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Mpla x Unita: a falácia antropológica de um conflito por privilévios
O MPLA nasceu em 1956, de um ideal representado por um grupo de jovens nacionalistas africanos que estudavam na Europa desde a década de 1950. Entre estes jovens estavam os angolanos Antonio Agostinho Neto, Jonas Malheiro Savimbi, Viriato Cruz, Daniel Chipenda, entre outros.
Médico recém-formado em Portugal, onde casara com a portuguesa Maria Eugênia Neto, Agostinho Neto havia se convertido à causa do nacionalismo pan-Africano e da independência de Angola como uma liderança respeitável entre os vários grupos espalhados na Europa daquele tempo. Sua atuação como consciência desse ideal, que se fazia ouvir nos círculos acadêmicos e políticos da Europa, fez com que ele se despontasse como líder inconteste da causa da liberdade angolana, ao ponto de provocar a reação do governo colonial português....
Agostinho Neto é originário da região central de Angola, perto de Luanda, onde nasceu na pequena aldeia de Kassange, dentro do que é hoje a província do Bengo. São habitantes da região povos de fala kimbundo. Depois do seu retorno em Angola, as atividades do movimento haviam se concentrado exatamente nessa região, onde se situa a capital do país. Como conseqüência, o MPLA proliferou nessa região e em suas fileiras proliferam igualmente militantes desta região, muitos dos quais se despontariam como dirigentes ao lado de Agostinho Neto.
Com a aproximação da independência em 1975, depois dos acordos de Alvor, cada movimento nacionalista solicitara ajuda dos patronos da sua causa dentro da conflagração mundial da guerra fria. Enquanto o MPLA obteve o apoio da União Soviética, mas principalmente da Cuba, para ocupar a capital Luanda, a UNITA conseguiu o apoio da racista África do Sul e a minguante FNLA dos Estados Unidos da América. Outros países estão, é claro, entre estes.
A chave para a entender o atual conflito civil em Angola deve ser procurada, sem dúvida alguma, na figura enigmática e rebelde de Jonas Savimbi, cujo movimento tomou primeiro armas para combater os colonialistas portugueses a partir de 1966, e depois os dois movimentos mais importantes e estáveis na época, o MPLA e a FNLA, desde 1975. A causa da UNITA pode ser escrita como tendo inicialmente sido muito importante para a história da independência de Angola. Assim como o MPLA, a UNITA foi inicialmente socialista na ideologia, e sua organização militar de guerrilha se seguiu as instruções diretas de Mao-Tsé-Tung, líder da revolução popular socialista da China. Mais tarde rendeu-se à sedução do ocidente capitalista, traindo a confiança dos socialistas soviéticos e chineses que lhe deram apoio na fase decisiva de sua organização. A adoção da ideologia pró-Ocidente capitalista fizera também com que importantes líderes africanos, conhecidos na época como "African Fighters" (Jomo Kenyata e Tom M'boya do Kénia, Tovo ya Toivo e Sanu Joma da SUAPU namibiana, e Kuame Khrumah, entre outros, o considerassem um homem politicamente aventureiro e politicamente imprevisível. Hoje se percebe com maior clareza que assim como o governo atual de Angola a ideologia nunca foi, para Jonas Savimbi e sua UNITA, algo senão um simples instrumento de justificação de sua guerra a serviço da sedução do poder pelo poder. Savimbi quer ter o país sob seu comando, quer o povo o queira ou não. E o caminho para isso - ele ainda acreditava até recentemente - é a luta armada.
A UNITA da guerra civil se estabeleceu e fortaleceu como produto de uma ideologia que pregava o fim do MPLA, não apenas por causa do seu alinhamento ao comunismo e conquista do apóio das forças internacionalistas da Cuba e Rússia, que durante anos ajudaram-no a combater as milícias guerrilheiras da UNITA e também da FNLA, mas, principalmente, porque o Movimento Popular de Libertação de Angola era um movimento racialmente misto, reunindo intelectuais de todas as raças, originários das cidades da costa africana. Savimbi rompera com a FNLA também por razões separatistas, pois havia considerado o movimento como curral das gentes do norte do país. Tomou depois o rumo do Sul, de onde ele iniciou a propagação de sua ideologia regionalista e racista, que recentemente se tornou patente a nível do país durante a sua primeira e talvez última campanha para a presidência de Angola.
Uma das marcas pela qual sua falsidade e racismo ficaram conhecidos é a instrução que distribuía ao bando de assassínios ignorantes que comanda, para matar sem compaixão a todos brancos que encontrassem pela frente. De fato, num vídeo tornado público em Outubro de 1999 pelo MPLA na televisão de Angola, recolhido no quartel general e capital política de Savimbi, a Jamba, depois da sua captura no mesmo ano, confirmou essa fama. No vídeo, considerado na época um golpe de marketing em favor do MPLA, Jonas Savimbi aparece passando em revista sua tropa de elite na aldeia de N'harea, província do Huambo. Nele, além de confessar em Umbundo aos seus comandados sua desonestidade política com relação aos acordos de paz de Luzaka, dizendo que havia devolvido à ONU apenas "uma quantidade menor de armas absoletas" e escondido as melhores para garantir o sucesso de sua causa, passa também instruções que aterrorizaram os angolanos e a comunidade internacional, referida por ele como "um pequeno segredo": "Agora vocês não precisam mais capturar brancos e traze-los até mim. Podem esmagar qualquer um que capturarem".
Savimbi não ocultou sua face regionalista e racista nem durante sua campanha presidencial em 1993, na qual se despontou por enfatizar o velho slogam da FNLA "Angola para os angolanos". Sua ambição desmedida por fama e heroísmo militar se dá também a conhecer quando no referido vídeo termina sua conferência de educação política dizendo que "aqueles que têm força serão sempre respeitados, porque eles fazem a história".A jornalista britânica da BBC de Londres, Lara Pawson, explorou com maestria esta face do distinto guerrilheiro angolano numa reportagem de Abril de 2000, pela qual ajudou a comunidade branca da Europa a considerar uma Angola em guerra civil, ou sob o mando de Jonas Savimbi, uma bela selva ferroz que deve ser sempre evitada.
Por todas essas razões muitos observadores confundem sua ideologia e se apressam a classifica-la como tribalismo, quando este problema nunca existiu nem como inspiração para Savimbi. Este cidadão não passa de um regionalista que nalgumas fases de sua difícil tarefa de convencer as populações nativas e camponesas ensaiou até apregoar o ideal da separação do país em três nações: Cabinda para os cabindenses, o Sul para os sulistas, e o Norte para os nortistas. Naturalmente vislumbra com isso não só a sua chance de saciar sua sede de poder de mandatário supremo no sul, mas também o caos do MPLA em cujas fileiras se encontram lideranças descendentes de todas as regiões do país.
Apesar da sua crítica do envolvimento externo em Angola, na realidade a situação real da UNITA foi sempre o de ser marionete puxando as cordas dos mestres da fantochoda, pela concorrência cruel e sem escrúpulos para aproveitar-se da iniciativa e estabelecer seu domínio econômico-estratégico imperialista.
A lógica das tensões étnicas não tem total aplicação na guerra civil de Angola. Ela tem, isto sim, profunda relação com a consciência nacionalista enquanto tal. Como já fizemos menção, à diferença de muitos outros países africanos, mas também à semelhança de muitos outros, a diversidade étnica não prevaleceu face a necessidade de combater o inimigo comum desde os idos do XV século. No calor das revoltas tribais contra a tirania escravagista européia, são mesmo conhecidas as alianças que eram celebradas entre as chefias tribais dos territórios que hoje formam a nação angolana, numa inteligente atitude de coligação de forças para a resistência. Muitos conflitos intertribais foram mesmo suscitados e alimentados pelo comércio de escravos, quando muitos chefes tribais eram aliciados pelos piratas europeus a trocar "bugingangas nunca vistas" (espelhos, pentes...) por escravos. Deste modo tribos rivais passariam a ser estimuladas a atacar outras só com o objetivo de capturar reféns vendidos depois como escravos aos brancos.
Mesmo quando parece o caso, apenas uma leitura distante e superficial faria consistir o conflito atual de Angola em classe, raça ou tribo. Na década de 1980 houve sinais que persuadiram muitos angolanos a enxergar certo etnicismo (talvez mais regionalismo do que o primeiro) no conflito Unita-Mpla. Nessa época, apesar dos esforços da parte do governo para manutenção da unidade nacional (José Eduardo dos Santos, provavelmente sentindo crescer o peso regionalista do conflito, havia proclamado o ano de 1983 como ano da Reconciliação e Unidade Nacional) era possível sentir que grande parte dos Ovimbundos, especialmente os que habitam a região do planalto central, apoiavam a Unita, que por sua vez os dissuadia a ver os Kimbundos e os habitantes da costa atlântica como inimigos.
Nessa época é que ressurgiriam comentários muito difundidos em torno da idéia da divisão do país em duas unidades soberanas, Sul e Norte. Uma aludida campanha separatista de Jonas Savimbi e o visível abraçar desse discurso pelas populações esclarecidas do sul do país fizera com que, depois de muitos anos, o conflito civil angolano se transformasse numa querela étnica. Entretanto, a rápida expansão nacional das forças da Unita, virtualmente para mais de 60% dos territórios das províncias angolanas ao longo dessa década, ao ponto de estabelecer uma frente tão poderosa e estratégica no extremo Norte quanto aquela que mantinha há anos no extremo Sul e sudeste, contribuiu para desmantelar aquela aparente tendência separatista, regionalista e étnica que havia emergido do conflito.
Savimbi sempre pregou também a sua guerra como um conflito de classes, posição sócio-ideológica que contribuiu para consolidar a imagem tribalista do conflito angolano. O conflito de classes é hoje a única característica irrecusável dessa guerra, adotada por Savimbi e que foi durante muitos anos a causa do sucesso dos seus objetivos. A Unita se proclama como a representante dos "verdadeiros africanos", dos filhos da terra, que vivem nos campos, que se recusam a aceitar os excessos políticos e sociais de uma elite rica, corrupta e gananciosa das cidades angolanas. Uma elite que usa o poder que tomou de assalto para viver montada sobre as riquezas do país, enquanto sustenta uma guerra que mantém longe do seu luxo os verdadeiros filhos da pátria, que tanto se sacrificaram para sobreviver as atrocidades do colonialismo. No calor desse discurso savimbista, a própria nacionalidade do presidente José Eduardo dos Santos chegou a ser posta em dúvida, difundindo-se o comentário de que não era filho legítimo de Angola, mas de imigrantes São-Tomenses.
Na época colonialista muitos ovimbundos eram arrastados ao norte pelos brancos portugueses para trabalhar na colheita do café, que os viam como serventes fortes para todo o serviço forçado. Eram genericamente reunidos sob a designação de "bailundos", no afã de estabelecer-se distinção étnica entre eles e a população do norte. É comum até hoje os habitantes naturais das províncias do norte se referirem aos do sul como "bailundos" (ou mbâlundos, entre as populações camponesas de fala kimbundo e kikongo) tão somente em razão desse hábito colonialista herdado dos portugueses. Mas o caráter falacioso dessa divisão pode ser percebido quando se observa que as pessoas não fazem qualquer distinção de natureza étnica, geopolítica ou tribal dos sulistas nesse tratamento. Vem a ser apenas um rótulo acidental que independe dos grupos étnicos, das regiões étnicas e muitas vezes das línguas faladas pelas populações do sul. Disto resultou mesmo um imaginário cultural específico no norte sobre os "bailundos", que é reproduzido oralmente de geração em geração desde a época colonial. De acordo com essa cultura popular os "bailundos" são atrasados (o sotaque da fala o denunciara!), brutos, perigosos, fortes e até infanto-canibais. O folklore nortista evoca o "mbalundo" para impor disciplina de obediência as crianças.
Tudo isso denuncia, a nosso ver, apenas a lógica dos regionalismos comuns em todas em nações do mundo. Além do fato de este fator exercer hoje pouca ou nenhuma influência nas relações sociais vigentes, especialmente nas áreas urbanas, todo angolano esclarecido sabe também, por exemplo, que os angolanos do sul, especialmente os descendentes ovimbundos, são os mais afáveis, e possivelmente os mais criativos e inteligentes entre os habitantes do país. O imaginário prevalecente desse velho rotulismo colonial apenas tem um caráter folclórico hoje, e o regionalismo que dele ainda se sustenta é o mesmo em natureza àquele que opõem kimbundos e kinkongos, luandenses e malanjinhos, bailundos e kunenes, e assim por diante. Não expressam qualquer motivação política, social, econômica ou ideológica.
É impossível dimensionar o quanto tudo isso contribuiu para viciar o discurso político-ideológico de Jonas Savimbi numa fase difícil de sua guerrilha. Fato é que a lógica militar da guerra civil, que confinou as milícias da Unita nos matagais e restringiu as forças do MPLA nos domínios urbanos, serviu para destrincherar essa velha nota do folk-lore regionalista herdado do passado colonial. É em razão disso também que Savimbi usa hoje a sua guerrilha para lutar pela ocupação de minas de ouro e diamantes, sem que seja confundido com um caçador de fortuna pessoal pelos seus seguidores. Os recursos naturais de Angola - diamantes no sudeste e petróleo bruto na costa atlântica nacional - acabaram se tornando um pouco mais do que simples elemento que serve para se prolongar a guerra civil, que beneficia uma pequena elite nos dois lados. Acordos de Paz alcançados em 1974, 1989, 1991 e 1994 fracassaram todos. É impossível hoje manter longe da possibilidade imaginativa de que o fracasso de parte ou todos esses acordos para pacificar o país tem uma grande quota de justificação nesses benefícios, como de resto se verifica em outros contextos semelhantes do de Angola.
Não há dúvida de que o lixo em que foi tornada a realidade angolana, recusada pela suas crianças e da qual se envergonha sua juventude espalhada pelo mundo como refugiados políticos, repousa na intransigência de algumas personalidades políticas em todos os lados, dispostos a explorar essas fundamentais clivagens tribalistas dentro da sociedade angolana, para poder perpetrar sua ganância econômica casada à sede pelo poder. O futuro nacional certamente condenará essas pessoas, e a julgar pelos ventos que sopram no mundo todo contra os crimes humanitários, se viverem, não poderão evitar o banco dos réus em que serão julgados, culpabilizados e condenados a pagar com a vergonha e ignomínia seus derradeiros dias de vida. Hoje, são incapazes de qualquer ginástica da consciência sobre esse inferno que certamente os aguarda.
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