A Depressão de 1929

A Depressão de 1929

©Por José Caldas da Costa

Introdução

Como diria Eric Hobsbawn(1), "até um marciano, eventualmente observando os movimentos na Terra, concluiria que a economia mundial se achava em expansão contínua" nos idos da década de 1920, no período entre as guerras. Mas o que estava por vir ao final daquela década e início da seguinte, o mundo jamais esqueceria. Pelo contrário, a qualquer sobressalto, mesmo 60 anos depois, sempre se lembrava - e ainda se lembra - do que aconteceu em 1929 nos Estados Unidos, com reflexos sobre todo o mundo: a quebra da Bolsa de Nova York, com reflexos sobre todo o mundo capitalista de então.

Se pudesse estar vivo para ver, Karl Marx rir-se-ia naquele momento. Afinal, preconizara que o Capitalismo esvair-se-ia em si mesmo e estava fadado a enfrentar colapsos como aquele. Tanto que somente a União Soviética, dominada pelo regime comunista a partir da Revolução Bolchevique de 1917, não sofreu os impactos da chamada Grande Depressão, pois estava rompida com o Capitalismo.

A despeito de tudo o que se pode dizer da privação de liberdade sob o regime de Stálin, pelo menos o povo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas podia se ufanar de uma coisa: enquanto o mundo se convulsionava na maior das crises do Capitalismo, por lá não havia desemprego e a economia crescia.

O burocratismo do estado soviético somente viria a destruir esse regime "dos sonhos" de Karl Marx e Engel e todos os ideólogos do comunismo - ou do socialismo, como preferem alguns - nas duas últimas décadas do século, lançando a semente da dissolução da União Soviética e atirando o país em uma crise tremenda.
A Internacional Comunista previra uma nova crise do Capitalismo em meio ao boom econômico, esperando que isso levasse a um novo lote de revoluções, mas jamais esperava os desdobramentos advindos do 29 de outubro de 1929 - a quebra da Bolsa de Nova York. Discutir as razões e conseqüências desse fenômeno chamado Grande Depressão de 1929 é a proposta deste trabalho.


Contraste da guerra

Para compreender o que aconteceu em 1929-33 no mundo capitalista é preciso voltar-se pelo menos uma década no tempo para buscar alguns de seus antecedentes históricos. Praticamente todos os autores que abordam esse período da história registra, como Leo Huberman, que o final da Primeira Guerra Mundial deixou as nações européias enfraquecidas, mas os Estados Unidos como um país forte.

"A América se tornara a maior força política e financeira do mundo capitalista. Havia se transformado de país devedor em país que emprestava dinheiro. Era agora uma nação credora. O capital em excesso foi empregado em oportunidades de investimentos em todos os recantos do globo, em países novos ou antigos".(2) Desde a Revolução Industrial, a história da economia mundial é marcada por acelerado progresso técnico, continuado crescimento e crescente "globalização", ou seja, uma divisão mundial cada vez mais elaborada e complexa do trabalho, mas a guerra havia provocado um terrível desequilíbrio econômico mundial, principalmente nas nações que nela se envolveram.

Os Estados Unidos ficaram de fora. Fizeram uma declaração de guerra à Alemanha quando o conflito já estava acabando, num gesto praticamente com o único objetivo de marcar posição e, depois, se aproveitar diplomática e economicamente do quadro desolador que a guerra deixaria. John Kenneth Galbraith corrobora com o que disse Huberman, que escrevera no calor do pós-depressão, em 1936, ao lembrar que os anos 20 "não foram uma época de bem-estar universal".(3) A inflação estava desenfreada na Alemanha, remanescente do antigo Império Austro-Húngaro, levando a democracia a ser vista como mãe da miséria, como havia já ocorrido na Itália, abrindo caminho para regimes ditatoriais como o fascismo e o nazismo.

Na Grã-Bretanha, a situação só começaria a melhorar a partir de 1920 e 21 e, depois, em 1925, quando o ministro da Fazenda, Winston Churchill, justificando sua política de restabelecer o padrão ouro, discursando à Câmara dos Comuns dizendo que daí em diante as nações da Comunidade Britânica e o mundo como um todo estariam unidos pelo padrão ouro e iriam "variar em conjunto, como navios no porto com os passadiços ligados, subindo e descendo junto com a maré".(4)

Havia um flagrante contraste entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, segundo Galbraith, o que é demonstrado pelo escritor e jornalista Huberman pela observação de que, em 1925, o Canadá, vizinho ao norte dos americanos e possessão britânica, tinha sob domínio dos Estados Unidos um terço de toda sua produção industrial e um terço de suas minas.

Enquanto havia 2 bilhões de dólares britânicos investidos no Canadá, havia 2,5 bilhões de dólares americanos. "Havia mais dinheiro americano que britânico em um domínio da Grã-Bretanha".(5) Cinco anos depois, esses investimentos foram orçados pelo Departamento de Comércio Interno e Externo em 3,9 bilhões de dólares.
E não era apenas no Canadá. Na Europa, havia 4,9 bilhões de dólares; no México e América Central, 1 bilhão; na América do Sul, 3 bilhões; nas Índias Ocidentais, 1,233 bilhão; na África, 118 milhões; na Ásia, 1,023 bilhão; e na Oceania, 419 milhões.


A prosperidade americana

Conforme registro de Huberman, os homens americanos de negócio começaram a localizar dentro de seu próprio país seus investimentos a partir do momento em que outros países do mundo revidaram as altas tarifas dos Estados Unidos com barreiras de tarifas igualmente altas ou até maiores. Desse modo, em 1929, por exemplo, a Companhia Woolworth tinha 130 lojas no Canadá, 350 na Grã-Bretanha, 35 na Alemanha e 8 em Cuba.

No mesmo ano, ressalta o mesmo autor, havia nos Estados Unidos um automóvel para cada cinco pessoas. Na Europa, porém, com exceção da Rússia, a média era de um carro para 83 pessoas. Os capitalistas americanos, então, viram nessa situação uma oportunidade para investir o excesso de capital, que não devia ficar parado simplesmente por causa de barreiras tarifárias. Os americanos passaram a não conhecer fronteiras, estavam em toda parte. A General Motors aliou-se à Adam Opel, que produzia quase a metade dos carros da Alemanha, e a Ford instalou várias fábricas em alguns países da Europa.

Para se ter uma idéia de quanto prosperavam os americanos, em 1900 calculava-se a riqueza dos Estados Unidos em 86 bilhões de dólares. Em 1929, esses números eram de 361 bilhões. De 1899 a 1927 as principais indústrias americanas lucraram entre 239% (a química) e 969% (transporte e equipamentos). Eric Hobsbawm registra que, em dezembro de 1928, o presidente norte-americano Calvin Coolidge, em mensagem enviada ao Congresso, ufanava-se do crescimento da economia de seu país, da distribuição da riqueza e do luxo em que vivia sua população. E fazia uma previsão extremamente otimista sobre o futuro:
"Nenhum Congresso dos Estados Unidos já reunido, ao examinar o estado da União, encontrou uma perspectiva mais agradável do que a de hoje (...). A grande riqueza criada por nossa empresa e indústria, e poupada por nossa economia, teve a mais ampla distribuição entre nosso povo, e corre como um rio a servir à caridade e aos negócios do mundo. As demandas da existência passaram do padrão da necessidade para a região do luxo. A produção que aumenta é consumida por uma crescente demanda interna e um comércio exterior e em expansão. O país pode encarar o peresente com satisfação e prever o futuro com otimismo".(6)

Mas não perderia por esperar nem mais um ano.

Como registra Galbraith,

"Havia a imagem de uma grande prosperidade, duradoura e merecida, anunciada de forma tão admirável pelo Presidente Coolidge. Sustentando-a estava a visão de um novo mundo de indústria e tecnologia, dominado pela fabricação de automóveis com suas ainda admiradas linhas de montagem e, especialmente, pelo novo mundo das comunicações radiofônicas (...). Acompanhando esse estado de ânimo, e por ele justificado, estava, como sempre, o poder auto-sustentado do boom especulativo. Assim como as terras na Flórida, os preços das ações em ascensão traziam novos compradores, que compravam e faziam subir ainda mais, confirmando assim, de forma bastante persuasiva, a sua decisão anterior de comprar. Essa tendência identificou-se sensivelmente no final dos anos 20 por obra de numerosos espertalhões que, tendo uma idéia geral do processo, uniam-se para elevar o preço de uma determinada ação e empenhavam-se em compras e vendas indiscriminadas para atrair a atenção para a mesma. Depois de atrair a participação e o dinheiro dos inocentes, dos cobiçosos e dos tolos, vendias as suas ações a um preço consideravelmente maior. Era a associação especulativa. Um perito nesse tipo de manobra, famoso por ter ele mesmo posteriormente divulgado a sua participação, era Joseph P. Kennedy, pai do futuro presidente, fundador e arrimo financeiro daquela que viria a ser a família mais celebrada da nação no século XX. Ao contrário dos outros, ele afastou-se em tempo e não foi, como era normal, uma vítima da sua presumida argúcia financeira".(7)

É preciso atentar, porém, para outro fator: desde 1920, os Estados Unidos da América vinha acumulando riqueza nas mãos de uns poucos. Cada vez mais os trabalhadores tinham salários mais aviltados, principalmente nas fazendas, enquanto aumentava acentuadamente o lucro dos fazendeiros. Isso, por si só, já criava uma ambiente de exaustão no capitalismo americano. Sem salários nas mãos do povo, cada vez havia menos quem consumir os extraordinários resultados da expansão industrial do país.

Enquanto isso, na Europa, os países estavam mais preocupados em se reconstruir, após a Primeira Guerra Mundial do que em consumidor. A Alemanha estava afundada em uma inflação terrível e tinha, ainda, que pagar os pesados tributos que lhe foram atribuídos pela Conferência de Paz de Versalhes, quando foi considerada culpada pela guerra e todos os seus estragos. Com o fim da guerra, na conferência de paz de Versalhes, em 1919, foi imposto à Alemanha um pesado tributo a título de reparações pela guerra cuja culpa lhe foi atribuída. Era impagável, dava 1,5 vez o PIB do País - US$ 33 bilhões.

Como os aliados deviam aos Estados Unidos, estes atrelam a dívida de reparação dos alemães a eles. Era um presente para o nacionalismo alemão. A França queria manter a Alemanha sempre fraca. De repente, o mundo inteiro devia aos Estados Unidos, que não se envolveram na guerra. A Grã-Bretanha devia 1/2 do PIB; a França, 2/3. Na prática, em 1932 a Alemanha deixou de pagar - só a Finlândia acabou de pagar suas dívidas de guerra com os Estados Unidos.

É novamente Hobsbawn quem nos chama a atenção para o fato de que a globalização dava sinais que parava de avançar. Nos primeiros 15 anos do Século XX, 15 milhões de pessoas migraram para os Estados Unidos; nos 15 anos seguintes, essa migração caiu para 5,5 milhões de pessoas; na década de 1930 até o fim da Segunda Guerra Mundial, menos de 750 mil migrantes entraram no país. Os ciclos econômicos de sete a 11 anos, a que se acostumara o homem do Século XIX, tinha seus dias contados. O economista russo N. D. Kondratiev discerniu, a partir de fins do Século XVIII, um padrão de desenvolvimento econômico com ciclos mais largos, de 50 a 60 anos. Foi, então, visto com ceticismo, mas tinha razão em sua conclusão de que a longa onda da economia mundial estava por acabar.

Aquilo que era aceito pelos homens de negócios da mesma forma que os fazendeiros aceitavam as mudanças de clima era definido pelos socialistas como ciclos que revelariam as contradições internas do Capitalismo, pondo em risco a existência do sistema econômico. Cria-se que a economia continuaria crescendo por mais de um século.

A quebra da Bolsa de Nova York

Chegou, enfim, o grande dia.

Até um marciano, eventualmente observando os movimentos na Terra, concluiria que a economia mundial se achava em expansão contínua, comenta Hobsbawn. Mas a realidade não era tão colorida assim. Em outubro de 1929, a Bolsa de Nova York quebrou. Se a Primeira Guerra Mundial atingiu diretamente somente a Europa, o Velho Mundo, o que se seguiu a ela varreu todo o mundo econômico - a Grande Depressão do entreguerras.
É a crise da superabundância, na avaliação de Huberman(8), justamente porque as mercadorias no capitalismo não são produzidas para consumo, "mas para se obter lucro". Citado pelo mesmo autor, John Hobson diz que

"Durante os períodos de prosperidade, as rendas do capital crescem muito mais do que os salários do trabalho. Os ricos ficam mais ricos - num ritmo incrível. Suas rendas aumentam. Não importa o quanto gastem consigo, cada vez lhes sobra mais. (...) Suas imensas somas de dinheiro são investidas na indústria e o resultado é um tremendo aumento no equipamento da produção de mercadorias - na capacidade produtiva. Isso é provocado pelo equipamento novo e melhor. As mercadorias desabam das fábricas sobre o mercado. Mas os trabalhadores não estão ganhando o bastante para que possam comprar essa produção aumentada. As mercadorias não são vendidas, empilham-se nos armazéns, os preços caem desastrosamente. A produção deixa de ser lucrativa. É, então, reduzida. O resultado é o desemprego, depressão e redução das rendas dos ricos. Cessa a superpoupança".

Voltemos a Eric Hobsbawn. Ele acentua que os preços e o boom desmoronaram em 1929 e, com eles, o poder dos trabalhadores, com a balança mais uma vez pendendo para o lado dos patrões. A economia dos países devastados pela guerra, como Alemanha e Rússia, tentou se salvar por meio do padrão-ouro, mas por pouco tempo. A inflação devastou a Alemanha, acabando com a poupança privada, criando um vácuo de capital ativo para empresas. A insatisfação das classes média e média baixa preparou o caminho para o fascismo.

Nos Estados Unidos, os produtores de produtos primários, principalmente os fazendeiros, ficaram loucos com a queda nos preços. O desemprego era de até 18% em alguns países da Europa, e 4% só nos Estados Unidos, economia a pleno vapor. A crise industrial americana, reduzida em um terço, pegou em cheio a Alemanha. Empresas americanas chegaram a perder 75% do seu faturamento. Produtos básicos despencaram: 2/3 no trigo e chá, 3/4 na seda. Quem dependia disso para sobreviver, se estourou: Argentina, Austrália, Bálcãns, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Egito, Equador, Finlândia, Hungria, Índia, Malásia, México, Índias holandesas (hoje, Indonésia), Nova Zelândia, Paraguai, peru, Uruguai, Venezuela. Era a Depressão globalizada.

A seda japonesa, que triplicou sua produção em 15 anos para atender às demandas dos Estados Unidos, ficou sem mercado; o arroz despencou para o Japão e Sul e Leste da Ásia. Os agricultores tentavam produzir mais para compensar a queda nos preços e pioravam a situação. A cultura da subsistência salvou a pele de quem tinha maioria camponesa: africanos, Sul e Leste asiáticos, latino-americanos.

O Brasil foi o símbolo da dependência do Capitalismo e da seriedade da Depressão: para evitar o colapso, os cafeicultores queimavam café em vez de carvão nas locomotivas - de 2/3 a 3/4 de todo o café do mundo era brasileiro. Apesar disso, houve pouco impacto da crise no Brasil, porque a expectativa econômicas das pessoas era pequena. Países coloniais camponeses sofreram. Na Costa do Ouro (Gana) o mercado do cacau entrou em queda livre, e caíram 98% das importações de gim. Quem não tinha como voltar para o campo ficou desempregado: 23% na Grã-Bretanha e Bélgica, 24% na Suécia, 27% nos Estados Unidos, 29% na Áustria, 31% na Noruega, 32% na Dinamarca e 44% na Alemanha. Nada foi tão catastrófico para os trabalhadores.

Mesmo superando a pior fase, pouco se reduziu o desemprego, exceto na Alemanha Nazista que o eliminou entre 1933 e 38. Não havia previdência pública e passou a ser esta uma das principais preocupações dos trabalhadores. Vai daí a cultura do emprego modesto, mas seguro.

A essas alturas nem os preços baixos adiantavam nada, porque não havia dinheiro para se comprar alimentos. Filas de Sopas e Marchas da Fome das comunidades industriais sem chaminés saíam para denunciar os que julgavam responsáveis por aquele quadro. Houve forte impacto político. Com o mercado mundial caindo 60% em quatro anos (1929-33), os Estados erguiam barreiras para proteger seus mercados e moedas nacionais, sabendo que desmantelavam o sistema mundial de comércio multilateral, sem o qual deviam repensar a prosperidade do mundo.

A Grande Depressão destruiu o liberalismo por meio século e os governos tiveram que privilegiar as políticas sociais ante as econômicas para tentar impedir radicalização de esquerda e de direita, como na Alemanha.
Nos Estados Unidos, os excedentes da produção eram comprados pelo governo ou se pagava agricultores para não produzirem. Os Estados Unidos lucraram com a Primeira Guerra Mundial assim como com a Segunda. Em 1913, já a maior economia do mundo, com 1/3 da produção industrial mundial. Em 1929, detinham 42% da produção mundial, enquanto a Alemanha, Grã-Bretanha e França com pouco menos que 28%. A guerra o transformou no maior credor do mundo, depois de no seu início estar como devedor.

Os ingleses perdem cerca de 1/4 de seus investimentos globais, principalmente os aplicados nos Estados Unidos, para comprar suprimentos de guerra; a França perdeu a metade dos investimentos. Concentrando os americanos suas operações na Europa e no Hemisfério Ocidental, sua crise econômica gerou grande impacto na Europa. Sem os Estados Unidos, não há explicação para a crise mundial. Importavam 40% da matéria-prima e alimentos dos 15 países mais comerciais, daí o impacto da Depressão sobre os produtores de trigo, algodão, açúcar, borracha, seda, cobre, estanho e café. Se suas importações caíram em 70% entre 1929 e 1932, suas exportações caíram da mesma forma. O comércio mundial cai quase 1/3 no período, mas as exportações americanas caíram pela metade.


John Keynes critica a Conferência de Versalhes defendendo que, sem a restauração da economia alemã, seria impossível restaurar a civilização e a economia européias. Quem queria manter a Alemanha franca, queria o pagamento em dinheiro vivo e não em bens de produção corrente para não permitir o crescimento alemão. A Alemanha teve que se endividar. Com quem? Estados Unidos. A Alemanha e toda a Europa ficaram sensíveis aos empréstimos americanos, e ao seu declínio, antes mesmo da quebra de Wall Street.

Mas há motivos econômicos para o colapso entreguerras:

1º - crescente desequilíbrio da economia internacional, assimetria de desenvolvimento entre os Estados Unidos e o resto do mundo; os Estados Unidos não precisavam do resto do mundo e não se preocuparam em agir como estabilizador global. Tinha que importar menos capital, trabalho e produtos do que nunca. Exportações davam sua contribuição ínfima à economia nacional. Mais tarde, são obrigados a aprender a lição, assumindo a responsabilidade de estabilizar a economia mundial após 1945.
2º - não-geração, pela economia mundial, de demanda suficiente para expansão duradoura. Já em 1929 as fundações da prosperidade eram fracas; salários ficaram para trás, os lucros crescem desproporcionalmente, concentrando renda.
Sem salário, não havia quem consumisse a produtividade do rápido crescimento industrial dos grandes dias de Henry Ford. Resultado: superprodução e especulação, provocando o colapso.
Uma lenta expansão da demanda foi fortalecida por meio de uma enorme expansão do crédito ao consumidor. Os bancos estavam sobrecarregados de dívidas não saldadas e recusavam novos empréstimos para habitação e refinanciamento para os existentes.

O sistema de pequenos bancos locais ou estaduais começou a quebrar nos Estados Unidos, quando em 1933 quase metade das hipotecas domésticas americanas ficaram em atraso e mil propriedades por dia eram executadas. De 6,5 milhões em empréstimos de curto e médio prazo, 1,4 milhão era de compradores de carros.
A economia era vulnerável porque, em vez dos bens tradicionais, como alimentos, roupas e coisas semelhantes, os americanos preferiam entrar na linha dos bens supérfluos da moderna sociedade de consumo que os Estados Unidos já iniciavam. Mas a compra de casa e carros podia ser adiada.

Entre 1929 e 1931, a produção de carros cai pela metade; os discos para os pobres param de ser produzidos; os novos produtos e estilo de vida exigiam níveis de renda elevados e em expansão, e alto grau de confiança no futuro, para difundir-se rapidamente. E isso estava desmoronando. A indústria automobilística jamais se recuperou do pico de 1929. O futuro do Capitalismo era de estagnação.

Mas um setor ganhou: o de diversão, depois chamado meios de comunicação. Cinemas se ergueram junto aos escombros de desempregos. Com ingresso barato, as pessoas dispunham de tempo para diversão e os maridos e esposas para ficar mais juntos. Rompida com o Capitalismo, a União Soviética passou imune à Grande Depressão, com industrialização ultra-rápida e maçiça com seus Planos Quiqüeniais. De 1929 a 1940, tripplicou a produção industrial; de 5% dos produtos manufaturados do mundo em 1929, subiu para 18% em 1938; enquanto o bloco Estados Unidos, Grã-Bretanha e França caía de 59% para 52%. E a União Soviética fazia isso sem desemprego.
Isso impressionava mais que o visível primitivismo e ineficiência da economia soviética ou a implacabilidade e brutalidade da coletivização e represssão em massa de Stálin.

Plano e Planejamento entrou em moda na política, principalmente nos países social-democratas. Até os nazistas copiaram a idéia com seu Plano Quadrienal. Mas um fator era fundamental na União Soviética, segundo Huberman, escrevendo em 1936: "Na União Soviética há produção para consumo; nos países capitalistas há produção visando lucro. Na União Soviética aboliu-se a propriedade privada dos meios de produção; nos países capitalistas, a propriedade privada dos meios de produção é sagrada. (...) Na União Soviética o planejamento é projetado por consumidores para consumidores; nos países capitalistas o planejamento é projetado por produtores para produtores.(...) Enfrentando o paradoxo da pobreza na abundância, os países capialistas esboçaram um plano de ação para atacar o problema. O plano de abolir a abundância".


Conseqüências políticas

Ficar-se pensando o mundo sem o período entre as duas grandes guerras é infrutífero, por tratar-se com o imponderável. Então, é melhor tratar com a realidade histórica: que esses fatos trouxeram à cena Roosevelt, nos Estados Unidos, e Hitler, na Alemanha, e provocaram a alternativa soviética à política capitalista mundial.
Houve vitórias de regimes nacionalistas, belicosos e agressivos em duas grandes nações - Japão (1931) e Alemanha (1933), abrindo as portas para a Segunda Guerra Mundial.

A direita radical se fortaleceu na Depressão pelos revezes da esquerda revolucionária. Em vez de deflagrar revoluções sociais, como previra a Internacional Comunista, o movimento comunista fora da União Soviética entrou na fraqueza sem precedentes. O Comintern subestimou o perigo do nacional-socialismo na Alemanha e elegeu o trabalhismo de massa organizada o seu maior inimigo nos partidos trabalhistas e social-democratas.
Hitler liqüidou os planos comunistas ao destruir o PC alemão. O resultado da Depressão na Europa foi o oposto do que previra a Internacional Socialista. Mussolini ascendeu na Itáilia, Hitler fez despencar o Partido Social-Democrata na Alemanha, e na Áustria a social-democracia caiu após haver resistência armada. Na Inglaterra, o trabalhismo era nocauteado. Na América Latina, 12 países mudam o governo, 10 deles por golpes militares.

No Norte da América, esquerdização, enquanto Roosevelt tentava um New Deal mais radical (33-45), o México retoma as bases da Revolução Mexicana. Na América Latina, reações diferentes. A argentina moveu-se para a direita tradicionalista, o Chile para a esquerda, com momentânea República Socialista em 1932 sob o coronel Marmaduke Grove e, depois, com a Frente Popular baseada no modelo europeu.

No Brasil, a Depressão acabou com a oligárquica República Velha e levou ao poder Getúlio Vargas, populista-nacionalista, que dominou a história por 20 anos. No Peru, mais à esquerda, como a Colômbia. Mas nada comparado a Cuba, protetorado que derrubou um governante odiado e corrupto. Houve reações antimperialista nas colônias pelo colapso nos preços de seus produtos, enquanto as metrópolis protegiam inconseqüentemente seus mercados. Crises de exportação de cacau e açúcar. Expandiu-se a Irmandade Muçulmana no Egito (1928) e a segura mobilização das massas indianas por Gandhi (1931). Houve reflexos também na vitória republicana na Irlanda.

A Grande Depressão foi uma catástrofe que destruiu toda a esperança de restaurar a economia e a sociedade do longo século XIX. O velho liberalismo de 1913 estava morto ou parecia condenado. Três opções competi

am pela hegemonia intelectual-política: comunismo marxista, com a União Soviética imune à catástrofe; capitalismo privado de sua crença na otimização de livres mercados, e reformado com ligação não oficial a pessoas trabalhistas não-comunistas; após a Segunda Guerra Mundial, a opção mais efetiva: que a Depressão jamais voltasse a acontecer.
Os governos passam a ver as economias nacionais como um todo e a avaliar o tamanho de seu produto ou rendas totais.

A terceira opção era o fascismo, que a Depressão transformou num movimento mundial, ou antes, num perigo mundial. E resolveu o problema da Grande Depressão mais rapidamente. A medida que crescia a maré do fascismo com a Grande Depressão, era claro que na Era da Catástrofe não apenas a paz, a estabilidade social e a economia, como também as instituições políticas e os valores intelectuais da sociedade liberal burguesa do século XIX entraram em decadência ou colapso.

Conseqüências para o Brasil

Como Hobsbawn já mencionou, o impacto da Depressão não foi tão grande sobre o Brasil por conta de sua economia por conta da então pequena expectativa financeira das pessoas. Mas o impacto maior pode ser sentido sobre o setor primário da agroexportação, principalmente do café, que, como ele mesmo salienta, passou a ser queimado nas locomotivas em lugar de carvão, mas reduzir a oferta e forçar um aumento de preço.
Registra Álvaro José Silva que "o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, fez despencar o preço internacional do café que, em 1930, caiu para pouco mais da metade de seu valor dois anos antes. Em 1931, desceu para cerca de 40 por cento, permanecendo nesses níveis durante muito anos. Só em 1947 é que os preços voltariam aos níveis de 19 anos atrás".(9)

O mesmo nos diz Celso Furtado: "Dependendo, assim, fundamentalmente da estrutura da oferta, o preço do café atravessou o decênio dos anos 30 totalmente indiferente à recuperação que, a partir de 1934, se operava nos países industrializados".(10)

CONCLUSÃO

O mundo nunca mais foi o mesmo depois da Grande Depressão de 1929, que durou até 1933. O presidente Roosevelt lançou o seu "New Deal", que pretendia fazer uma revolução baseada em três "R": Relief, Recovery e Reform. Isto é, a base de seu programa era o auxílio, só não dizendo a quem, o que ficaria revelado mais tarde: às ferrovias, bancos e companhias de seguros em má situação. Afinal, como dizia, "fornecer auxílio aos pobres era destruir a fibra moral, o espírito de autoconfiança, o respeito por si próprio". Que bela moral! Mas não teve jeito.

Após a guerra, a política da eliminação do desemprego em massa, para sustentar a economia capitalista e os regimes democráticos, foi defendida ardorosamente principalmente por John Maynard Keynes. A renda dos trabalhadores com pleno emprego é que estimula as economias em recessão. O desemprego em massa era política e socialmente explosivo, e surpreendeu os observadores que a séria depressão dos anos da década de 1980 não tenha resultado em agitações sociais.

Isso não ocorreu devido a modernos sistemas previdenciários, criados após as lições da primeira metade do século. Os próprios Estados Unidos aprenderam a dura lição e, depois de lutarem e ajudarem a promover a destruição durante a Segunda Guerra Mundial, que acabou sendo resultado da Primeira, ajudaram a reconstruir os mercados que haveriam de consumir seus produtores, tornando-os no que são hoje: a maior potência econômica e política do mundo.


Referências:
(1) HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos - O breve século XX (1914-1991). Cia das Letras, São Paulo, 2ª edição, p. 92.
(2) HUBERMAN, Leo. História da riqueza dos Estados Unidos (Nós, o povo). Brasiliense, São Paulo, 4ª edição, 1987, p. 230.
(3) GALBRAITH, John Kenneth. Uma viagem pelo tempo econômico. Pioneira, São Paulo, 1ª edição, 1994, p. 39.
(4) GALBRAITH, Johon Kenneth. Id, p. 40.
(5) HUBERMAN, Leo. Id, p. 230.
(6) HOBSBAWN, Eric. id, p. 90.
(7) GALBRAITH, Johon Kenneth. Ibid, p. 48.
(8) HUBERMAN, Leo. A história da riqueza do homem. Guanabara, Rio, 21ª edição, 1986, p. 258.
(9) SILVA, Álvaro José. Café - uma paixão nacional. Papel&Virtual, Rio, 1ª edição, 2000, p. 13.
(10) FURTADO, Celso. A formação econômica do Brasil. Cia Editora Nacional, São Paulo, 27ª edição, 1998, p. 189.

Volta à página principal