espiritualidade e ética da vida

ESPIRITUALIDADE E ÉTICA DA VIDA HUMANA

©Zakeu A. Zengo

Advertência: Este texto é parte da introdução de um livro em andamento, destinado àqueles que acreditam que a felicidade é mais fácil para as pessoas que vivem na ignorância, e que ela torna-se particularmente uma possibilidade difícil para aqueles que alcançaram maturidade e iluminação racional sobre a realidade de todas as coisas.

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A vida é uma dádiva da natureza, distribuída aos seres vivos por meio de processos de reprodução previamente determinados. Esses processos ou leis da natureza dependem de uma força que os regula interna e externamente, garantindo a perpetuação do princípio da vida. É possível dizer, com base nisso, que a vida é uma força, uma realidade objetiva na qual todos os seres vivos participam como vasos de sua expressão e preservação. Cada ser vivo é antes de tudo um sinal, uma expressão passiva e finita da força que a vida tem de materializar-se e regular a ordem natural das existências.

Se considerarmos esse raciocínio aceitável, algumas conclusões surpreendentes podem então ser estabelecidas. Primeiro, que o ato de existir não é absolutamente um direito inalienável dos seres vivos; segundo, que aos seres vivos é absolutamente necessária uma razão para existir. Isto quer dizer o seguinte: a natureza não elege quem deve viver, mas aqueles seres que, por chance, chegam à condição de existência recebem, com isso, o direito de ser a sua expressão "necessária", portanto, o de realizar-se como expressão que deve compatibilizar-se com a força e a dinâmica da própria vida.

Ora, sabemos por experiência que a satisfação ou insatisfação possível na vida não se expressa de maneira igual para todos os seres vivos. Ao invés, um princípio de desigualdade se impõe sobre a ordem dos seres vivos: uns são feios enquanto outros são bonitos; uns são defeituosos enquanto outros são fisicamente perfeitos; uns são monstros enquanto outros são ínfimas partículas invisíveis; uma diversidade de coloração, odor, medida, peso, etc., garante mesmo uma expressão um tanto quanto "carnavalesca" da força da vida no universo das existências materiais possíveis.

Há ainda um outro aspecto curioso. Os seres vivos desaparecem (desintegram-se: nascem e morrem), mas a vida propriamente dita segue se reproduzindo e se materializando em outros seres. A ciência fala sobre as espécies extintas no planeta, como os dinossauros, mas não pode falar de uma extinção plena da vida neste universo. Do mesmo modo as religiões falam de um fim para a ordem das existências materiais e singulares no universo; entretanto, garantem a existência eterna da vida no plano imaterial. Por estas razões as pessoas sabem que morrem, mas levam para o silêncio da morte uma certeza: a vida continua mesmo sem elas.

Somos todos governados pela cruel e inevitável lei da vida natural, a de nascer para morrer. Para os nossos sentidos, nossa percepção racional e nosso desejo, nada tão mais desgraçado poderia ter nos acontecido. Isto porque o nosso impulso natural é viver e não morrer. Contudo, temos de nascer para depois morrer, muitas vezes morrer quando ainda não estamos preparados e quando não logramos alcançar ainda a chance de aproveitar ao máximo o que a experiência da vida tem para oferecer. De fato a nenhum ser humano é dado o direito de se grudar à vida - por mais que o deseje - senão naqueles pouco mais ou menos 100 anos que nossa constituição material pode suportar (alguns seres vivos apenas nascem para viver 34 horas do tempo do nosso relógio).

Por tudo isso, uma coisa parece certa: entre todos os conhecimentos possíveis ao ser humano que está vivo, a busca da "sabedoria da vida" é a maior de todas as lições e o maior desafio intelectual que tem de enfrentar sem perda de tempo. Além disso, no mundo das existências e dos conhecimentos possíveis a vida humana permanece ainda o maior mistério a ser desvendado no universo. Reconhecer o ser humano como substância ao mesmo tempo material e energia de vida constitui pressuposto fundamental sem o qual todas as demais existências perdem sentido e valor real. Neste universo da nossa experiência, nada existe verdadeiramente se existe fora da razão e sentido humanos. Tudo só tem o sentido que tem para a existência humana.

Logo nada é tão mais desafiador e instigante que o conhecimento sobre o próprio ser humano que somos, que é o centro e referência primordiais de todas as existências no universo. Não apenas por ser impossível conceber qualquer valor possível e necessário de todas as coisas no universo sem que o ser humano seja a referência desse sentido, mas também porque é ele próprio o ponto de partida na busca pela verdade de todas as coisas. No mundo da vida só faz sentido aquele sentido que interessa ao sentido da vida humana. Todas as coisas só têm o sentido que o homem dá ou reconhece para elas. A ética humana sobre (e que reconhece) o direito de ser das outras coisas é, no final das contas, uma ética inteiramente humana.

A busca desse sentido último é que constitui efetivamente o objeto primário tanto do conhecimento analítico (filosófico), do conhecimento religioso (metafísico), quanto da mais recente forma de conhecimento descoberta pelo homem, o conhecimento aplicado (técnico-científico). Hoje, as ciências especializadas e ocupadas em desvendar o segredo de uma vida com sentido se multiplicaram tanto quanto as ciências aplicadas ao conhecimento da natureza da vida e do universo no qual ela acontece. Acredita-se mesmo, como os racionalistas do passado já pregaram, que as ciências só estão aí para ajudar o homem a ser mais homem e verdadeiramente um ser humano. Em 1637 o filósofo francês René Descartes, tido como pai do racionalismo moderno, quando escreveu seu tratado sobre o método no conhecimento da razão e da técnica, adiantou que sua tarefa era tornar o homem "senhor e dono da natureza", dono da sua existência.

Uma grande indústria está atualmente a serviço dos que se querem especialistas na arte e nos mistérios da vida. Buscam desvendar esse mistério pela análise da harmonia e das contradições internas da vida humana e do próprio universo. A realização e o sentido da vida humana (a felicidade) é tratada como consistindo fundamentalmente no conhecimento isolado de certas potencialidades internas do homem. Enquanto para alguns a felicidade consiste na busca do equilíbrio psicológico, para outros ela consiste numa vida cheia de proezas nos campos do sexo, do amor e da fama. Outros ainda buscam estimular a capacidade criativa como fonte de prazer e de felicidade ilimitadas, como é o caso da arte de ganhar dinheiro, medalhas e arrancar paixões dos outros seres humanos. Há mesmo aqueles que fazem consistir a felicidade na capacidade de construir relacionamentos duradouros, na habilidade de atrair vantagens, na determinação de cultivar a saúde do corpo e da mente, etc. Termos como "pensamento positivo", "autoconhecimento", "autotranscendência", "inteligência emocional", "conhecimento complexo", "auto-imagem", etc., nunca tiveram tanto a ver com a busca da felicidade do que eles têm em nossos dias.

Mas em nenhuma bandeira dessas "ciências" especializadas a vida é tão mais desmistificada que nas chamadas "ciências do espírito", no sentido místico e esotérico. Teosofia, espiritismo, positivismo cristão, orientalismo, esoterismo, reencarnação, espiritualismo, etc., se unem sob o signo de ser cada um a seu próprio modo o conhecimento mais elevado da vida humana, capaz de levar o homem à realização da felicidade e do prazer de viver. Os "segredos" do ciganismo, dos pais e mães-de-santos, dos duendes, dos gnomos, dos cartomantes, dos quiromantes, dos exorcistas, se propõem a ser portadores do conhecimento que leva o ser humano à realização da sua felicidade na terra. Por meio destas diligências, o homem atual tenta definir e dar sentido à sua condição humana, bem como um ultimato às indefinições e mistérios que se manifestam por meio do sofrimento e da morte.

Ora, é possível que muitas dessas escolas ofereçam contribuições importantes no conhecimento dos mistérios da vida humana e do universo espiritual em geral. Tão antigas quanto a busca pela felicidade, revelam essa faceta interessante da nossa experiência cognitiva: a busca do sentido e da felicidade. Tem-se mesmo a impressão de que na humanidade nada mais resta para ser ensinado nessa experiência do que isto: ou o homem aprende a ser feliz por conta desse conhecimento ou então deve resignar-se a viver como um anônimo, como um mero experimento da força criadora da natureza.

Em meio a todos esses empreendimentos de felicidade, cada vez mais se percebe que viver verdadeiramente tornou-se uma sina a ser desvendada no próprio ato de ir vivendo. É necessário que a todo o tempo busquemos luz e direção na releitura de todas as lições adquiridas da história da vida. E sobre isso existem centenas de tratados filosóficos, manuais de história e ensinamentos sobre a vida humana em que toda a pessoa minimamente esclarecida e desperta, disposta a não viver por viver, pode encontrar socorro.

As páginas que se seguem propõem-se a meramente contribuir para iluminar mais ainda as razões desse empreendimento; a encorajar a caminhada solitária de quem deseja fazer da própria existência uma permanente busca do sentido da vida, quase sempre encontrável nos labirintos muitas vezes escuros da própria vida. Trata-se de uma tentativa de desmistificar a angústia gerada na experiência da vida humana, vivida por muitos, por causa da falta de um sentido e um propósito claros para a vida que optaram ou se vêem obrigados a viver, por entendermos que essa angústia é a responsável verdadeira por todos os desequilíbrios emocionais, racionais e todos os travamentos psicológicos e muitas vezes físicos que fazem com que pessoas dotadas de vontade e razão convivam com fracassos, impotências, frustrações, desorientações e toda a sorte de sobressaltos e inquietações, como um quinhão natural da sua experiência de vida.

Não discutiremos aqui as razões filosóficas, antropológicas, científicas, econômicas ou políticas dessas teses. Como dissemos, há já bastante (se não o suficiente) desse material. Apenas indiretamente realizaremos essa pretensão. O que aqui fazemos é mostrar algo que para alguns poderia soar insólita e pretensiosa: demonstrar o alcance da chamada revelação bíblica na elucidação do sentido da vida, vista a priori como um elo inevitável e indispensável do homem em sua busca de realização na terra. Não para fazer da Bíblia um trampolim religioso, mas, considerando sua pujança específica e inegável, bem como seu caráter misterioso e seu lugar entre os grandes mistérios da humanidade, render-se ao seu apelo e dedicação à causa da vida; à sua afirmação inconteste de que a vida humana exige, para ser tal, um sentido e uma realização determinados; à sua insistência na tese da crucial necessidade de aceitar a energia vital como uma dádiva externa à experiência natural, e a vida humana (enquanto substância viva) como um projeto histórico orientado para um sentido e um propósito predeterminados; tudo isso como a condição que leva à maior e verdadeira de todas as felicidades.

Tratam-se de questões que demandam uma grande sensatez, que pretendemos seja a marca própria das páginas que se seguirão a esta. A Bíblica Sagrada é a mais abrangente revelação da experiência e do mistério da vida que se conhece e que está, aparte dos interesses e disputas religiosas, acima de todos os outros livros sagrados seguidos pelos homens. Considerando isto, o livro que você tem à mão é para todos aqueles que, independente de religião, querem ver mais abertas as portas da espiritualidade e da fé na vida e para a vida, que desejam encontrar motivos para mergulhar decididamente mais fundo na experiência da existência, visando a conquistar o sentido mais alto e mais autêntico que a verdadeira vida reclama para si.

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Peter Drucker, especialista em gestão do tempo e que aos 90 anos de idade ainda vem empolgando pessoas engajadas na busca do instante da própria realização, vaticina que ou as pessoas têm de aprender a administrar a si próprias ou então têm de acostumar-se com a sensação de serem completamente estranhas a tudo o que é próprio da verdadeira condição humana.

Ele acha que apenas poucas pessoas morrem sabendo para quê viveram, que lugar conquistaram no seio da vida que viveram e que espécie de ser humano realmente foram. Poucos se perguntam: 'Qual é o meu valor? Qual é o meu objetivo? Onde é o meu lugar? Qual é a minha contribuição? , diz numa de suas numerosas obras. E para escapar dessa humilhação existencial à qual a maior parte das pessoas hoje tende a se submeter com resignação, aconselha: "Antes de qualquer coisa temos de saber quem nós somos".

Tales de Mileto foi um dos filósofos mais aclamados da antigüidade. Viveu toda a sua vida na pequena cidade de Mileto, na Jônia grega, onde gozou fama de grande intelectual e estrategista. Raramente falhava em seus prognósticos intuitivos; procurava desviar-se das explicações simples e comuns. Este homem tinha por costume reunir os seus discípulos para debater as grandes questões da vida. Consta que à pergunta "qual é a coisa mais difícil do mundo?", um dia respondeu: "Conhecer-se a si mesmo". Ele acreditava que só as pessoas com consciência plena sobre a verdadeira condição humana e sobre as exigências de sentido para a vida vivida são capazes de alguma felicidade real na vida. Anos mais tarde, o também filósofo grego Sócrates, pai do racionalismo, popularizaria o famoso dito "conhece-te a ti mesmo".

É evidente que de todas as conquistas humanas, a que mais causa satisfação ao homem é a sua consciência de felicidade. Entretanto, a felicidade humana nem sempre permanece, e quando permanece, apenas dura aquele tempinho que vai desde a sua conquista real até a inesperada morte do sujeito que vive feliz. Tal como a própria vida, a felicidade é fugaz e muitas vezes dura tão pouco que morremos sem jamais ter sido realmente felizes. É por isso que uma das facetas mais intrigantes da consciência humana é a permanente busca de realização duradoura.

Em face das constantes dilacerações sobre nós impostas pelo desafio de estar no mundo de hoje, cresce a cada geração a consciência e a busca de uma realização estável e duradoura, capaz de exorcizar e dissolver as ambigüidades da vida perpetradas pela permanente situação de revezes e sofrimento históricos no mundo. Consciente ou inconscientemente o ser humano atual busca realizar-se não apenas como ser humano, mas também como um ser integrado num grande complexo de vida, a vida universal. Não é por acaso que a humanidade incorporou nas suas preocupações mais importantes nas últimas décadas a defesa da ecologia e do meio ambiente. Eles se despontam definitivamente como fatores essenciais à realização integral da condição humana. Além disso, a generalizada reivindicação e defesa dos diretos humanos respeitantes a todos os homens, mulheres e crianças de todo o mundo, revela que a busca de um sentido verdadeiro para a experiência humana é maior que a sua ausência.

Mas tem crescido também nos últimos anos a sensação de uma irreprimível ansiedade com relação as possibilidades reais da conquista dessa realização. Com tanta inversão de valores e tão grande deslocamento de perspectivas, muitos têm experimentado a sensação de viver como se apenas fossem meros trapos humanos, completamente alijados da situação necessária para a verdadeira existência digna de ser humana.

Os acontecimentos trágicos e repetidos da história da humanidade evidenciam explicitamente que estamos diante de uma generalizada dissolução do espírito humano. Apesar do vergonhoso saldo histórico das guerras, elas ainda estão aí e grandes indústrias privadas e estatais encontram-se em plena atividade tecnológica para tornar as reais e possíveis guerras modernas mais destrutivas e devastadoras.

A atual escalada da violência urbana, a ininterrupta multiplicação das organizações criminosas em todas as partes do mundo, bem como as disputas sangrentas pelas riquezas do mundo, parecem sugerir que temos de abandonar definitivamente qualquer esperança de um futuro melhor. Com o passar dos anos, a sensação que se generaliza é que o homem está se tornando cada vez menos homem. O acúmulo da tecnologia e o domínio científico de todos os fenômenos que regem o universo físico estranhamente estão empurrando a humanidade ao caminho inverso da evolução. Tanta maldade praticada contra a vida e a natureza com o consentimento dos governantes e dos cientistas, é sinal evidente de que nós os seres humanos estamos involuindo de algum modo ou de outro, enquanto os animais irracionais, apesar de dizimados, evoluem. É possível que tenhamos de enfrentar no futuro esta vergonhosa constatação.

Ademais, as conseqüências de outras mazelas sociais hoje normatizadas como a dissolução da família, o relativismo ético, a violência indiscriminada, o aumento da distância entre riqueza e pobreza, além do traumatismo decorrente das pressões emocionais e das desilusões amorosas cada vez mais crescentes, têm aumentado em muitas pessoas a sensação de impotência e invalidade responsável hoje por alguma coisa que podemos chamar de "suicídio em vida". Como conseqüência, o velho sonho das utopias possíveis vem sendo substituído por uma carência evidente de prazer de viver.

Todas as utopias perderam hoje sua força e atração. Enquanto a esperança religiosa de um paraíso celestial vai perdendo todo ou muito do seu apelo no contexto das pessoas de fé, as doutrinas políticas como o comunismo, o socialismo e até mesmo o capitalismo, perderam seu espaço no plano das ideologias que ainda sustentam as expectativas progressistas. A fé religiosa tende a estabelecer-se cada vez mais como apenas um grande amuleto a serviço da existência utilitarista e imediatista, isto é, como um amuleto necessário na luta contra as doenças, a pobreza e as desilusões do presente. Pela mesma razão a luta encarniçada pela conquista de prosperidade material e bem-estar se tornaram a única ideologia que alimenta esse capitalismo responsável pela crescente corrupção nas nações, pelas guerras civis e pelo competitivismo massacrador das sociedades contemporâneas.

Nesse estado de "suicídio em vida" em que a humanidade se encontra, as pessoas desaprendem ou param de sonhar. Passaram a viver por viver, sem qualquer perspectiva de futuro e, pior, sem qualquer fé na própria felicidade ou realização futura. Palavras como "felicidade" e "realização" passaram a integrar nessas pessoas apenas o seu museu interior. Tornaram-se realidades que não oferecem possibilidade real de acontecerem. Não motivam e nem acordam as pessoas do sono da alienação e da resignação. Nesse estado, resta para elas esperar a morte, enquanto se vive como possível. Não importaria para essas pessoas se chegasse o instante em que teriam de viver debaixo de marquises, de ficar desempregadas, de divorciar-se, ou que terão perdido o equilíbrio psicológico necessário para a sanidade mental. Venha o que vier, nada têm a fazer a respeito, nada têm mais a perder.

Perderam o ânimo, a determinação, a fé e a coragem de buscar viver realizando sonhos. De alimentar a realização da felicidade que nunca tiveram. Não sonham, não têm mais planos reais para uma vida mais feliz. Vivem do que o acaso, a sorte e o destino trazem em seus caminhos. Quando muito, se atolam na ilusão de uma felicidade de quinta categoria, aquela que vem da sensação de uma boa gargalhada, de uma iguaria saboreada, de uma falsa declaração de estima e apreço, de uns trocados acrescidos em seus salários, de um afago ou um beijo que nada mais promete além dele, enfim, de uma "bênção" religiosa afiançada por uma experiência de libertação bio-psico-emocional. Tornaram-se estranhos na própria condição humana.

Mas o que está em jogo é tão mais profundo quanto simples: é a própria vocação da vida. O que é a vida? Por que nos percebemos existindo num universo que tem muito a oferecer, mas enfrentamos a sensação incômada de que dele sairemos sem conquistar sequer o mínimo necessário para uma satisfação duradoura? Será a vida apenas uma "dona estranha" que se dispõe de nós como num jogo de xadrez ou em suas brincadeiras de "jogo da velha"? São estas apenas perguntas como tantas outras já feitas sobre a vida humana? Seja qual for a nossa percepção destas questões, a verdade é que muitos em geral vivem sem jamais buscar no apoio de tais reflexões as bases da vida que vivem e, o que é pior, sem nunca realizarem sequer uma fração do que a vida tem para oferecer.

Todas as evidências indicam que há claramente muito mais na vida do que aquilo que a nossa experiência imediata nos diz. Quase sempre o grande problema nessa estrada está na maneira como começamos, como nossa situação cultural, histórica, social ou familiar nos apresentou à vida. A antropologia tem hoje por assente que nossa atitude para com a vida é determinada pelo meio que nos produziu como seres de identidade, conscientes da própria vida e daquilo que ela é verdadeiramente.

Mas ocorre que nossa situação histórico-cultural e nossa família nem sempre nos habilitam a ir além da situação particular dela mesma. E sabemos que quando essa situação particular de nossa identidade individual (cultura, posição social, família, crença religiosa...) é muito limitada em sua cosmovisão, muito conservadora em suas crenças, muito radical em seus valores, ou muito pobre em tudo isso, pode nos fazer assentar em cima de muito nada que funcionará como tudo em nossa percepção da vida e da realidade. Por isso, quase sempre é necessário ir além dos limites e das contradições do meio que nos gerou. É nisto que consiste o papel da educação acadêmica: dar-nos os instrumentos necessários para uma mais efetiva e competente realização das possibilidades da vida.

Mas por outro lado, a educação escolar pode se transformar também numa empolgante conquista da nossa própria alienação, já que nela as pessoas aprendem a valorizar idéias e concepções objetivas, quase sempre distantes ou desconectadas dos objetivos mais reais e das metas mais autênticas da vida. E é nesse ponto de toda a situação que se torna importante o crescimento no entendimento da vida, da própria existência, seus desdobramentos e rumos, bem como os nossos objetivos reais nela. Este é o lugar da chamada experiência ou maturidade da vida. É exatamente neste ponto em que se insere a preocupação do professor Peter Drucker: an

tes de mais nada temos de ousar saber quem e o que nós realmente somos.

Chegados a este ponto, outras formas de indagação tornam-se inevitáveis: em que realmente consiste o conhecimento para a vida? Qual é o ponto de partida realmente verdadeiro daquele conhecimento capaz de nos arrancar da existência linear para a uma existência ascendente? Evidencia a vida humana ideais e aspirações que indiquem a trajetória autêntica de realizações capazes de libertar nossa consciência da prisão das angústias e desilusões típicas da vida humana? Nisto consistirá o desenrolar da nossa abordagem.

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