A política dos evangélicos

A política dos evangélicos

©José Caldas

"Não há uma causa evangélica na política, mas uma causa política à espera dos evangélicos."

É com certa euforia, e até uma boa dose de empáfia, que os evangélicos falam de seu crescimento numérico no País e, mais ainda, do crescimento de sua representação na política. Os filiados a alguma igreja evangélica já passarão de 10% das cadeiras da Câmara dos Deputados na próxima legislatura e serão 20% na Assembléia Legislativa do Espírito Santo.

Todos os estudos censográficos indicam que os brasileiros de confissão católica, que já foram 95% da população nacional, hoje não passam de 75%, ainda uma boa maioria. Os outros estão divididos entre evangélicos, espíritas e os sem religião.
Alguns líderes ou pseudo-líderes e intérpretes da cena social, sempre ligados a alguma denominação do ramo protestante, chegam a se ufanar de que, na verdade, os evangélicos já passam de 30% da população brasileira.

A dança dos números, porém, pouca importância tem. O que interessa mesmo é saber qual o efeito concreto desse crescimento da confissão evangélica na vida do povo brasileiro.

Os meios de produção capitalistas já descobriram esse segmento como um nicho de mercado. Há produtos específicos para o público evangélico. Artistas, muitas vezes fracassando no segmento popular, de repente se convertem, saem dando testemunhos e vendendo seus livros e CDs para seu novo público.

Até os políticos já descobriram a força dos evangélicos e os dois presidenciáveis que foram para o segundo turno nas eleições em que Lula se saiu vencedor disputaram com força total os votos da fé. Curioso é descobrir que os votos dos cristãos evangélicos têm "donos". Mas será que têm mesmo?

Para compreender um pouco da política dos evangélicos no Brasil, vale um breve passeio histórico, que pode ser melhor pesquisado na literatura específica, e aqui recomendamos "Igreja e Estado no Brasil Holandês - 1630-1654)" (SCHALKWIJK, Frans Leonard; Edições Vida Nova, 1989) e "Cristianismo & Política - teoria bíblica e prática histórica" (CAVALCANTI, Robinson; Editora Vinde, 1988).

Em síntese, nossa história é a seguinte: até meados do século XIX, este foi um País de domínio católico, por força dos colonizadores ibéricos. Somente se obtinha registro de nascimento, casamento, participação política e até o direito de ser enterrado nos cemitérios públicos quem era católico.

Os huguenotes franceses, fugitivos da perseguição religiosa da contra-reforma, tentaram se instalar com Nicolas Durand de Villegaignon no Rio de Janeiro entre 1555 e 1560, mas foram logo expulsos. Depois, os calvinistas holandeses tiveram uma incursão mais exitosa no Nordeste, entre 1630 e 1654, mas foram expulsos política e religiosamente. Entretanto, estes deixaram suas marcas mais do que aqueles.

A presença dos herdeiros da Reforma se consolidou quando missionários chegaram ao País na segunda metade do século XIX com o objetivo da evangelização efetiva, e tiveram uma participação direta nos movimentos abolicionista e republicano, quando houve a separação oficial entre Igreja e Estado no Brasil.

No período que vai até os anos 60 do século XX, os evangélicos tiveram, embora sendo uma absoluta minoria da população, uma forte presença na vida pública brasileira, a despeito de os norte-americanos tentarem, sabe lá Deus com que objetivo, sempre disseminar a idéia de que "crente não se mistura com política" - apesar de os "crentes" terem dado a maioria dos presidentes dos Estados Unidos da América.

O regime militar foi uma tragédia para a política dos evangélicos. Em princípio alijados do sistema, dele se aproximaram em sua pior fase, quando o regime ditatorial se fechou e perdeu o apoio dos católicos romanos. Lideranças evangélicas obtinham privilégios para conduzirem seus rebanhos como ovelhas a caminho do matadouro e, dentro das igrejas, irmãos entregavam irmãos aos ditadores.

Quando o reverendo Guilhermino Cunha lançou a semente da maior participação evangélica na política em 1986, houve um "despertamento", mas com grande ingenuidade por um lado e malícia por outro. Muitos se locupletaram em nome da fé com emissoras de rádios e televisão - é só ver o episódio dos cinco anos do mandato do presidente José Sarney.
Não há uma causa evangélica na política, mas uma causa política à espera dos evangélicos. A política dos evangélicos deve se basear na ética e no serviço de qualidade ao povo em geral. Se há algo de podre no reino da política, os cristãos em geral, e os evangélicos em particular, são chamados a intervir de forma revolucionária.

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