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A maldição de Angola: muitas riquezas!
O governo angolano até hoje ainda utiliza um slogan que vem dos dias da sua revolução marxista, que ressoa como o contraditor principal de suas iniciativas para a paz. Nos anos de minha juventude de militância comunista, como jovem absolutamente inebriado pela ideologia do MPLA, me sentia sempre em pé de guerra, pronto a empunhar uma arma para matar e morrer pelos interesses ideológicos do MPLA quando recitava esse slogan. Graças a Deus nunca precisei empunhar uma arma longe ou dentro de um campo de batalha.
O slogan inflamava jovens e adultos, quando em grandes ou pequenas concentrações os angolanos, aos gritos, eram levados a repetir em coro o refrão "A Luta Continua". Naqueles idos tempos da revolução comunista comandada por Agostinho Neto, fundador e primeiro presidente do MPLA e seu governo, esse slogan declarava pelo menos o objetivo da luta: "A LUTA CONTINUA... PELO PODER POPULAR". Uma revolução para implantar o socialismo era o objetivo da luta, que devia continuar até a realização desse objetivo. Hoje, a luta de fato continua para a grande maioria dos angolanos, porém, com outro objetivo: sobreviver numa situação de completa insanidade política e psicose social. Para os angolanos esclarecidos, que não são alienados, cada dia passado em Angola significa um dia a menos num país transformado em manicômio sem psiquiatras.
Passadas três décadas de guerra, até hoje os angolanos não vislumbram senão guerra. A paz é como um belo sonho que só existe como um sonho, que só dura até o raiar do dia. Para uns ela não é senão uma utopia possível, e para outros a paz é uma conquista demasiadamente grande e complexa para a realidade angolana. Afinal, o slogan da estratégia de governabilidade do partido que aparentemente governará ainda por mais alguns anos é "A luta continua". Pessoas e famílias inteiras de refugiados convivem, hoje mais do que nunca, com uma vergonha e embaraço indisfarçáveis. Quando as mais diversas tecnologias adentram também o país e aumentam a imponência do luxo e pompa dos favorecidos pela situação, além daqueles que tiram vantagem do caos e desordem econômica construindo fortunas no mercado negro, o único que mantém o povo sobrevivendo, não se vislumbra um mínimo de dignidade humana entre as pessoas encafifadas em aglomerações habitacionais de papelão e lataria espalhadas pelos arredores dos bairros das grandes cidades das províncias angolanas.
Uma médica brasileira passou 45 dias em Angola em 1999. Ao fim de sua visita filantrópica e religiosa ao país, confessou que aqueles quarenta e cinco dias haviam sido os mais longos e difíceis dias da sua vida já vivida neste mundo. Não procurei saber se ela já havia estado em outros países em guerra do terceiro mundo, se já havia praticado missões filantrópicas no interior nordestino do Brasil como eu já fiz. Mas o fato é que suas impressões fazem coro com a grande maioria de visitantes de Angola: uma raiva extrema por causa do sofrimento generalizado das pessoas. E a maldição de Angola é justamente por ser um país muito rico, por ter tantas riquezas pelas quais vale a pena lutar.
São muitos campos de petróleo e diamantes, explorados e não explorados, descobertos e tantos por descobrir ainda. Território de extensão média e com apenas 11 milhões de habitantes, possui vastos campos ricos também para a prática da agricultura, já que tudo o que se planta dá. Mas, por causa da guerra, nenhum angolano comum está colhendo riqueza. Entretanto, a impressão hoje é que todo o mundo parece decidido a pegar a sua própria parcela da grande riqueza. Muitos jovens têm se aventurado nos últimos anos para as regiões produtoras de diamante para tentar amealhar o que é seu para poder viver condignamente. Doce ilusão!
Claro que o caos da guerra está favorecendo só a poucos. Está provendo a oportunidade que eles conquistaram acidentalmente e agora precisam para saquear ao máximo. Enquanto os mais esclarecidos da UNITA, particularmente o seu comandante em chefe, estão enriquecendo pela vida toda com o saque de diamantes (seus negócios são estimados hoje em 800 milhões de dólares americanos ao ano, através da venda de diamantes e marfim), os dirigentes do governo atual estão acumulando milhões de dólares com o tráfico do petróleo, negociado a preços especiais, diferentes do mercado regular internacional, em troca de altíssimas propinas em favor de suas contas bancárias espalhadas nos paraísos financeiros do mundo inteiro. Quando jovens e adolescentes angolanos se perguntam hoje por que ir à guerra num país que não oferece uma causa política que demanda a guerra, quando há apenas divergências políticas que no mundo civilizado enriquecem a política e alimentam as estratégias de desenvolvimento, seria bom que alguém dissesse para essa juventude que Angola é um país muito rico e o dinheiro se tornou a razão que alimenta todas as guerras do mundo todo. O caos, a corrupção e a guerra angolanas tornou-se o grande negócio de muitos capitalistas emergentes de Angola. E não há nesse país um único homem de dinheiro que não possua poder de decisão sobre o fim ou continuação da guerra em Angola. Há quem acredita que a guerra em Angola pode durar ainda outros trinta anos, porque a corrupção é mais fácil quando há uma guerra. E quando a guerra civil armada terminar, o outro round terá de ser tão bruta quanto para que se instaure verdadeira democracia e desenvolvimento equilibrado e igual para todos.
A guerra de Angola é uma guerra esquecida - sua obstinação tem levado muitos diplomatas e mediadores a abandonar os angolanos à própria sorte, completamente vencidos pela frustração de lidar com gente sem caráter, ignorante e teimosa. Mas o povo de Angola não deveria ser esquecido. Não são apenas as riquezas de Angola pelas quais vale a pena lutar.
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