se tornou o Filho e que se tornou depois o Espírito Santo. Esta doutrina foi condenada como herética porque nega a verdade bíblica sobre a Trindade.
(b) Monarquianismo Dinamista. Esta explicação dizia que há apenas uma pessoa divina, o Pai. Tanto Jesus quanto o Espírito Santo não são Deus. Cristo é apenas criatura humana em quem o poder de Deus se manifestou para ser transformado em redentor dos pecadores. Veremos que o representante dessa doutrina foi Ário, um dos mais doutos presbíteros na igreja de Alexandria, onde a questão da "unidade da trindade"foi calorosamente debatida no início do século IV. A doutrina foi condenada como heresia porque a um só tempo nega a trindade, a divindade de Cristo e o Espírito Santo.
.
6. A teologia do Logos e os princípios da interpretação bíblica

As primeiras formas de manifestação teológica na igreja primitiva procuraram debater os antigos ensinos filosófico-religiosos que diziam que o homem só pode entrar em contato com o Espírito por meio de seres intermediários. Geralmente agrupava-se estes seres intermediários sob a designação de Logos (palavra grega que significa "verbo", "palavra"). A influência espiritual da doutrina do Logos era tão grande que João, no Evangelho do seu nome, chega a utiliza-lo para explicar o mistério da encarnação (João 1:1). Motivados pelo desejo de demonstrar que a fé cristã é razoável, alguns apologistas aproveitaram o conceito nos seus discursos aos eruditos pagãos.

Mais tarde veio a ser um conceito bastante evocado pelos demais teólogos antigos. Três desses teólogos foram particularmente importantes nessa discussão, ao longo do segundo século: Irineu, Tertuliano e Orígenes.

(a) Originário da Ásia Menor, Irineu morava em Lião (sul da França) onde se tornou bispo em 178. Sua teologia tornou-se a base de toda a teologia desenvolvida no leste do império romano (oriente). De acordo com a sua teologia, (a) Cristo é o Logos encarnado e o segundo Adão, que trouxe à humanidade a revelação de tudo quanto o primeiro Adão perdeu. Portanto, Cristo concede ao mundo o que o primeiro Adão não conseguiu. (b) A coisa mais importante que o primeiro Adão perdeu e que Cristo concede à humanidade é a imortalidade. Adão perdeu a imortalidade e dela privou toda a humanidade por causa de sua desobediência. Para Irineu, portanto, o homem não é um pecador que recebe a graça, mas o mortal que recebe do segundo Adão a imortalidade.

(b) O segundo teólogo importante da igreja antiga é Tertuliano, já mencionado anteriormente Foi advogado em Cartago (norte da África) no início do século III. Assim como Irineu é reconhecido como o pai da teologia oriental, Tertuliano é o pai da teologia ocidental. Baseado nos conhecimentos jurídicos que ele dominava, explicou que a relação que existe entre Deus e o homem é do tipo jurídica, na qual a morte de Cristo na cruz é a medida (mérito) que satisfaz o conflito (litígio) entre Deus e o homem. Além disso, Tertuliano antecipou a definição da trindade (=um ser, e três pessoas) e da relação entre as naturezas de Cristo (duas naturezas, e uma pessoa) que, como veremos, farão parte dos credos teológicos oficiais da igreja.

Estes dois teólogos desmascaram a tentativa dos gnósticos em mesclar o cristianismo com a filosofia grega, tarefa particularmente muito difundida na cidade de Alexandria, que era um importante centro cultural do mundo greco-romano. Com suas idéias a igreja pôde perceber que o gnosticismo não era cristianismo.

(c) O terceiro líder teológico dessa época foi Orígenes (185-254), grande mestre em Alexandria e mais importante teólogo antes de Agostinho (quem estudaremos mais adiante). Sua especialidade era a exposição bíblica e a polêmica filosófica. Escreveu a primeira obra de teologia sistemática cristã, o Dos Princípios. Ao todo é autor de mais de 6.000 mil escritos e foi morto durante a perseguição do imperador Décio.

Embora interpretasse as escrituras alegoricamente, ele propôs três modelos de interpretação: a literal, a moral e a alegórica. Para ele, nem todos os crentes têm condições de interpretar as escrituras. Por isso, o crente simples e comum só pode (consegue) interpreta-las literalmente, aos mais adiantados (que eles) predomina a interpretação moral e só aos eruditos é possível a interpretação mais acertada, a alegórica. Disto se podemos concluir que a maior contribuição de Orígenes foi a valorização da ciência da interpretação das escrituras. Sua teologia não foi aceita pela linha ortodoxa da Igreja, mas continuou exercendo grande influência na igreja nos séculos seguintes.

A entrada de heresias foi um dos maiores problemas enfrentados pela igreja primitiva, bem no calor da perseguição. É importante notar que heresias como as que o cristianismo daquele tempo teve de enfrentar geralmente sobrevivem melhor no interior de outras religiões (=sincretismo). O gnosticismo e o montanismo são exemplos de ensinamentos capazes de se mesclar na igreja sem que crentes comuns se apercebam do perigo. Graças a sábia liderança e o compromisso de alguns Pais da Igreja, fiéis a Cristo e aos seus ensinamentos, foi possível desmascarar e dar combate as heresias, livrando delas a verdadeira igreja de Jesus que seguiu firme nos princípios do Antigo e Novo Testamentos.

&&&&&&&&&

 

VI. Unidade e Catolicidade da Igreja. As três normas Universais

 

Na luta contra as heresias do século II a igreja antiga fora obrigada a tomar algumas medidas para preservar a correção doutrinária do cristianismo em todo mundo, bem como a fortalecer as bases da unidade entre todos os cristãos. Formulou para isso três normas da fé cristã para servirem de norma e evidência da verdade cristã.

Essas normas tinham uma validade universal ou católica. Ist

o é, elas serviam para identificar a fidelidade e autenticidade de uma igreja como fiel depositária da doutrina dos apóstolos e do espírito de Cristo, onde quer que ela se encontrasse. Essas normas são: um só cânon, um só credo ou confissão, uma só forma de governo. Pode-se dizer que estas normas serviram para afirmar e consolidar o ideal da catolicidade da igreja, muito defendido no século II por alguns pais da Igreja como o bispo Policarpo, da igreja de Esmirna, falecida aos 23 de fevereiro de 155.

1. A formação de um Cânon

Como já observamos, muitos hereges defendiam um cânon menor, enquanto outros um cânon maior ao acrescentar-lhe vários escritos falsos. Outros ensinavam doutrinas que não existiam nas escrituras sagradas. Isto levou à necessidade de reconhecer (e não criar), dentre os escritos lidos e apreciados nas igrejas, aqueles que apresentavam evidências de inspiração divina. A maioria dos principais livros do Novo Testamento já existia em toda a parte do cristianismo, com apenas poucas exceções (como Hebreus e Apocalipse). O Antigo Testamento, mais esse conjunto de livros (evangelhos e epístolas) de ampla aceitação nas igrejas dessa época, veio a ser o que se designou de cânon dos apóstolos.

O Espírito Santo conduzia a igreja nesse processo de estabelecer um cânon. Contudo, considerou-se como indispensáveis alguns critérios:
(a) Autenticidade da autoria apostólica do escrito canônico, isto é, escrito por um dos apóstolos de Cristo;
(b) Data, isto é, aceitáveis apenas os escritos cuja data de autoria coincide com o tempo de vida dos apóstolos e evidencie longo e amplo uso nas comunidades cristãs;
(c) Tendência doutrinária, isto é, se afirma inteiramente a divindade e humanidade de Cristo;
(d) Aceitação geral pelas igrejas, isto é, se as igrejas em geral utilizavam o escrito e se era comprovadamente proveitoso para a edificação espiritual dos seus membros.

2. Adoção de um só Credo ou Confissão

Além do cânon a igreja sentiu necessidade de unificar a doutrina. Os ensinos de Cristo e dos apóstolos eram amplamente conhecidos, mas o problema das heresias dificultava a compreensão dos crentes. Era necessário a existência de um registro ou instrumento que pudesse facilitar a distinção entre a ortodoxia e a heresia. Para isso a igreja elaborou uma confissão.

Partindo de elementos de confissões existentes no Novo Testamento (Veja Mateus 28:19; Romanos 1:3-4; I Coríntios 12:13; Filemón 2:5-11), elaborou-se credos (confissões) mais completos para ajudar os crentes a iluminar sua fé e prática. Desse trabalho resultaram confissões como a Didaquê, o Credo Niceno concluído em 381 e o Credo Apostólico, do século V.

A Didaquê é o credo mais antigo que apareceu nas igrejas antigas e remonta ao tempo dos apóstolos. "Trata-se de uma constituição eclesiástica... Foi escrita entre 100 e 150 mas também é possível que tenha sido escrita em 80, na Síria, na Palestina ou no Egito. Suas belas formulações nos evidenciam o quanto a fé cristã ainda se encontra próxima de suas raízes judaicas", conta o historiador Martin Dreher.

Conhecido também como manual litúrgico da igreja primitiva, ela contém a explicação de todas as ordenanças bíblicas, todos os ofícios religiosos, e a maneira como eram celebrados. Além disso contém mandamentos éticos e descreve como se obtém a salvação. Oferece prescrições para a vida de culto no tocante a batismo, jejum, oração e ceia, além da vida em comunidade, falando de pregadores itinerantes, profetas, mestres, eleição de bispos e diáconos. O surgimento das confissões ou credos ajudou as igrejas a permanecer incontaminados com as heresias teológicas, bíblicas e filosóficas tão comuns entre os cristãos da época.

3. Uma só forma de governo

A terceira norma foi a unidade eclesiástica. Foi sendo cada vez mais necessário o reconhecimento da autoridade na igreja, capaz de garantir a manutenção da ortodoxia face aos abusos e heresias de vários mestres que existiam na época. Uma autoridade que devia garantir a aceitação universal do cânon e dos credos. Esta autoridade devia existir em cada e todas as igrejas, garantindo uma uniformização da liderança em todo o cristianismo (uma só forma de governo).

Este problema foi resolvido de três maneiras. Vimos que a liderança hierárquica das comunidades cristãs era constituída por presbíteros, diáconos e bispos. Com o passar do tempo estes últimos se despontaram não só como administradores (=episcopoi) das igrejas locais, mas também como os pastores com funções sacerdotais.

Num primeiro momento considerava-se como importante a concordância entre os bispos que pastoreavam as igrejas. Isto levou a instituição dos sínodos, que eram colégios bispais que se reuniam regionalmente para encontrar solução para os problemas, dúvidas ou disputas doutrinárias que surgiam nas igrejas. Os bispos diocesanos, aqueles que pastoreavam igrejas com filiais numa vasta área distrital, isto, com um número maior de comunidades cristãs sob sua jurisdição, acabavam exercendo mais influência nos sínodos.

Depois, especialmente com a oficialização da igreja pelo imperador Constantino, aumentou a necessidade de que muitas dessas reuniões contassem com a presença das principais lideranças cristãs de todo o império. Estas reuniões universais são o que se chama de Concílios, Concílios Universais ou ainda Concílios Ecumênicos. Embora o Espírito de Deus conduzisse a sua igreja, infelizmente alguns bispos, especialmente dos grandes centros populacionais, começaram a reivindicar maior autoridade sobre os demais nessas reuniões.

Já observamos que os bispos de Roma foram os primeiros a garantir esta posição, graças a alegação da doutrina da sucessão apostólica que favorecia a cidade de Roma, onde o apóstolo Pedro teria sido o primeiro bispo. A doutrina da sucessão apostólica quer dizer que os bispos são os verdadeiros sucessores dos apóstolos e, portanto, é deles a autoridade de determinar e interpretar o cânon e a confissão da igreja. Assim, ao lado do cânon da Bíblia a igreja acabou colocando uma segunda autoridade, o bispo. Alguém que tivesse autoridade para lhe garantir que estava no caminho certo. Veremos que o resultado disto acabou sendo trágico na Idade Média: a subjugação da Bíblia ao bispo (Papa).

Foi na autoridade do bispo que também se encontrou a solução para os problemas da disciplina e da santificação na igreja. Em 217, por exemplo, o bispo Calixto de Roma começou a ensinar que ele tinha autoridade para perdoar pecados, desde os "pecados leves" até os "pecados mortais" (fornicação, apostasia e homicídio) por meio da penitência. Esta reação de pureza contra a imoralidade do mundo levou também um certo presbítero da mesma cidade, chamado Novaciano, a fundar em 251 uma "seita" que designou "igreja dos puros", na qual não se toleravam os pecados mortais.

4. Catolicidade

Muitos não sabem que o nome católico se aplica a todo o cristianismo. De fato, desde o ano 180 que a igreja antiga começou a ser chamada de "Igreja Católica", que quer dizer "Igreja Universal", ou seja, igreja de Cristo que está em toda a parte do mundo. É um designador da unidade necessária do povo de Cristo, tanto na fé quanto na missão e propósitos. Os cristãos da Igreja Primitiva entenderam que Cristo fundou apenas uma igreja, a sua igreja. O cristianismo, conjunto de todos aqueles que crêem que Ele é Senhor e Salvador do mundo, tinha de ser uma, especialmente num tempo de perseguições e heresias que as querem e a ameaçam destruir. Foi isso que os Pais da Igreja pregaram.

Contudo, esta designação se aplica até pelo menos no ano 313 quando, com a transferência da capital política do império de Roma para Constantinopla, se evidenciou a distinção e mais tarde a separação entre a igreja do leste (oriente) e a igreja do oeste (ocidente). Veremos isso mais adiante. A primeira se designará de Igreja Católica Grega ou Ortodoxa (com sede em Constantinopla, Grécia) e a segunda de Igreja Católica Romana, isto é, com sede em Roma.

********

Concluindo, face a necessidade de cerrar portas contras as heresias e os ataques externos, e a fim de preservar a unidade universal (católica), a igreja teve que adotar três normais no segundo século: um só cânon, um só credo e uma só forma de governo. A autoridade das duas primeiras foi garantida com o reconhecimento da autoridade dos bispos, aos quais se reservou o privilégio de interpretar o certo e o errado. Fraquezas humanas e circunstâncias históricas desse tempo levaram muitos bispos a reivindicar uma posição intermediária que os colocava acima dos demais crentes e homens e apenas abaixo de Deus (baseados na autoridade dos sacerdotes do Antigo Testamento), chegando ao extremo de reclamar e implementar a autoridade de perdoar pecados.

Problemas

Considere alguém que diz "Nada de Credo, apenas Cristo. Eu creio apenas em Cristo". Está ele certo ou errado? Qual é a utilidade (se alguma) de um Credo?

A Igreja Primitiva estava certa ou errada em tornar (estabelecer e adotar) um credo como a arma contra as heresias? Discuta a sua resposta à luz do texto da lição.

 

Voltar à página principal