A Unita e seu comandante em chefe

 

A Unita e seu comandante em chefe, Dr. Jonas Savimbi.

 

A UNITA foi idealizada em 1966 por um grupo de militantes que eram integrantes da FNLA, chefiados por Jonas Malheiro Savimbi. Sua fundação oficial ocorreu na cidade de Muangai, um posto rodoviário na província do Bié, sudeste de Angola. Num Congresso ali realizado entre os dias 10 a 13 de Março de 1966, em plena mata densa, num local situado a 20 Km ao Este do posto de Muangai, foi concebido o primeiro organograma do movimento, que consistia de estratégias de operação militar, além de promulgar Jonas Savimbi como seu primeiro presidente. Sua presidência permanente do movimento parece ter sido um golpe de poder, em desacordo com a moção dessa primeira assembléia, onde não se falara da idéia de uma presidência vitalícia. Pouco mais de 100 pessoas haviam atendido o congresso, entre os quais cidadãos comuns e líderes de aldeias.

Jonas Savimbi nasceu no município de Andulo, província do Bié e fora, juntamente com líderes nacionalistas no exílio zairense, membro do Governo Revolucionário do Exílio (GRAE) e co-fundador, ao lado de Holden Roberto da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Em Julho de 1964, durante a cimeira da OUA realizada no Cairo, Jonas Savimbi decide abandonar a FNLA para fundar, dois anos mais tarde, a sua própria frente nacional de resistência anti-colonial no Sul do país.

Acompanhado de onze companheiros do seu círculo de amigos militantes partiu em 1965 para a República da China Popular, onde recebem treinamento em táticas de guerrilha e orientação sobre a necessidade e estratégias de guerrilha diretamente do próprio Mão-Tse-Tung, então líder da revolução chinesa. Antes da China e depois da separação da FNLA, Savimbi havia realizou viagens ao longo de 1964 para a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Argélia, Alemanha Oriental, Hungria e Checoslovákia em busca de apoio para os seus planos de encabeçar uma causa revolucionária em Angola. Em Março de 1966 volta para Angola e se estabelece no interior da província de sua origem, Bié, e mais tarde para Moxico, arredores da fronteira com a Zâmbia. Foi no Bié, naquele mesmo ano, que fundou a UNITA, e deu início a luta não-convencional contra as milícias portuguesas localizadas nessa região. Em Julho de 1967 foi preso pelas autoridades zambianas e obrigado a exilar-se no Cairo. Volta novamente a Angola no ano seguinte e dá seguimento a luta armada contra os portugueses. Ao que tudo indica, o movimento havia ganhado corpo entre as populações da região. Depois de mais de dez anos de incursões esporádicas sobre alvos portugueses, Savimbi teria chegado a assinar um acordo de cessar-fogo com as autoridades portuguesas depois da queda do regime português de Salazar e Marcelo Caetano em Junho de 1974, quando o novo governo militar português optou por uma rápida descolonização dos territórios ocupados.

Em face dessa decisão do governo imediato de Portugal, presidido por Costa Gomes, a de conceder independência às colônias portuguesas na África, em Janeiro de 1975 aconteceu o primeiro evento importante na história do conflito civil de Angola, a conferência de Mombaça. Os três líderes dos movimentos nacionalistas angolanos mais importantes - Jonas Savimbi, Agostinho Neto e Holden Roberto - se reúnem no Kenya e concordam em fazer da Angola independente uma democracia. No dia 15 do mesmo mês e ano o presidente da República Portuguesa, Costa Gomes, e os três líderes angolanos, Agostinho Neto, Jonas Savimbi e Holden Roberto assinam o famoso acordo de Alvor, na qual Portugal anunciava formalmente aos líderes angolanos sua vontade de conceder a independência de Angola. Bases para o estabelecimento de um Estado-Novo são também estipulados nesse encontro, e obtém-se um acordo formal entre os três movimentos para a formação de um governo provisório até a data da proclamação da independência. Depois disso, eleições livres e democráticas definiriam o futuro político do país.

Dos acordos de Alvor apenas um foi até hoje honrado, a liberação da independência em novembro daquele mesmo ano pelas autoridades portuguesas. Especialmente a partir de Junho de 1975, ficara claro que o futuro de Angola, livre da dominação colonial, havia se tornado refém da guerra fria que ameaçava desfragmentar o mundo. Dispostos a seguir a cartilha dos mestres do ocidente, alguns movimentos, particularmente o MPLA de Agostinho Neto, começara a demonstrar certa intolerância e inadmissibilidade político-ideológica contra os demais. A situação começa a revelar-se instável com a disseminação dos movimentos em todo o país, cujas ações espalhavam temor e instabilidades entre as populações urbanas, especialmente os de origem européia. Massacres começam a ser registradas nas principais capitais das províncias, particularmente em Luanda. Mais uma vez as lideranças da guerrilha angolana concordam em realizar outro encontro conjunto, a cimeira de Nakuru, visando pôr fim às divergências e garantir o cumprimento dos acordos de Alvor.

Entretanto, com a proclamação da independência no dia 11 de Novembro de 1975, todos os acordos anteriores ficaram no papel e o movimento do MPLA, que encabeçava o governo provisório nesta data, apoiado por tropas cubanas e soviéticas, decide iniciar uma campanha militar pela erradicação dos outros movimentos. Durante o estágio final da guerra contra Portugal, e contra o MPLA em 1975, a FNLA chegou a formar uma aliança com a UNITA, anunciando a formação da República Democrática de Angola. Depois de atacar a província de Luanda a partir do Norte, num famoso embate conhecido como "batalha de Kifangondo" realizado nos arredores do então município de Kaxito, cerca de 200 quilômetros perto de Luanda, a FNLA foi derrotada pelo MPLA e nunca mais recuperou forças para existir como movimento armado. Enquanto alguns elementos da FNLA haviam sido absorvidos pela UNITA, outros formariam mais tarde a base das forças especiais do Batalhão 32 da África do Sul que durante anos operou na Namíbia e Sul de Angola. Era o triunfo da ideologia comunista no país, cujo sucesso só seria possível com a frustração do direito dos outros movimentos participarem da conjuntura política do país. Este terminara por ser a conseqüência do alinhamento heterodoxo desses movimentos às causas representadas pelas potências ideológicas e militares do ocidente, e que procuravam dominar o mundo através da propaganda (guerra fria).

Em Fevereiro de 1976 o MPLA proclama vitória formal e o movimento de Jonas Savimbi é forçado a abandonar a cidade do Huambo, onde se havia instalado desde 1974 e retoma o caminho das matas. Um mês mais tarde, acompanhado por uma coluna de mais ou menos mil militantes, Jonas Savimbi começa a chamada "longa marcha" em direção ao sul. Mas apenas 79 pessoas chegariam ao fim da caminhada rumo ao noroeste da província do Bié. Muitos morreram no caminho, enquanto outros abandonariam a coluna como desertores. Depois de anos de resistência contra as forças do governo do MPLA, em Dezembro de 1979, Jonas Savimbi cria uma cidade no interior das matas, localizada no extremo sudoeste de Angola, a Jamba, que se torna a capital política, diplomática, administrativa e quartel general militar da UNITA.

Com o apoio oficial do governo racista da África do Sul, que alimentava interesses de dominar política e economicamente a região sul do continente, a derrotada UNITA manteve por mais de 20 anos a guerrilha no sul e centro do país, e que tomaria conta da totalidade do país a partir de 1987, depois da saída das tropas cubanas em Angola três anos antes. Chegou a ser a mais longa guerra civil da África, com um custo estimado hoje em meio milhão de vidas perdidas. Depois de anos de intensa carnificina e depredação da pátria, negociações sinuosas produziram finalmente um acordo político para a paz e democracia em Maio de 1991. A principal medida desse acordo selado em Bicese e Bagdolite, Zaire, era a realização de eleições presidenciais e legislativas, planejadas para outono de 1992. Dezoito partidos participaram desse pleito, mas na verdade o que houve foi uma disputa direta entre MPLA e UNITA, da qual o primeiro partido saiu vencedor com cerca de 177 deputados, contra apenas 56 deputados da Unita. Um segundo turno entre Jonas Savimbi, da Unita, e José Eduardo dos Santos, do MPLA, decidiria as eleições não fosse a trapalhada do sanguinolento guerreiro Dr. Savimbi.

Apesar do dramático apelo dos observadores internacionais que as eleições haviam sido livres e justas, Jonas Savimbi e sua UNITA recusaram-se a aceitar o resultado, alegando negligência dos observadores e fraudes generalizadas do MPLA. O homem treinado e que se treinou a respirar guerra e governar através da força das armas, escolhe novamente tentar chegar ao poder pela via das armas. Esta segunda fase da guerra civil angolana viria ser a mais pesada e destrutiva desde 1975. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas, entre civis e militares, já pereceram desde 1993. Como fruto da vontade de um único homem que deseja o poder, seguida por uma turba de combatentes em idade de amamentação, analfabetos e ignorantes do mundo fora de seus campos de batalha, o país que chegou a saborear a paz e acariciar a esperança por tempos melhores, passou a conviver novamente com a humilhante situação de um país em guerra fratricida.

As pessoas esclarecidas do agora partido e movimento da UNITA, os seus quadros mais altamente capacitados, não tiveram opção honrosa se não abandonar a UNITA de Jonas Savimbi (na verdade abandonar Savimbi, e não a Unita), que alguns consideraram psicologicamente insano. Nada mais justificava um conflito armado civil em Angola depois de 1992. A euforia que havia tomado conta do povo havia sido forte e sincero demais para merecer a traição. Mas novamente o país mergulhara em banho de sangue, caçada a liberdade de sua juventude que há muito se recusa a lutar, que só é integrada aos exércitos na condição de prisioneiros para guerrear.

Uma das grandes dúvidas hoje, suscitadas pelos observadores internacionais, é se a paz angolana teria sobrevivido mesmo se Jonas Savimbi tivesse sido eleito presidente em 1992. Esta é uma pergunta difícil do ponto de vista das projeções objetivas. O que já não é dúvida hoje é que a vida de guerrilheiro de longos anos embruteceu completamente a pessoa de Jonas Savimbi, tornando-o incapaz de conviver com a democracia de fato. Até os seus seguidores mais próximos, aqueles com os quais "divide" a liderança do movimento, o temem mortalmente. Sabe-se hoje através de revelações de ex-integrantes da base do seu governo que sua gana em dedicar-se à causa do poder em Angola só é comparável à dos imperadores romanos da fama de Calígula e Marco Aurélio. Executa ele mesmo ministros, generais, familiares ou comandados diretos que ele suspeita de traição, insubordinação ou infidelidade ideológica. Savimbi poderia ser considerado hoje, e mesmo desejado, como uma das grandes lideranças políticas do país. Mas definitivamente ele não é mais a esperança política para Angola. Toda a verdade é que ele hoje não passa de um militar que só conhece a lei do poder das armas, da execução sumária do oponente mais capaz, portanto, incapaz de conviver com um ambiente de democracia plena. A sua chegada ao poder significaria a emergência de uma ditadura militar do tipo radical e totalitarista. Jonas Savimbi jamais conseguiria governar um país livre e democrático, dentro do princípio do estado de direito. A UNITA savimbista é hoje o MPLA de 1975. Pode ser o pesadelo de todos os outros partidos e mobilizações políticas.

Apesar dos diamantes, pegadas da paz!

A nova onda da guerra civil angolana tomou de surpresa a nação e o mundo e passou a mobilizar as pessoas e lideranças de bem. Em Novembro de 1994, graças à desenvoltura do então presidente da África Sul, Nelson Mandela, um novo acordo de cessar fogo foi assinado na cidade de Luzaka, Zimbábue. A mobilização humanitária internacional levaria ainda ao país um contingente de sete mil soldados dos países membros da ONU para supervisionar o respeito dos acordos, além da oferta de 500 milhões de libras esterlinas destinadas a ajudar na aceleração dos processos da retomada da paz e da reconstrução social, cedida pela Comunidade Européia. Mas em nenhum momento a UNITA de Jonas Savimbi parece ter dado sinais concretos de aderir seriamente aos acordos. O conflito continuou, e desta vez com fortes conotações econômicas. Bandos de guerrilheiros passariam a lutar pelo controle das minas de diamante ao sul e centro do país.

Do ponto de vista étnico, desde a sua fundação até mais ou menos o fim da primeira metade da década de 1980, a UNITA foi um movimento em que predominavam milicianos sulistas originários de várias tribos: ovimbundos, kwanhamas, nhanecas e tchokwes. Savimbi é originário da tribo dos umbundos, e talvez por isso muitos se apressam em identificar o movimento com essa tribo. Apesar da predominância de quadros dirigentes pertencentes aos umbundos desde a sua fundação, especialmente os naturais das províncias do Bié e Huambo, hoje sabemos que apenas uma pequena parte de guerrilheiros é originária dessa tribo. Kuanhamas do Cunene compõem também um grande contingente nas fileiras da UNITA, e muitos líderes importantes do movimento no passado pertenceram a essas e outras tribos. Embora Jonas Savimbi tenha utilizado, em muitas fases da guerra civil contra as forças do MPLA, a estratégia do discurso tribalista como trunfo para arregimentar mais adesões militares e apoio popular à sua causa, especialmente na região em que mantinha seu QG, o sul, apenas os observadores externos seriam capazes de aceitar o argumento tribalista como fiador da sua luta.

Savimbi é inteligente o suficiente para alimentar a ilusão de conquistar o poder em Angola, escudado apenas por milícias ovimbundos. Qualquer ideologia militar do tipo norte-sul representaria desvantagem militar e política para a sua causa por duas razões. Primeiro porque o MPLA passou a ser um partido descentralizado, isto é, desregionalizado, desde a unificação territorial que promoveu com o banimento dos demais movimentos revolucionários. A população das províncias livre do Sul sabe que muitos generais, ministros e altos dirigentes do partido do MPLA são filhos da sua terra e desconfiariam de qualquer acusação de o MPLA ser um movimento totalmente nortista ou tribalista. Em segundo lugar porque, apesar de o sul representar mais de 57% do total da população de Angola, a UNITA precisaria do apoio das regiões do norte para conseguir vencer o MPLA, como é o seu objetivo, movimento que mantém ligações históricas profundas com essa região.

A segunda metade da década de 1980 foi particularmente importante para a UNITA por causa da maneira como o movimento conseguiu se propagar, novamente depois da década de 1970, nas províncias ao norte de Angola, especialmente no Uige e Malanje. Entre 1986 e 1992 a UNITA havia tomado o controle de vastas regiões também ao norte, despontando-se surpreendentemente como um movimento nacional preste a pregar um cheque-mate à hegemonia do MPLA. Jamais uma facção tribal ou tribalista chegaria a um feito semelhante em Angola. Foram essas condições de surpreendente renacionalização, juntamente com uma grande capacidade de organização militar, que forçou o Comitê Central do MPLA, através do seu presidente José Eduardo dos Santos, a sentar à mesa de conversações com a facção da UNITA a partir 1988. Dentro do MPLA o objetivo da paz como necessidade premente para o país parece ter sido, na época, uma intenção em que apenas José Eduardo dos Santos estava interessado. Isto ficou evidente num incidente conhecido da grande maioria dos angolanos, em que o presidente Dos Santos precisou ameaçar com a renúncia os membros do Comitê Central, na véspera do V Congresso do MPLA em 1988, para obriga-los a aceitar o início das conversações com o movimento de Jonas Savimbi.

Leia aqui a parte III desta análise

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