\n'; document.write(barra); } } changePage();
"Mas
o mundo é do Diabo, assim como o céu é dos tolos".
(PAPINI, Giovanni. O Diabo. Unibolso, Lisboa)
A relação intrínseca entre o Diabo e o Poeta (e, por extensão, a própria Poesia) é defendida por Giovanni Papini no seu livro O Diabo. No texto, este filósofo italiano traça o itinerário de Satã visto comofigura não só do imaginário ocidental, mas de várias culturas no mundo. Mostra como Satanás emergiu da teologia religiosa dando-se em casamento ao imaginário literário, no seio do qual sua personalidade ganha notas mais fortes, de um terror mais tragável. "E os poetas, mais sensíveis que os teólogos, não ficaram enredados nas artimanhas de Satã e cuidaram em manter a sua terrível figura aos olhos de muitos?", pergunta Papini, apoiando-se em toda uma linhagem de autores que consagraram grande parte de suas obras ao Demônio ( Tasso, Vondel, Calderón de la Barca, John Milton e DeVigne), além, principalmente, de alguns dos mais acentuados expoentes do movimento romântico, como Goethe, Victor Hugo, Leopardi e, como não poderia deixar de ser, Lord Byron.
De fato, se essa relação entre o Diabo e a Poesia realmente existe, ela jamais alcançou uma expressão mais alta do que no Romantismo. E aqui reside a questão que deu origem a essas breves considerações: por que razão os românticos teriam escolhido o Demônio como mecenas? De que maneira ele se faz presente na obra de seus cantores? É impossível responder a estas perguntas como se faz necessário. Entretanto, é possível ao menos enchergar a questão através das impressões de Papeni.
Para ele, o diabo tem no Romatismo um lar que lhe revela bastante de sua pessoa. Essa famigerada mas ainda notável escola da arte e da vida, fundada por jovens, sempre teve a pressa e a impaciência inerentes à juventude. Dessa impaciência criativa nasceu a necessidade imperiosa de subverter as estruturas e os esquemas consagrados, quebrando completa e o mais rapidamente possível os grilhões do neo-classicismo, que anteriormente limitara a criação artística e a imaginação aos antigos e despóticos modelos da imitação das formas. Assim sendo, a melhor maneira de provocar escândalo, de promover o choque estético dentro de sociedades regradas, construídas dentro dos rígidos preceitos cristãos - fossem elas sociedades protestantes ou católicas - acostumados aos conceitos maniqueístas e estagnados de Bem e Mal, era escrever, e publicar, verdadeiras apologias do Demônio. Assim ocorre, por exemplo, em obras e autores clássicas como Os Bandoleiros de Schiller, o Cain de Lord Byron. Este, como sabido, escreveu numa Inglaterra acossada pelo formalismo ético-conservador do puritanismo, para o qual ele procura reler um mito bíblico elementar, mas sob uma ótica completamente nova, onde bem e mal já não são tão facilmente identificáveis como realidades abstratas absolutas. O mesmo ocorre no mais recente Fausto de Alvares de Azevedo que, ao seguir os passos de Goethe, dedica todo um drama às conversas do jovem Macário com Satã. Trata-se de uma ousada obra em termos de uma aproximação brasileira ao tema, em que se conhece uma das poucas aparições do Demônio personificado na literatura. "Eu sou o Diabo. Boa noite Macário..."; Com essa frase, Alvares de Azevedo é o primeiro romântico brasileiro a dar voz ao Demônio, a conceder-lhe o dom da palavra, o Verbo.
Serviria essa relação tão íntima, quase simbiótoca, dos românticos com Satã apenas ao propósito de escandalizar as sociedades do seu tempo? Seguindo Papini, acredito que a fascinação romântica pelo adversário vai mais além disso. É algo para o qual encontraremos explicação apenas na essência de ambos, numa espécie de gênese comum - por que não?. A chave para o mistério está na natureza do Romantismo mesmo e na natureza de Lúcifer.
Em todo o caso, o texto de Papini já é um bom início para quem desejar entrar no interior desta inquietude - que é tentar compreender a eqüidistância entre o Lúcifer da literatura teológica e bíblica e o da literatura cultural, produto do imaginário ocidental que nos acomete. No seu Diabo ele justifica também a sua presença merecida entre os clássicos da literatura ocidental mais recente. O tema é controverso, não só pela identidade que seu personagem central estabelece com o imaginário de nossa civilização supostamente mais esclarecida, mas também pela luz filosófica que ele difunde em prol da nossa consciência nacional da liberdade, nem sempre tão jovem como desejamos.