Resenha: Deus não está Morto

ERA UMA VEZ... O SÉCULO XX!

Zakeu A. Zengo*

A VELHA CONTAGEM REGRESSIVA CHEGOU AO FIM. A HUMANIDADE FINALMENTE ADENTROU UM NOVO MILÉNIO NA ERA CRISTÃ. OS PRIMEIROS MIL ANOS RECENTEMENTE TERMINADOS FIZERAM DE NÓS, SERES HUMANOS, MESTRES DO NOSSO PLANETA. TUDO INDICA QUE, A JULGAR PELO DESENROLAR DAS CONQUISTAS CIENTÍFICAS, O PRÓXIMO MILÊNIO FARÁ DE NÓS MESTRES DO NOSSO DESTINO. A CIÊNCIA NOS TORNOU CAPAZES DE INTERFERIR E MODOFICAR A NATUREZA EM FAVOR DOS NOSSOS INTERESSES. ONTEM DESCOBRIMOS A EVOLUÇÃO; AMANHÃ REDESENHAREMOS A HUMANIDADE. MAS, QUANTO CUSTARÁ TUDO ISSO PARA A HUMANIDADE?

Vivemos de estórias. Do nascimento à morte falamos de quem nós somos e do que gostaríamos de ser. Recontamos as estórias públicas sobre a nossa história e política, sobre nosso país, nossa raça e nossa religião. A cada momento da nossa vida essas estórias nos colocam no tempo e no espaço. Elas nos consolam, dando sentido as nossas vidas ao nos colocar em algo maior do que nós mesmos. Talvez apenas a estória de que estamos apaixonados, de que temos de alimentar nosso bicho de estimação ou educar nossas crianças. Ou talvez mesmo sobre uma longa luta para salvação ou libertação. Qualquer que seja ela - não importa o quão longa ou curta - nela a nossa humanidade se mostra como um impulso que funciona no sentido de trazer sentido a cada momento da nossa existência, por meio de sua referencia à uma narrativa maior do que a própria existência. Precisamos viver num mundo não feito por nós.

Mesmo assim, chegados ao final do século XX, a prática de contar estórias sobre nós próprios se tornou algo raro, praticamente impossível para muitos de nós. As formalidades narrativas da vida, comuns e vitais no passado ainda recente, já não fazem mais sentido. Sentar à volta da lareira com os filhos ou netos (não importa se essa lareira é a mesa de jantar da nossa casa ou a cama de dormir) tornou-se hoje uma prática no mínimo sem lugar na estrutura estórica da manutenção da identidade e do orgulho familiar. Quem somos, de onde viemos, como chegamos onde estamos, nossas lutas e conquistas, nossos sonhos e nossas glórias, tornaram-se assuntos tão irreiais quanto ultrapassados. A fé e a religião se tornaram notas dissonantes na harmonia da vida; a sua verdade literal (outrora sagrada, inegável e indispensável para a vida com valores) foi tornada mais ainda improvável pelas incursões do quotidiano em que os cientistas operam suas complicadas operações racionais. A família está em perigo, à beira do colapso: as pessoas parecem encontrar sua identidade mais na rejeição das relações familiares convencionais do que na sua afirmação e sustentação. Emprego se tornou imprevisível, inseguro. Até mesmo a criatividade individual ou o próprio desenvolvimento são postos em questão pela derrocada da velha estética ou dos antigos padrões de ética e moral. Ontem valia o moderno. Hoje o que vale é o pós-moderno. Em 1999 era inteiramente impossível imaginar a estória de alguém chegar ao convés do "era uma vez...". Mais difícil ainda é oferecer lealdade à um mundo como este em que vivemos, um mundo feito apenas com o nosso egoísmo e solipsismo. O que foi que aconteceu? A resposta, curta e grossa, parece esta: século XX. A resposta algo mais longa é: o segundo milênio da era cristã.

O século XX causou dois deslocamentos importantes à espécie humana: nos tonou, ao mesmo tempo, mais solitários e mais poderosos do que nunca fomos antes em toda a história. Estamos solitários por causa dos insights da ciência, notadamente de Isaac Newton e Galileu Galilei, que (remando contra todas as crenças antigas da humanidade, remando contra a crença na criação divina) nos convenceram, primeiro, que a universo não necessitava da gente, que seus mecanismos fundamentavam-se no acaso e, segundo, que nossas vidas eram emanações que, pelo capricho da chance, foram produzidos por um calderão de genes globais que por sua vez foram produto de um acidente molecular no brejo primitivo de uma terra que andava em processo de congelamento. A ciência nos contou que não éramos, assim como a igreja um dia informou, a coroa, a espécie especial do sistema cósmico; éramos, ao invés, um produto acidental e passageiro da sua lógica. Poderíamos nunca ter existido e o universo não seria diferente do que é.

Os estudos competentes atribuem hoje ao sentimento de solidão as causas da misantropia que graça no mundo. Misantropia é o sentimento de ódio à vida humana que tomou conta do planeta hoje em toda a parte. A violência urbana, os campos de batalha das guerras declaradas e não declaradas, o descaso dos governos para os submetidos às pestes fatais, à miséria e à fome; o instinto assassino dos esquadrões de morte em nome do poder e do lucro, o ódio sangrento das fações religiosas. Entre os motivos que 2000 pessoas encontram para suicidar-se em países como a Suécia, os estudos põem em primeiro lugar a solidão.

Habitado hoje por mais de 6 bilhões de habitantes, além de uma taxa de fertilidade calculada em 3,8 filhos por mulher, o mundo desta troca de milênios é, apesar disso, um palco de isolamento humano irremediavelmente desestruturador. Institui o individualismo esmagador dos valores vitais que, para existirem, dependem das estórias antigas à volta da lareira.

Mas, ao mesmo tempo, nos tornamos deuses. A ciência, depois de muito humilhar as nossas crenças e imaginações, deu-nos poderes inimagináveis. No século XX fabricamos engenhocas atômicas que nos permitiram brincar de Armagedon; grampeamos o planeta com um montão de satélites e demos início a um programa perigoso de fuçar na química da vida. Qualquer coisa, boa ou má, torna-se possível hoje graças a avançadíssima engenharia sobre a genética da vida. Nos lançamos depois na aventura de humilhar o cosmos pela apropriação dos seus mecanismos, adaptando-os aos nossos próprios interesses.

Esta histórica combinação de solidão e poder é complexo, espantoso e potencialmente letal. Sentimos que podemos fazer qualquer coisa, e mesmo assim estamos tão confusos ao ponto da paralisia imaginativa sobre o que deveríamos fazer e porque deveríamos fazer isso. Não temos diretriz, um guia; não temos um único nome, causa ou entidade que devêssemos ou podessemos respeitar, honrar ou submeter-se. O filósofo Roger Scruton nos ensina que "numa era tecnológica como esta de hoje as pessoas tendem a adquirir um crescente apego aos meios que conduzem aos alvos, e um decrescente apego às razões porque deveríamos perseguir esses alvos".

É verdade que, confrontados com esse vazio de sentido, muitas novas causas foram advogadas. A maioria delas fracassaram, e todas as demais cedo ou tarde fracassarão. O marxismo prometeu a revolução que nos conduziria ao desapego universal de todas as raízes materiais e espirituais ao cujo fetiche a humanidade alienou sua existência através das forças da história. O nazismo ofereceu à humanidade a purificação transcendente da biologia das espécies. A ecologia ofereceu a reunião com a natureza. O humanismo ofereceu uma irmandade atéia de boas intenções. O liberalismo prometeu a co-existência pacífica de todas as forças, todos os absolutos em competição. O livre mercado nos ofereceu a submissão às exigências abstratas do comércio, do capital e do consumo e, mais recentemente, a teoria da evolução e a genética profetizaram o céu na terra, em que uma compreensão da nossa herança genética nos unificará numa atitude de certeza permanente sobre o que nós verdadeiramente, cientificamente, somos.

O problema com tudo isso é que eles oferecem muito pouco ou demasiadamente demais, ou então eles são demasiadamente exigentes para a vida humana normal. O mercado livre ofereceu muito pouco porque ele não conseguiu alcançar, explicar a insolente, a subversiva e irreprimível solicitude da humanidade por um sentido e por uma felicidade que ultrapassam inexoravelmente os meros limites da riqueza material. A teoria da evolução ofereceu demasiado sentido: ela nos aprisiona, nos apequena ao limitar os termos da nossa realização e felicidade à mera biologia. E as utopias tanto do comunismo quanto do fascismo exigiram de nós uma fé tão grande que jamais poderia brotar dos rios de sangue que elas produziaram.

Por isso, depois de segunda guerra mundial, com a derrocada do nazismo e com a exposição mundial das iniquidade do "comunismo soviético" stalinista, a mensagem de que não havia nelas um "evangelho" digno de fé começou a se trancafiar na consciência popular. Os regimes políticos absolutos fracassaram. No ocidente tanto a autoridade de uma única Igreja que também se queria absoluta, quanto do estado autoritário, estavam amuando. E enquanto estávamos nas últimas décadas de um milênio terrível mas também glorioso, certa paz mundial, à duras penas conquistada, foi chegado; mas esta se mostrou completamente vazia. Nada havia sobrado no mundo moderno que fosse digno de ser vivido ou de se lutar por ele.

Os anti-heróis de hoje acreditam que não restou mais causas nobres e dignas para o século XXI. O personagem de Marlon Brando, Wild One, perguntado um dia sobre o objeto de sua rebelião, respondeu o inquisidor com outra pergunta: "O que você ainda tem?". Os heróis do filósofo e grande novelista Jean Paul-Sartre encontram a liberdade apenas na autodeterminação e na morte. Os aficionados pela gloriosa poesia de uma das mais célebres inteligências femininas do nosso século, Sylvia Plath, tiveram a desventura de saber que seu último ato poético foi o próprio suicídio. Entre as pessoas que se orgulham de ter chegado à existência autêntica, honesta e sem máscaras, impera a identidade niilista fruto da incredulidade instaurada pela completa derrocada de todos os valores, pelos quais ainda valeria a pena a existência humana.

Do mesmo modo que a riqueza do mundo desenvolvido cresceu imponencialmente, do mesmo modo que a pobreza e miséria dos países pobres cresceu prodigiosamente, cresceu também a descrença e o ceticismo. Em meu ensaio religioso publicado sob o título Deus não está Morto: Desafio para um Cristianismo Autêntico discuti uma constatação no mínimo curiosa, que em tese consiste nisso: o século XXI será inegavelmente o século de Deus. As evidências simplórias são este "renascimento" da fé religiosa que ali chamei de "a saga de Deus" ou a "revanche de Deus". Quando todos os nossos castelos ruíram, quando nada mais restou sob o nosso chão e nosso céu, quando nada mais há para acreditar e confiar, a angústia da humanidade chegou ao extremo do insuportável a ponto de todas as máscaras do nosso orgulho começarem a despencar. "Só Deus pode dar um jeito" é o grito generalizado que ecoa desde os mais recônditos mundos da nossa alma verdadeiramente autêntica. O retorno das fés, a volta das religiões, são visivelmente o antídoto com o qual buscamos debelar nossas desilusões humanas, os fracassos da nossa "era científica" em que conceder à nossa existência o paraíso e a felicidade "perdidas". E neste compasso voltam as religiões então sepultadas das velhas civilizações européias (os druidas, os britões, os germânicos...), crescem e se engrandecem as milenares crenças orientais, brilham as crendices medievais dos duendes, gnomos, anjos e arcanjos, se alastram os cânones da astrologia, da quiromancia e do aruspicismo, volta a sedução então empalidecida das crenças milenares dos nativos africanos e americanos. Como conciliar tudo isso com a afirmação do retorno da incredulidade?

Simplesmente nisso: não cremos em religiões, cremos em forças espirituais de sustentação. Nossa religiosidade hoje é uma busca pela felicidade e realização existencial, contra a cultura do sofrimento aviltante a que o mundo foi fechado por nós próprios. Ulteriormente estamos em busca de algo além do humano, porque não há nada mais humano em que se agarrar. A própria figura de Deus, que sempre só foi inteligível para a humanidade se "feito à nossa imagem e semelhança" (ele tem mãos, ouvidos, olhos, etc.), não cabe mais neste contexto de busca afetivo-religiosa. Nossa fé cristã, com todos os seus avivamentos aparentes, com toda a euforia representada pelos movimentos da renovação espiritual e do neopentecostalismo, pode muito bem estar correndo atrás de um Deus que pode ouvir e não pode agir em favor de nossa "cultura da auto-destruição humana". Simplesmente porque esse Deus não existe. Nossos aparentes milagres, nossas "obras espirituais" maravilhosas, podem não passar de um maravilhoso reflexo da psiqué humana que está às voltas com o seu mais profundo super-id. O único desafio válido hoje para qualquer fé religiosa que acredita em Deus é inegavelmente a busca pelo Deus verdadeiro, autêntico. Do contrário, nosso ato religioso é um ato de "má fé".

O século XX usou muito mal um de seus mais promissores períodos do espírito humano. A segunda metade desse século foi reluzente, graças as incongruências da primeira metade. As duas grandes guerras mundiais nos legaram não só o progresso científico, mas também o indomável desejo de usá-lo em favor do sonho da vida no mundo. Os horrores da guerra inspiraram o desafio do "bem-estar" e os movimentos rebeldes da juventude dos anos sessenta buscavam corrigir o "curso desviado" pelos governantes mundiais. Estes permitiram que a vida e a humanidade fosse trancafiada nos jogos perigosos da guerra fria, pelos quais celebramos destrutivamente o fim de todas as estórias consoladoras. A filosofia de Jean Paul-Sartre insistiu que o ato de transformar nossas vidas em estória se transformara num ato de "má fé". Não havia nada a ser feito ou dito além do ato individual e solitário da auto-criação. Cada indivíduo tinha de criar-se a si mesmo, apoderar-se de sua liberdade de ser para poder existir conforme a felicidade em que ainda acredita.

Mesmo assim, tudo o que fizemos foi nos auto-criamos nas margens de uma luxúria sem precedentes. As famílias agora tinham o carro por meio de transporte, algo que um século antes estava além dos sonhos de reis e papas. A televisão despejava o sonho de vidas alternativas em nossos lares. Para a maior parte das pessoas no ocidente e, de maneira crescente, no distante oriente, a necessidade de sobrevivência poderia ser compensada nos supermercados e nos hospitais. Mas a mera necessidade de sobrevivência não tinha mais como nos dar uma estória. Ela se transformara em mero consumo. Tudo o que restou a ser feito era luxuriar-se em nosso próprio niilismo. Ou então poderíamos, como Stanley Kubrick advertira no seu filme "Dr. Strangelove", aprender a parar de preocupar-se e amar a bomba.

Mas a necessidade humana pela narrativa, pela estória, era irreprimível. As pessoas ainda tinham de explicar-se a si mesmas. Novas estórias passaram a ser criadas. O tom delas lembra as estórias antigas "a beira da lareira". Havia a estória da juventude que chegou à maturidade para se tornar a estória privada. A cultura jovem que nascera nos anos cinqüenta e chegou à maturidade nos anos sessenta era um mito consolador de dissidência, liberdade, auto-imagem e, ulteriormente, de submeter todas as injunções morais à autoridade do próprio eu. "Se te parece bom", diziam, "faça".

Nesses anos, rumar para os matagais da carnificina no Vietnã não parecia bom. Por isso, por meio da resistência contra a guerra do Vietnã criou-se uma nova ideologia jovem. A resistência levou à solidariedade, mas era uma resistência de pequenos egos. Os jovens se reuniam para resistir contra a guerra dos adultos e, em troca, viver para a satisfação de seus próprios prazeres e impulsos. "Sexo, drogas e Rock in roll" se tornaram os instrumentos para escapar da existência sem sentido do consumismo burguês. A guerra do Vietnã simbolizava a brutal pobreza da existência burguesa. Ela ofereceu a moldura na qual a juventude pintou o seu próprio retrato.

Mas a guerra, é verdade, terminara. A juventude crescera, se tornara adulta, formaram famílias e procuraram empregos. E o mito moral da sua apequenada solidariedade sobreviveu à transição para a maturidade. Tanto nos governos quanto nas grandes corporações do capital, a geração dos anos sessenta chegou ao poder, trazendo com eles seus mitos. A ortodoxia moral prevalecente no mundo desenvolvido é hoje aquela da juventude dos anos sessenta - a crença em nada (niilismo, ceticismo) exceto a minha própria liberdade.

A nova "ortodoxia existencial" é, além de estranha, extremamente pobre. O filósofo americano Cristopher Lasch ensina que o novo conceito da "autonomia" se tornou, em sua pretensão, em algo mínimo do que expansivo. Observa que nossa preocupação com o "eu", que parece caraterizar nosso tempo, tem a forma de uma preocupação com uma sobrevivência meramente psíquica. De fato; a resistência contra o Vietnã, em particular, e contra o capitalismo, em geral, foi a maior validação da cultura do "eu". Mesmo assim a guerra terminou com a derrota da ortodoxia americana anti-comunista. E, em 1989, com a destruição do mar do murro de Berlim, a política acabou com o triunfo do capitalismo. Agora não restava mais nenhuma via política que levasse à um mundo melhor. Apenas as manobras do mercado e da democracia liberal era tudo o que restava ao nosso sonho por um paraíso humano. Ainda de acordo com Lasch, a esperança por uma política remediadora declinou vertiginosamente. A esperança de que a ação política deverá humanizar a sociedade industrial deu caminho à uma estranha determinação de sobreviver dos escombros e ruínas, ou, mais modestamente, de sustentar a própria existência em face de uma brutal montanha de pressões nas sociedades modernas.

*Zakeu é formado em Teologia e Letras Clássicas, mestre em Filosofia e Doutorando em Antropologia. Professor de História Eclesiástica, História da Teologia, Filosofia da Educação e Antropologia Cultural, é autor do livro Deus não Está Morto: Desafio para um Cristianismo Autêntico (Editora Criação: 1998).

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