O CRISTIANISMO AFRICANO E SUAS

O CRISTIANISMO AFRICANO E SUAS REPERCUSSÕES TEOLÓGICAS CONTEMPORÂNEAS

©Zakeu A. Zengo

Assim como acontece atualmente com a maior parte das nações do planeta, as sociedades africanas finalmente começaram também a perceber sua necessidade de ajustamento aos desafios da globalização.  Esta ousada aventura em que se lança a grande maioria dos estados africanos, em condições de real desvantagem em relação aos seus concorrentes do resto do planeta, está gerando uma situação de crescente mudança nos valores e nas crenças internas que está dando emprego certo aos intelectuais africanos e africanistas. O processo é de tal ordem que qualquer tentativa simplória de interpreta-lo à luz de esquemas consagrados pela academia tradicional, relativamente a esse continente, levaria sem dúvida alguma a sérios equívocos.

Uma das caraterísticas da teologia africana hoje é exatamente sua relação dialógica estreita com essa nova realidade. Seu compromisso com os fundamentos do cristianismo bíblico à luz da super e infra estruturas da cultura tradicional e da realidade dinâmica da África de hoje. A teologia africana deixa de ser, aos poucos, eminentemente e talvez unicamente bíblica para tornar-se, também, tributária do mundo e da vida dos africanos em sua história concreta. Isto é, torna-se também uma teologia dos homens africanos, enquanto africanos, sobre a fonte e fundamento da vida: Deus. Ela saltou nestas últimas décadas do ostracismo, da posição de periferia em que se encontrava, ou em que era colocada, para o topo do atual debate teológico em curso no mundo cristão.

Se pois quisermos questionar o status teológico do cristianismo vivido na África desta virada de milênio, teremos de fazê-lo levando-se em conta não só o passado  ou o presente dessa teologia, mas sobretudo identificar as implicações históricas da formação do pensamento africano e as modalidades ideológico-políticas em que esse processo vem se dando. Nos termos deste entendimento, o presente artigo, que é parte de um trabalho mais amplo realizado pelo autor, se propõe em considerar a vasta gama de atitudes epistemológicas e paradigmáticas que estão na raiz da reflexão da grande parte dos teólogos e estudiosos em geral que dedicam seu tempo ao tema do cristianismo africano.
A utilização da expressão “cristianismo africano” aqui não é de modo nenhum acidental. Pelo contrário, faz jús à natureza incarnacional da fé cristã que faz com que, para ser autêntica, sua mensagem leve à supressão da diferença qualitativa, no plano da existência real,  entre o “ser do povo” (wolkgeist) que o recebe e “realidade da fé” (qüididade) dessa mensagem recebida. Apenas quando este fenômeno se efetiva concretamente na vida de um povo, de uma comunidade ou do indivíduo isolado é que efetivamente acontece a autêntica conversão.

 

1.1- A cristianização da África e a origem da teologia autóctone.

 
Sem contestações de ordem política ou religiosa, um antigo consenso admite que a evangelização moderna da África se deu como uma forma de conquista político-econômica, além de cultural e religiosa do velho continente pelas nações da cristandade ocidental. Ou seja, ela resulta do processo de colonização que o continente sofreu por mais de cinco séculos e cujos efeitos ainda sofre até hoje [1] . O processo de implantação do cristianismo na África, não obstante seu sentido de universalidade que é central na teologia da missão foi, durante séculos, repleto de conotações e motivações colonialistas.
As igrejas africanas eram definidas e identificadas segundo sua capacidade ou incapacidade de subordinação e sujeição de seus membros nativos aos padrões culturais dos missionários. Os missionários, enquanto membros da classe dominante e originários das nações conquistadoras, outorgavam a si o direto de serem os legítimos representantes, a um só tempo, do cristianismo e da civilização [2] . Perante os conquistados, arrogavam a si a pretensão da eleição divina e se orgulhavam de ser o ‘verdadeiro” povo escolhido, em busca da sua “prometida” glória na conquista cultural, política, geográfica e religiosa dos povos pagãos.
O objetivo desse “grande” comissionamento supunha um duplo propósito: o de criar povos subalternos e dependentes, de um lado, e redimir as almas dos conquistados da própria cultura vista no seu todo como  vil paganismo conducente à danação eterna. Desse modo, chegou-se ao estabelecimento da relação senhor-escravo apropriada aos seus interesses de civilização cristã superior.
Esta observação histórica já foi cabalmente documentada e dispensa qualquer ceticismo. Antes pelo contrário. O caráter anacrônico e permanente dos problemas resultantes do processo da colonização, hoje cabalmente diagnosticados e identificados na difícil realidade africana, veta aos críticos realistas qualquer concessão ou parcialidade de ordem política, religiosa ou econômica. Isto quer dizer que os estudiosos da Igreja africana estão certos quando classificam a “agência missionária” da moderna evangelização do continente como serva dependente desse processo e a igreja dela resultada como produto ideológico dele, e não como “expressão historicamente contextualizada” da verdadeira fé cristã, como pretendem os minimalistas.
Com efeito, observa o sociólogo da religião Canon Riches num famoso artigo de 1973 que a Igreja através da qual o cristianismo chegou a África foi colonialista teórica e praticamente, e que a mesma não teve ouvidos para escutar o legado cultural africano que, se recebido, a teria enriquecido muito mais.
 
Christianity came to Africa far more frequently as a coloniser than as servant, and even when it came as a servant, it was a servant with preconceived notions about what services it ought to render and what persons it ought to serve. The servant felt superior to the one to be served, and therefore deemed itself to have nothing to receive. It had not intention of listening. [3]
 
A mesma constatação é feita pelo teólogo africano Engelbert Mveng, que a especifica e amplia de maneira mais objetiva e abrangente:
 
A África emergia da escravidão para ser submetida ao colonialismo. A famosa Conferencia de Berlim de 1884-85 havia decidido repartir a África em cerca de trinta territórios, ou grupos de territórios, para sua exploração e administração pelos poderosos estrangeiros. Os representantes dos estados europeus e americanos, convidados por Bismark a se reunir em Berlim, haviam simplesmente taxado os negros de pequenos infantes necessitando da tutela dos brancos. O pacto colonial, finalmente, e o "indigenato", ou proteção dos nativos, estabelecido na África em nome dos diretos humanos, despia nosso povo de qualquer direto ou dignidade… Foi no deserto dessa desolação dos nossos antepassados que a voz missionária ecoou. Mas em todo o lado o missionário era apenas um aliado do colonizador, e muitas vezes o aliado que até mesmo os primeiros temiam. [4]
 
Estas constatações evidenciam como as conseqüências históricas desse processo de reimplantação do cristianismo na África são de uma diversidade complexa e dolorosa para a atualidade dessa fé no continente. A resistência subsequente que esse processo provocou na consciência e espírito dos povos africanos cristianizados aparece como uma das conseqüências de maior destaque.
Com efeito, os cristãos nativos sentiram-se livres e no direto de enfatizar que a evangelização dos seus antepassados se deu não segundo o "modus cristianus", mas em pacto estreito com a colonização. Isto porque os missionários tiveram como escapar das ambigüidades da situação histórica à qual pertenciam. A igreja missionária, através de seus representantes no campo deu a impressão, tanto na prática quanto nas ações diárias, de ter arquitetado um trato de mútua cooperação inaceitável com os mecanismos de superioridade política e racial pressuposta pela política colonizadora.
Até hoje a maior parte dos estados africanos mantêm como noção central à educação acadêmica ministrada as suas gentes a convicção de que, de fato, o cristianismo foi a mais perigosa arma a disposição dos imperialistas colonos e que determinou o êxito dos processos de escravidão e colonização aos quais o continente foi submetido por longos séculos. O cristianismo teria sido utilizado com sucesso para quebrar a resistência contra a pilhagem e a escravidão adotada pelos nativos, e provocar a aceitação passiva e pacífica da exploração econômica e dominação política que se lhes impôs sem piedade.
Esta constatações fez com que nos difíceis anos da emancipação e independência a grande maioria das lideranças políticas emergentes dos estados africanos optasse por lançar mão da opção socialista/comunista, cuja ideologia se revelava solidária ao clamor anti-colonialista e anti-imperialista dos africanos e, por conseqüência, contra o cristianismo entendido como instrumento de dominação.
O cristianismo praticado pela “missão” à serviço do imperialismo não legou aos africanos senão razões para colocar em dúvida a sua legitimidade, bem como a validade do seu legado para gerações da África pós-colonial. O instinto de libertação que se impôs sobre os oprimidos tornou inevitável, portanto, a percepção desse legado como um momento a ser superado, uma imposição conflitante com os valores e as determinações vitais dos africanos. Por essa razão, nada restava a teologia dos oprimidos senão  promover a supressão desse legado do espírito e do coração africano. Nos planos teológico e político aceitou-se que tal processo de libertação das “cordas da opressão” colonial, representada pelo fundamentalismo e conservadorismo a-crítico, deve ser efetivada através de mecanismos tão mais fortes quanto a própria política e a teologia imperialista. Isto fez com que ao ideal político revolucionário dos políticos nativos se juntava o ideal do revisionismo cristão dos teólogos.
Desde então uma pesada e dolorosa ambigüidade tem prevalecido, principalmente porque os africanos descobriram que tal luta de libertação não contava com o apoio dos seus colegas do ocidente. Até hoje ainda não se fez sentir tentativas sérias e práticas na igreja missionária para minimizar teologicamente as conseqüências desse problema que levou a esse conflito de identidade cristã nas igrejas africanas. Assim como Hans Kung exprimiu sua preocupação com o futuro do cristianismo ao reconhecer que a Igreja de Jesus Cristo ainda permanece um negócio europeu e americano, sem culpa de natureza nenhuma pelos “erros” que cometeu em sua conquista religiosa [5] , os teólogos africanos reconhecem com decepção a falta de iniciativa prática na igreja missionária de hoje, pelo menos em parte, no sentido de minimizar as conseqüências do legado missionário moderno. E isto tem levado os estudiosos a concentrar-se em paradigmas que, do ponto de vista teológico, representam a recuperação do verdadeiro espírito da fé cristã no interior da igreja africana.                                                                                                                     
1.2- Libertação e integração: o novo retrato evangélico na África pós-colonial.
 
São famosas as duas tendências que emergiram no pensamento cristão africano na era pós-independência, especialmente nas décadas entre de 1970 e 1980. A primeira é a dimensão teológica que buscou interpelar e incorporar o ideal de luta pela transformação política e social, contra as condições de desigualdade racial e opressão social. Como paradigma teológico esta tendência, também conhecida nos domínios da teologia contemporânea como Teologia da Libertação Negra e que é uma aliada da teologia da libertação, nasceu no interior da causa abraçada pelos cristãos da África do Sul de lutar contra o sistema do apartheid. Seguindo o exemplo dos irmãos negros norte-americanos que nos anos 50 e 60 levou o ativistas dos diretos civis a discernir motivos teológicos que os poderiam ajudar a mobilizar a comunidade para a consciência da mudança, alguns teólogos na África do Sul lançaram-se ao desafio de interpretar biblicamente a luta do seu povo contra a imposição da hegemonia racial e social branca no seu país.
Alguns anos depois, especialmente depois do fortalecimento do ideal Pan-africanista [6] , essa tendência se transformaria basicamente na principal teologia africana das décadas de 60 e 70, cujos representantes dentro e fora da África tratavam de responder as questões postas pelas circunstâncias particulares da África meridional. O teólogo americano afro-descendente James Cone disse desse movimento do mundo negro daqueles anos que existia uma lógica e histórica conecção entre o movimento dos diretos civis e a consciência religiosa das comunidades negras [7] . E numa perspectiva mais fenomenológica do que Cone, Gayraud Wilmore identificou mais tarde essa tendência com um desenvolvimento natural de fatores interelacionados [8] . 
Alguns desses fatores, com relação a África, foram a realização da V Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em Nairobi, Kenya, em 1975. Nessa assembléia os teólogos negros haviam se dado conta de que o tema da libertação tinha se tornado um tema comum entre eles. Naquele mesmo ano Portugal decidira abandonar as suas colônias de Angola e Moçambique, e em Zimbabwe a luta pela hegemonia política da maioria havia chegado aos ouvidos do mundo. Por tudo isso, tal concílio acabou decidindo, em Setembro daquele ano, estabelecer uma comissão em Genebra para refletir sobre a questão do “Racismo na Teologia e a Teologia contra o Racismo” [9] . No ano seguinte, Agosto de 1976, lança-se a Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo, em Dar es Salaam. Na conferência, que teve como ponto máximo esse evento, ficou evidente a força e a influência dessa tendência teológica. Além dos teólogos africanos e afro-descendentes, vários outros oriundos da Ásia e América Latina haviam atendido a conferencia, voltados para a mesma preocupação. [10]
A segunda tendência pode ser chamada de bíblico-cultural e seus rudimentos de fato podem ser traçados já desde a década de 1960. Alguns teólogos, partindo da história da revelação bíblica buscaram aprofundar a compreensão e a descrição do que significa ser africano para, num segundo momento, poder estabelecer as condições de possibilidade de uma espiritualidade cristã autenticamente africana. A cultura africana em sua originalidade, com especial ênfase nas suas tradições religiosas pré-cristãs tornou-se o motivo no centro da discussão e especulação teológicas dessa segunda tendência.
Com efeito, enquanto a primeira tendência se identificava principalmente com a África sob repressão racial e social dos colonialistas, a última tornara-se fecunda inicialmente no restante da África tropical, onde a independência política havia já conduzido a uma realidade de permanente legitimação de conquistas em vários setores da vida. A preocupação primordial dessa teologia foi a tentativa de alcançar certa integração entre a experiência religiosa africana pré-cristã e o novo compromisso de vida religiosa decorrente da conversão ao cristianismo, de modo a garantir ao continente e ao seu povo uma integralidade de identidade entre cristianismo e cultura.    
A chamada Teologia Africana é atualmente designada com base nos motivos desta segunda tendência. Entretanto, as duas correntes não são mutuamente exclusivas. Pelo contrário. A teologia africana já foi descrita pelo teólogo sul-africano Desmont Tutu como "uma série de círculos concêntricos, dos quais a Teologia Negra é o círculo menor e interno" [11] .  
 
1.2.1- A descoberta do passado religioso pré-cristão.
                 
            A referida conferência de Dar es Salaan evidenciara já os primórdios de uma mudança para novas direções na teologia do terceiro mundo, com vistas a superar a tendência monolítica do tema da libertação. Os teólogos asiáticos enfatizavam o jugo das castas e das tradições védicas, e interpretavam a libertação em termos de uma busca de libertação do cativeiro da herança oriental. Os teólogos latino-americanos, por outro lado, eram enfáticos na libertação como processo de transformação social através da luta de classes, em que as massas oprimidas passavam à condição de “sujeitos” e não apenas “objetos” da sua situação história concreta. Os africanos, por seu turno, buscavam sublinhar não só a dominação político-econômica e racial, mas também a cultural. Por alguns anos depois o tema da libertação foi particularmente afirmado nessa direção pelos teólogos africanos.
ont face="Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">              Na década de 1980, quando a situação econômica na África havia se deteriorado drasticamente e a marginalização da África se tornara evidente no bloco desenvolvido, o que se fez foi uma espécie de revisão do conceito de “libertação”. Perguntava-se sobre o efetivamente havia acontecido com a “liberdade” alcançada pela maioria das nações africanas durante os anos 50 e 60. A complexidade e a insatisfação das respostas levaram aos poucos a uma solicitude por uma emancipação mais ampla, que fossem além do reino das liberdades políticas e de soberania geográfica. Além da economia no plano político-social, os novos estudos passariam a enfatizar a cultura como lugar de todo o sentido possível do cristianismo para os africanos no plano teológico e religioso.   Religião e cultura passaram a ser considerados dois aspetos intimamente interelacionados nas sociedades africanas cristianizadas. Num artigo desse período, escrito pelo teólogo sul-africano Peter Sarpong, nota-se a ênfase neste aspeto:
 
We may not always consider religion as an aspect of culture: nevertheless it is. For if there is any phenomenon in society that is learned and passed on from one generation to another in an organised and censured way, it is religious beliefs and practices, and the code of morality that is associated with them. Like its genus, culture, religion is a human, all-pervasive, obligatory and objective fact. In Africa, it is the crown on human existence permeating every aspect of life, from the political to the chilvarous or sportive. [...] Coming as it did in the wake of colonial rule, and not having made full use of the African’s religious sensibilities, it is still regarded, albeit wrongly, as a foreign institution. [12]
 
             Como se evidencia nesta citação, recusava-se agora a permanente aceitação da fé cristã como uma aquisição exterior à África, não obstante ter ela vindo a reboque de mecanismos de dominação colonial. Cultura tradicional africana, quer dizer, cultura religiosa tradicional pré-cristã e cristianismo deveriam encontrar-se numa aliança pró liberdade espiritual dos africanos. Esta tornava-se a nova preocupação teológica.
             É evidente que a crítica ocidental não aplaudiu esta aventura da teologia africana em buscar solitariamente o sentido incarnacional do evangelho no âmago de sua gente. Até hoje a preocupação com as tradições religiosas pré-cristãs e sua relação com a espiritualidade dos africanos é alvo de críticas de inspiração preconceituosa. Diz-se que ela é uma auto-limitada preocupação com o passado imaginário dos africanos. Adrian Hastings, um dos maiores intérpretes na tradição ocidental do cristianismo africano neste século critica, numa de suas obras, a nova postura da teologia africana dizendo que o futuro da única teologia possível na África está na sua politicamente ressonante theologia crucis, que é a Teologia Negra [13] .
Porém, é significativo o fato de que foi uma das figuras mais representativas  da igreja africana e da teologia negra, Desmond Tutu, quem fez uma das avaliações mais positivas, abrangente e profunda, da teologia cultural africana e de suas conquistas nesse sentido [14] . Suas observações à Conferência de Jos sobre “o cristianismo como religião africana” revelaram que  
 
Os teólogos africanos lançaram-se na (grata) aventura de demonstrar que a experiência religiosa africana e a sua herança tradicional não foram ilusórias, e que eles deveriam ter formado o veículo para adequar as verdades do Evangelho para a África [...] Era vital para o auto-respeito do africano que este tipo de reabilitação da sua herança religiosa devesee acontecer. É a contraparte teológica do que aconteceu, diga-se, no estudo da história da África. Ajudou a tornar mentira a orgulhosa mas tácita suposição de que a religião e história na África datam do advento, naquele continente, do homem branco. É importante saber que nós (sempre) tivemos um conhecimento genuíno de Deus e que nós (sempre) tivemos nossos próprios modos de comunicar com a deidade, modos que significaram que nós (sempre) fomos capazes de falar de maneira autêntica sobre nós mesmos e que éramos pálidos e imperfeitos imitadores dos outros. Significa que nós temos um grande depositário do qual podemos formar modos novos de falar para/sobre sobre Deus, e estilos novos de adoração consistente com a nossa nova fé. [15]  
 
Considerando que essas observações do arcebispo Tutu são uma clara evidência da consciência que dela têm os teólogos africanos, qual seja, "reabilitar a rica herança cultural e a consciência religiosa da África", parece-me importante agora que perguntemos por que tal esforço vem sendo implementado como uma tarefa a serviço da autoconsciência teológica de interesse particularmente cristão?
Escrevendo sobre as primeiras tentativas de desenvolver uma teologia africana,  o próprio Adrian Hastings, na sua African Christianity - An Essay in Interpretation, chama atenção para o fato de que "a principal realidade não-bíblica com a qual o teólogo africano precisa de enfrentar-se (nesta tarefa) é a tradição religiosa não-cristã do seu próprio povo", e que por isso “a teologia africana deve resultar, antes de mais nada, de uma relação dialógica entre o estudioso e as antigas religiões africanas" [16] . Mais adiante ele desconfia no entanto desta direção, uma vez que, a seu ver, fazendo assim alguns "aspectos da doutrina cristã tradicional que não são refletidas no passado africano desaparecem ou são simplesmente marginalizadas" [17] . Com esses “aspetos da doutrina cristã tradicional” Hastings, assim como outros críticos, está evidentemente preocupado com a ausência do tema da cristologia numa teologia inspirada na tradição pré-cristã africana. [18]   Articulações mais recentes, que não podemos registrar no limitado espaço a nossa disposição, têm de fato contribuído para ultrapassar esse impasse.
            Como quer que seja, não é difícil constatar o resultado disto que aconteceu nessa época: as mesmas tradições religiosas - aquelas das Religiões Primitivas da África – que antes foram julgadas teologicamente sem valor pela cultura teológica ocidental durante as missões modernas, agora estão no centro de um intenso debate acadêmico [19] que envolve africanos e estrangeiros. É oportuno recordar neste ponto que em 1910, a Conferência Missionária Mundial realizada em Edimburgo, Escócia, operando debaixo do padrão axiológico da Europa dominante, concluíra que as religiões primitivas africanas "não possuíam solo preparativo para acoitar a fé cristã" [20] . Deste modo se torna crucial para o entendimento desse aclamado interesse teológico com o passado pré-cristão da África, sobretudo se quisermos interpretar corretamente os escritos da teologia africana, reconhecer suas conquistas e discernir acuradamente e com precisão as tendências e direções que eles tomaram.
 
1.2.2- Teologia como hermenêutica da identidade. Acertos e erros da crítica.
 
Dissemos que o esforço da teologia africana vem acontecendo no sentido de reabilitar a herança cultural africana intrínseca à sua consciência religiosa tradicional. Esta teologia da auto-reflexão é o ideal através do qual, nos últimos anos, ela busca com diligência diligente demonstrar o verdadeiro caráter da identidade religiosa cristã africana a partir de suas raízes históricas mais remotas.
Visto a partir da ótica da grande maioria dos escritores, cientistas sociais, teólogos e pensadores em geral, esse ideal está em permanente ligação com as Religiões Primitivas da África, que são o lugar próprio em que se dimensiona a grandeza e o alcance psicológico do referencial religioso africano. Porém, este não é tanto um passado cronológico, como se fosse um "passado ontológico", mas um passado que insistentemente se presentifica na estrutura atemporal do imaginário africano.
A importância teológica de tal passado ontológico consiste exatamente no fato de que é ele, junto com a experiência possível da fé religiosa inerente, que dá conta da totalidade histórica da consciência religiosa dos cristão africanos. É neste sentido que a preocupação teológica com a herança religiosa africana pré-cristã se transformou na base fundamental da teologia na África hoje, em busca da face autêntica e do significado da experiência cristã passível de ser chamada de africana.
No centro desse esforço está ainda a indagação sobre o que recentemente o teólogo Kenneth Cragg descreveu como "integridade na conversão, a unidade do ‘eu’ no qual o passado de alguém é genuinamente integrado num compromisso atual, fazendo com que a crise do arrependimento e fé que nos tornam cristãos verdadeiramente integre aquilo que éramos naquilo em que nos tornamos" [21] . Essa preocupação no sentido de resgatar a legitimidade da experiência do sagrado estabelece também, no cenário teológico africano, a necessidade de estabelecer a compreensão da transformação que ela provocou nos cristãos africanos, numa linha paralela aquelas tentativas teológicas que buscam elucidar o mesmo fenômeno no interior da experiência dos judeus e dos cristãos primitivos. Disto desponta o desafio metodológico que, como veremos, imita não só a compreensão do poder transformador subjacente ao Evangelho, mas também a dinâmica cultural dos africanos no interior do qual ele é assimilado.
O teólogo E. W. Fasholé-Luke faz consistir a consistência metodológica praticada na África hoje não apenas na transformação que vem do evangelho em si (=conversão), mas concomitantemente na experiência cultural como um todo. De acordo com ele, "a busca por teologias africanas remonta às tentativas de tornar claro o fato de que a conversão ao cristianismo deve ser confrontada com a continuidade cultural" [22] , fora da qual nenhuma metodologia será teológica e autenticamente africanas.  
Por outro lado, a teologia africana é também uma experiência de superação histórica, na qual o passado ideológico-cristão estabelecido pela "teologia" da missão deve ser transposto em demanda de novos valores inteiramente autóctones. A presunção missionária em estabelecer valores à base dos critérios de valor europeus fere a definição da fé cristã possível na África, já que tais valores excluem, mesmo do ponto de vista  estritamente antropológico, qualquer possibilidade de as religiões primitivas africanas, por exemplo, serem instâncias preparatórias para a experiência da fé cristã. Resulta daí uma problemática para a Igreja africana, que o teólogo John Mbiti considerou, num artigo de 1972, ao analisar a Igreja pós-missionária na África, como "igreja sem teologia e sem consciência teológica" [23] .
Exatamente porque a consciência teológica pressupõe uma tradição religiosa, e a tradição requer memória, enquanto a memória é parte integrante da identidade de um povo: "sem memória – diz ainda Mbiti-  não temos um passado; e se não temos passado, então nós perdemos nossa identidade", observa Mbiti [24] .
Ao comentar sobre a literatura teológica produzida na África contemporânea, Andrew F. Walls, identificou justamente os motivos que justificam essa vontade de superação história e retorno às origens: primeiro, a experiência religiosa propriamente dita e, segundo, a conversão evangélica. De acordo com ele, não se pode desprezar o passado religioso em qualquer investigação de natureza teológica com referencia à África, assim como não se pode desprezar as mudanças massivas devidas ao impacto cultural sobre o evangelho em outras partes:  
 
Nenhuma questão é mais gritante do que a crise de identidade cristã africana. Não se trata apenas de uma indagação intelectual. As mudanças massivas no centro de gravidade do mundo cristão não podem ser separadas do impacto cultural do ocidente na era dos impérios. Mas agora os impérios estão mortos e o padrão de valores ocidental da fé cristã rejeitado em grande parte. E onde tudo isso deixou o cristão africano? O que ele é? Qual é o seu passado? Um passado é vital para todos nós - sem isto, tal como o homem amnésico, não podemos saber quem nós somos. A principal indagação teológica africana hoje é, por isso, no momento esta: qual é o passado dos cristãos africanos? Qual é a relação entre suas religiões antigas e a sua nova, o cristianismo? [25]
 
Tal não surpreende, posto que resgatar essa identidade religiosa anterior ao cristianismo no continente é tema central das mais variadas frentes de manifestação intelectual no continente hoje. Walls observa que especialmente na literatura teológica, já há alguns anos,  é grande a presença de temas que refletem essa "natureza da religiosidade tradicional da África e sua relação de continuidade, em vez de descontinuidade, com a fé cristã" [26] .
No centro deste interesse está a assunção de que o padrão de valores cristãos herdados do lego missionário, bem a essência das crenças dele decorrentes, produziu na experiência religiosa cristã dos africanos uma certa baixa qualidade da percepção do poder e da glória de Deus. O senso do sagrado africano requer a vitalidade intrínseca ao espírito tradicional da religiosidade africana, inerente às religiões primitivas do continente. Não como resquício de uma "mentalidade primitiva" desgastada e ultrapassada, mas, nos termos da sua cosmovisão, como realidades vivas na experiência de qualquer cristão inerentemente.
Termos como "fetiche", "animismo", "panteísmo”, “politeímo", "primitivo", "não-civilizado", etc., comumente associados pela teologia tradicional à experiência religiosa dos povos africanos tornaram-se categorias superadas no escopo dessa teologia. A teologia africana as entende hoje como noções superadas desde o ponto de vista da teologia, e por isso as rejeitam completamente como faz a antropologia moderna. Hoje, a grande maioria dos teólogos do continente, sobretudo a nova geração, não obstante sua formação a partir dos modelos da racionalidade ocidental, em sua careira intelectual abraçam as áreas e temas relativos aos problemas da África. Buscam colocar no centro de sua investigação exatamente aqueles  aspectos para as quais nenhum programa teológico os havia preparado. Sem esta aventura, reconhece Walls [27] , o labor teológico não teria futuro na África, pelo menos enquanto se propunha a buscar um lugar legítimo para a palavra de Deus no interior da experiência religiosa africana.  O ponto alto deste novo paradigma está, segundo Walls, no fato de que os teólogos são antes de mais nada cristãos convictos, que buscam se aproximar da sua própria realidade histórica "não como os historiadores da religião ou os antropólogos fazem, mas como teólogos verdadeiramente cristãos" [28] , chegando à algumas conclusões surpreendentes.
Isto quer dizer que os teólogos africanos não são, neste paradigma, condescendentes com o passado religioso africano que, do ponto de vista do cristianismo bíblico, representa uma realidade pecaminosa. E nem consideram saudável integralizar os dois níveis das experiências religiosas supostas sem que no centro dela esteja a busca pela verdadeira identidade religiosa capaz de tornar a fé cristã uma experiência genuinamente africana.
Por isso, quando esses teólogos descrevem as religiões primitivas africanas como "monoteístas" de "monoteísmo difuso", como fizera Bolaji Idowu com relação a religião dos Yoruba [29] , ou quando John Mbiti, invertendo o veredicto da Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, Escócia, considera a experiência religiosa africana do período pré-missionário como uma praeparatio evangélica [30] , simplesmente devem ser entendidos como escrevendo a partir do seu senso de inclusão e pertença dentro da tradição cristã mesma, apenas usando categorias que para eles melhor descrevem seu entendimento da herança pré-cristã quando relacionada ao compromisso cristão.
Não se pode portanto prescrever, para a teologia africana, as mesmas receitas metodológicas que os teólogos da missão usaram no passando. Em sua busca de uma metodologia que os conduzisse a interpelar a fé cristã inerente a força religiosa peculiar da África, os africanos redefiniram termos e conceitos, além de submeter a própria cosmovisão religiosa a uma revisão que a purificou de todas as conotações demoníacas.
Uma das grandes contribuições neste sentido é sem dúvida a obra de John Mbiti, cuja pesquisa encetou na direção de explicitar em termos africanos os principais conceitos e definições da teologia evangélica. A sua obra Concepts of God in África teve como objeto primário tentar prescrever a base para uma teologia africana autêntica, sobretudo quando consegue trazer juntos o passado africano e a tradição judeu-cristã [31] .
Outra obra exemplar nesta tarefa é o seu The Prayers of African Religion, que um crítico já chamou de “manual de culto para a igreja africana” [32] . Por tudo isso a teologia africana se tornou também, como definiu um dos seus ícones contemporâneos, uma “tarefa destinada a reunir as várias e discrepantes fontes que compõem a totalidade da experiência religiosa dos cristãos na África, num padrão coerente e significativo” [33] . Hoje ela só pode ser julgada com precisão se se levar em conta seu desafio fundamental que, por derivação, estabelece o único critério metodológico que lhe é apropriado. Além disso, só aceitando que as investigações teológicas africanas relativamente as religiões primitivas são metodologicamente e qualitativamente diferentes daquelas da antropologia tradicional, por exemplo, será possível apreciar que, por sua motivação fundamental, a teologia africana pode, de fato e de direto, ter estado desenhando um curso novo na escola das metodologias teológicas.
Até porque, na medida em que os conceitos e as categorias metodológicas utilizadas são derivadas da tradição cristã, e simultaneamente do reino das idéias africanas, esse empreendimento tem seu paralelo na totalidade da erudição cristã
No coração do mé
todo deste fazer teológico africano está ainda o problema da identidade como categoria teológica. Com ele se busca estabelecer os limites entre o velho (=experiência cultural-religiosa africana) e o novo (=cristianismo), sobre como e quão distante o velho e o novo na consciência religiosa africana poderiam integrar-se mutuamente numa perspectiva unificada capaz de enriquecer a teoria e a prática do cristianismo no continente.
Esta questão forçou o teólogo africano a deslocar-se para o centro da reflexão como sujeito-experiência mediadora do diálogo entre o novo e o velho, impondo-lhe um grau de autonomia metodológica relativamente mais intenso. Esta autonomização da reflexão é ao mesmo tempo um grito de liberdade cujas implicações não descartam o risco da rejeição ou da censura externa. Como Walls observa, o teólogo africana está como que segurando sempre, em suas mãos, um dinamite constituído pelo seu próprio passado e pelo presente do seu próprio [34] .
Conseqüentemente o desenvolvimento de uma preocupação teológica e a formulação de perguntas teológicas é um subproduto inevitável deste processo de auto-definição e auto-compreensão cristã dos africanos. Corretamente Adrian Hastings ajuiza  a teologia africana como um desafio que desde cedo buscou ser não só "um diálogo entre o estudioso africano e as religiões e espiritualidade perenes dos africanos", mas também a resposta para a sua reclamação histórica de que "áreas da doutrina cristã tradicional que não são refletidas no passado africano correm o risco de  desaparecer ou de serem marginalizados" [35] .
 
1.3- A década de noventa e as novas direções na teologia africana. 
 
A aceitação da herança religiosa africana pré-cristã na tarefa de caraterizar teologicamente a experiência religiosa cristã dos africanos, foi a tese que prevaleceu durante muitos anos desde as primeiras tentativas de isolar a teologia africana do domínio missiológico. Com o passar do tempo,  novas tendências foram emergindo, especialmente com a geração acadêmica dos anos 80, quando se percebeu que era importante reconhecer a integridade de uma experiência cristã africana como uma realidade religiosa de direito autônomo (=cristianismo africano).
O leitmotif central desta articulação baseia-se no direto universal do evangelho e, por isso mesmo, na necessidade de sua aplicação restritiva aos diferentes universos culturais. Para a nova articulação, o cristianismo, como uma fé religiosa,  passa a ser visto não mais como algo dependente da boa-vontade dos missionários ou das culturas que representam, como algo intrinsecamente estranho à África. Pelo contrário, descobre-se que ele tem profundas raízes na longa história dos povos do continente, no seio do qual ele foi assimilado desde os primeiros anos do seu surgimento sem que os africanos deixassem de ser africanos.
Graças a intervenção dos novos advogados de um cristianismo para os africanos, não obstante a impressão fabricada pela teologia tradicional, que se negou a reconhecer o retrato africano desse cristianismo, existente desde a era apostólica, os africanos se abrem hoje à experiência evangélica como experiência inteiramente acessível nos moldes da própria espiritualidade peculiar ao seu povo.
Teólogos do peso do nigeriano John Mbiti, do kenyano J. Mugambi [36] , do sul-africano Desmond Tutu, entre outros, integram este polo, a despeito mesmo de suas diferenças de gênero. Contribuíram para que o Evangelho achasse um lar para si no coração da África, demonstrando que Cristo ali também se tornou, desde que foi aceito ainda no primeiro século da sua era, a manifestação do poder e graça de Deus para a salvação do homem africano.
Dos anos 90 em diante esta é a tendência que parece oferecer os sinais mais esperados para o desenvolvimento de uma tradição sustentável de um pensamento cristão africano de futuro. Chamado de “paradigma da inculturação”, este defende a necessidade e o dever da traduzibilidade, ou seja, a tese de que é possível traduzir o Evangelho às condições africanas sem perigo de dano para seu conteúdo essencial.
Por conseguinte, a tarefa da teologia africana passou a consistir privilegiadamente  não em "indigenizar" o cristianismo, ou em uma teologia como tal, mas em deixar o evangelho cristão encontrar seu lugar na experiência e no coração dos africanos, sendo por ela exclusivamente moldado. Para os defensores do continuísmo entre cultura e evangelho na África, essa tarefa não só pode seguir seu curso com expectativas positivas para a igreja africana, mas é também imprescindível para a legitimidade da experiência da fé cristã no solo.
            A década de oitenta foi um período de transição, a época em que a velha geração de teólogos e escritores mais antigos pareciam encerrar a sua carreira, pelo menos em parte, dando lugar a uma nova geração de pensadores, e também indiretamente endossando suas novas idéias, que começavam onde os mais antigos tinham parado.
Muito embora a preocupação sobre a relação das religiões primitivas com o cristianismo ainda detenha certo interesse, todas as indicações são no sentido de que uma onda se passou e que as glórias do cristianismo africano tinham deixado de ser tributárias do ocidente. Não é mais o que os missionários ocidentais fizeram ou disseram (ou deixaram de fazer ou dizer), mas o que os cristãos africanos farão com a sua nova fé, bem como seu compromisso com ela, que agora se constitui em fator determinante no desenvolvimento do pensamento cristão na África.
 
A grande indicação de que tal concentração no significado teológico da herança primitiva pré-cristã tinha sido apropriada foi o fato de que a nova geração de teólogos africanos, enquanto exploravam outros temas como a natureza de Cristo, a relação das pessoas da trindade, o conceito do tempo, a vida além da morte, os milagres, etc., pôde levar adiante a essa tarefa partindo de categorias genuinamente africanas. Com uma ênfase inicial em temas puramente eclesiológicas e missiológicos (transculturalização, inculturação...) a teologia africana expandiu-se para a cristologia, a escatologia, a soteriologia, bem como a vinculação do kerigma aos problemas históricos concretos dos africanos; todos, temas que pouca atenção mereceu do teólogos mais antigos.
Estes temas passaram a ser abordados de acordo com a cosmovisão e com a terminologia conceitual das línguas dos nativos africanos. Um interesse particular recairá sobre a lingüística e filologia aplicada as línguas africanas. A Cristologia, por exemplo, passou a se interessar por categorias como "Cristo, nosso grande curandeiro", ou "o mestre da iniciação", ou ainda "o grande antepassado", todos derivadas diretamente dos ensinamentos bíblicos postos em conformidade com a cosmovisão e a experiência das religiões primitivas africanas. Teólogos como os anglófonos John Pobee [37] e Kwame Bediako (este publicou um importante livro e um artigo sobre a cristologia e a nova teologia africana em 1984 [38] ), os francófonos Anselme T. Sanon e René Keneau, que publicaram uma obra conjunta sobre os ritos de iniciação africana e a pedagogia da fé evangélica [39] , o cristologista zimbabuano Charles Nyamiti [40] , Robert Screiter [41] , entre outros, representam atualmente esse estágio da teologia africana.
À parte desses novos usos linguístico-conceituais, a nova teologia está empenhada também na elaboração de um método apropriado ao seu universo perceptivo e discursivo, tendo em teólogos como Bénezet Bujo [42] , o zairense T. Tschibangu que esboçou o primeiro tratado de uma metodologia científica para a teologia na África [43] , os primeiros representantes da nova preocupação com a questão metodológica. Novas teses sobre a soteriologia e a teologia da conversão também foram firmadas por teólogos como o nigeriano Okorocha [44] , além do velho John Mbiti, dono de uma vastíssima obra em todas as direções do legado teológico africano [45] .
A história do cristianismo, bem como os as conseqüências da difusão e expansão do cristianismo na África foram igualmente interpeladas de acordo com as novas percepções, diferentes daquelas da teologia da missão [46] ; o mesmo se fez, desde então, da teologia histórica, na qual aspectos do cristianismo contemporâneo africano são relacionados à tradição cristã como um todo [47] . Assim, a década de noventa despontou para a África como a era da consciência teológica completamente livre e autônoma.
Em 1983, numa investigação inovadora mas bastante crítica dos caminhos da teologia ocidental, Lamin Sanneh saudaria as conquistas teológicas com palavras que são dignas de nota a essa altura da nossa discussão. De acordo com ele, a teologia africana era uma página a mais no livro teológico da Igreja universal, pois
 
Ninguém pode perder de vista a vitalidade do cristianismo agora em curso na grande parte do continente... O cristianismo africano adentrou, sem dúvida, sua vocação universal na marcha para a frente do povo de Deus, um destino comparável [apenas] ao do cristianismo gentílico dos primeiros séculos. [48]    
 
Desse modo, a teologia dos anos 90 conseguiu, pelo tipo de programa que acatou e também pelo método que desenvolveu para si, afastar as amarras do veredicto negativo que o etnocentrismo euro-americano de um lado, e a teologia da missão ocidental do outro lado, fez pesar sobre toda a realidade e tradição africanas.
 
Além do mais, o fato de que a teologia africana não só alcançou sucesso que lhe é privado, mas também enaltecido e saudado pela grande parte da crítica externa, demonstra que o sentido universal do Evangelho cristão nunca foi perdido ou abandonado na histórica moderna, além da necessidade de sua inculturação para ser autêntico. A conquista em pauta contribui ainda para justificar hoje a viabilidade do encontro criativo entre Evangelho e Cultura que ocupou R. Niebuhr no seu Cristo e Cultura [49] , uma variante do universal permanente encontro entre fé cristã enquanto experiência transformadora  e realidade humana enquanto instância de transformação e compromisso com o projeto redentor de Deus.
 
 
Numa espécie de conclusão, convém ressaltar que os teólogos africanos são filhos da sua terra. As repercussões do cristianismo contemporâneo na teologia africana não poderiam, por isso, prescindir das reivindicações de legitimidade, pelos africanos, para toda e qualquer experiência que se quer fecundar no continente e no espírito de sua gente. Ao chamar para si os desafios que visam tornar o cristianismo realmente africano, isto é, uma experiência autêntica e indelével no espírito do ser africano, a teologia africana passa à condição de voz profética em favor do futuro eterno dos cristãos africanos. Como quase toda experiência do gênero, particularmente da própria teologia, os africanos não estiveram, não estão e nunca estarão livres de erros e acertos. Mas o cristianismo não é uma filosofia, tão pouco é uma teologia , em que prevalecem os jogos da razão dialética encetada longe de prescrições externas. O cristianismo é uma religião revelada e, mais do que isso, é uma religião com Palavra. Por isso, na medida em que ela se fizer porta-voz da Palavra e dependente da revelação que se deu e se dá a partir do alto, a teologia africana será sempre uma experiência africana legítima em todas as suas reivindicações de um cristianismo genuinamente africano, contra qualquer forma de imposição religiosa supostamente inspirada em tradições culturais que se querem universais.

 

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[1] Uma explanação dos problemas causados a África pelo colonialismo foi feita, há algumas décadas atrás, e de modo exaustivo por G. Balandier em sua obra La Sociologie actualle de l'Afrique noire (Paris, 1963).
[2] De fato, durante a ocupação e colonização “oficial” da África, os cristãos dos povos dominadores chegavam a medir a graça de Deus com base na sua própria posição privilegiada e de prosperidade, assim justificando a legitimidade desse assalto subjugante sobre os povos então dito pagãos da África, Ásia e América. No século XVIII o filósofo Hegel, com seu sistema impregnado de cristianismo de início ao fim, chegou mesmo a admitir que os povos da África e das Américas não tinham o direto de considerar-se parte da História Universal; mas, pelo contrário, deveriam dar-se por satisfeito com a condição de serem cultural e espiritualmente subjugados pelos povos civilizados da Europa. “Sem Estado e sem Religião, esses negros praticantes de feitiçaria, de canibalismo, da poligamia, do despotismo e da escravidão estão submersos numa arbitrariedade sensual que os impossibilita de toda a educação e desenvolvimento” , teria se justificado. (Cf. Hegel, Lições de História de Filosofia,  p.176ss; também Zilá Bernd, Introdução à Literatura Negra, p. 10ss.
[3] Cf. "L'Afrique et l'Église", in La Reconnaissance des différences, Chemim do la Solidarité (Paris: 1973), p. 207.
[4] MVENG, Engelbert; "La rentrée de l'Afrique dans l'Église", in: Parole est Mission, 12 (1969), pp.366-67.
[5] Hans Küng leva esse debate à exaustão na sua obra The Council: Reform and Reunion. Sheed & Ward, 1962.
[6] O V Congresso Pan-Africano, de 1945, refletiu particularmente essa preocupação. Cf. THOMPSON, V.B.; Africa and Unity. London: Longman, 1969, pp. 57ss.
[7] Cf. CONE, James H.; Black Theology and Black Power (New York: Seabury, 1969).
[8] Cf. WILMORE, Gayraud S.; Black Religion and Radicalism (New York: Doubleday, 1973.
[9] Cf. Racism in Theology and Theology against Racism, Geneva: WCC, 1975.
[10] Os relatórios dessa conferencia fundacional foram editados e publicados por Sergio Torres e Virginia Fabelaa sob o tema de The Emergent Gospel: Theology from the Underside of History. Maryknoll, New York: Orbis, 1978.
[11] TUTU, Desmond; "Black Theology and African Theology - Soulmates or Antagonists?", in: PARRAT, John (ed.); A Reader in African Christian Theology. London: SPCK, 1987, p. 54
[12] SARPONG, Peter; “Christianity and Tradicional African Religion”, in African Challenge, pp. 25,27.
[13] HASTINGS, Adrian; African Catholicism - An Essay in Discovery. London: SCM Press, 1989, pp. 30-35. Na verdade, alguns críticos não teólogos africanos rejeitaram também esta preocupação teológica, considerando-a uma tentativa equivocada dos cristãos "cristianizar" o que não pode ser, a tradição religiosa africana. Para eles, a tentativa de buscar uma integração entre a tradição religiosa africana pré-cristã e a experiência cristã representa uma v
ia sem garantia de sucesso, uma vez que coisa visa a reconciliação de entidades intrinsecamente antitéticas: cristianismo e cultura africana. Cf. a propósito p'BITEK, Okot; African Religions in Western Scholarship. Kampala: East African Literature Bureau, 1970. Também MAZRUI, Ali; The African Condition - A Political Diagnosis. London: Heinemann, 1980.
 
[14] TUTU, Desmond; "Whither African Theology?", in: E. FASHOLÉ-Luke et al. (eds.) Christianity in Independent Africa. London: Rex Collings, 1978, pp. 364-369.
[15] Ibid., p. 366
[16] HASTINGS, Adrian; African Christianity - An Essay in Interpretation. London: Geoffrey Chapman, 1976, p. 50.
[17] Ibid., p. 52
[18] Uma indicação de que Hastings não estava sozinho nesse entendimento é que, há cerca de 25 anos atrás, numa conferência internacional de teologia, um missionário educador que trabalhava na África admitiu estar completamento superpreso quanto a necessidade de se ensinar uma "teologia africana" quando, em sua opinião, tudo o que ele teria lido na literatura teológica da África eram discussões e interpretações sobre as "Religiões tradicionais africanas". Seu grande questionamento teria sido: "onde está teologia nisso lá?".
[19] HASTINGS, A. African Christianity, p. 183
[20] Cf. The Missionary Message in relation to non-Christian religions - The World Missionary Conference 1910-report of Comission IV. Edinburgh & London: Oliphant, Anderson & Ferrier, 1910, p. 24.
[21] CRAGG, Kenneth; "Conversion and Convertibility with special reference to Muslims" in: STOTT, R.W. John & Robert Coote (eds.) Down to Earth - Studies in Christianity and Culture. Grand Rapids: Eerdmans, 1980, p. 194.
[22] FASHOLÉ-Luke, E.; "The Quest for an African Christian Theology", in: The Eumenical Review, vol. 27, no. 3, 1975, p. 267
[23] MBITI, John S.; "Some African Concepts of Christology", in: VICEDOM, George F.; Christ and the Younger Chruches. London: SPCK, 1972, p. 51
[24] Ibid., p. 51
[25] WALLS, Andrew F.; "Africa and Christian Identity", in: Mission Focus, vol. 6, no. 7, November 1978, p.12
[26] Ibid., p. 13. O tema da continuidade religiosa é abordado com graus variados de vigor por escritores de diferentes áreas de conhecimento; todavia ele é uma preocupação comum sobretudo entre os teólogos, assim como os outros fatores que expliquem o processo teológico em pauta. Continuidade e descontinuidade entre passado religioso tradicional africano e cristianismo constitui o objeto do primeiro capítulo da totalidade deste trabalho.
[27] WALLS, Andrew F.; "The Gospel as the Prisoner and Liberator of the Culture", in: Faith and Thought, 108 (1-2), 1981, 1981, p. 49.
[28] Ibid., p. 50
[29] IDOWU, Bolaji; Olódùmaré - God in Yorubá Belief. London: Longman, 1962, p. 62.
[30] MBITI, John S.; "The future of Chritianity in Africa (1970-2000), in: Communio Viatorum: Theological Quarterly, vol. 13, 1-2, 1970, p. 168.
[31] Cf. RAY, Benjamin C.; African Religions - Symbols, Ritual and Comunity. Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice Hall Inc., 1976, p. 36.
[32] McKenzie, P.R. "Review of John Mbiti, The Prayers of African Religion; in: The Expository Times, vol. 87, 1975-76, 220-221.
[33] HASHOLÉ-Luke, E.; The Quest for an African Theology, p. 268.
[34] WALLS, A. F.; The Gosperl as the Prisoner and Liberator of Culture, p. 268
[35] HASTTINGS, A.; op. cit., p. 176
[36] Cf. especialmente The African Heritage and Contemporary Christianity. (Nairobi: Longman, 1989) e African Christian Theology: An Introdution. (Nairobi: Heinemann, 1989)
[37] Cf. POBEE, John S.; Toward an African Theology. (Nashville: Abingdon Press) de 1979.
[38] BEDIAKO, Kwame; Jesus in African Culture... Accra: Asempa Publishers, 1990, e "Biblical Christologies in the context of African Traditional Religions" (in: Vinay Samuel & Chris Sugden (eds.) Sharing Jesus in the Two-Third World; Grand Rapids: Eerdmans, 1984, pp. 81-121).
[39] SANON, Anselme T. & LUNEAU, René; Encraciner l'Evangile - Iniciations africaines et pédagogie de la foi. (Paris: Les Editions du Cerf, 1982).
[40] Por exemplo o seu Christ as our Ancestor - Christology from an African Perspective (Gweru: Mambo Press) de 1984.
[41] Cf. SCHREITER, Robert; Faces of Jesus in Africa. London: SCM Press, 1991, que recebeu ainda contribuições de Shanon e Nyamiti, vários entre outros escritores.
[42] BUJO, Bénézet; African Theology in its Social  Context. New York: Orbis Books, de 191
[43] TSCHIBANGU, T.; La Théologie comme science au Xxème siècle. Kinshasa: Faculté de Thélogie Catholique, de 1980. Merece também destaque o seu artigo "The Task of African Theologians" publicado em APPIAH-Kubi, K. & Torres, S. (eds.) African Theology en rout (New York: Orbis Books, 1979).
[44] Cf OKOROCHA, C.C.; The Meaning of Religious conversion in Africa - The case of Igbo of Nigeria (Averbury: Gower Publishing Co. Ltd., de 1987).
[45] Ressalte-se o seu compêndio de estudos neotestamentários, particularmente sobre a escatologia, MBITI, John S.; New Testament Eschatology in na African Background - A Study of the Encounter between New Testament Theology and African Traditional concepts. London: OUP, 1970.
[46] Cf. nesse sentido a obra de SANNEH, Lamin; Translating the Message - The Missionary Impact on Culture (New York: Orbis Books) de 1989. O mesmo fez BEDIAKO, Kwame. Theology of Identity - The impact of culture upon Christian thought in the second century and modern Africa. Oxford: Regnum Books, 1992.
[47] Cf. BEDIAKO, Kwame; op. cit.
[48] SANNEH, Lamin; West African Christianity - The Religious Impact;  London: C.Hurst, 1983, p. 46
[49] São Paulo: Editora Paz e Terra, 1983.

 


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