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A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO DE MAX WEBER© Zakeu A. Zengo
1. Vida e formação intelectual de Max Weber (1864-1930)
Sociólogo alemão, Max Weber nasceu em Erfurt, Turíngia, em 21 de abril de 1864 e morreu em Munique aos 14 de junho de 1930. Seu pai, um grande industrial têxtil na Alemanha ocidental, pertenceu ao partido liberal-conservador; sua mãe era de uma família de professores liberais e humanistas. Aos dois anos de idade, ficou doente - muito doente, sem dúvida, embora possamos duvidar do diagnóstico de meningite – e tornou-se o alvo particular do melancólico desvelo de sua mãe. Em 1869, a família mudou para o bairro berlinense de Charlottenburg e aí Weber freqüentou a escola, recebendo uma educação ortodoxa predominantemente clássica. Em 1882, foi para Heidelberg e ingressou na Faculdade de Direto. Em 1884, estava em Estrasburgo como suboficial da reserva. Em 1884-85, encontramo-lo a estudar em Berlim, e no ano letivo seguinte em Göttingen. (No sistema universitário alemão nada havia de incomum nessa movimentação de lugar.) Depois de deixar Göttingen, Max Weber passou mais três anos numa posição secundária de advocacia em Berlim, preparando sua tese de doutorado e voltando a Estrasburgo como oficial da reserva por um breve período (também serviu em Posen nessa qualidade). Doutorou-se com uma tese sobre a História dos Empórios Medievais, em 1889. Era agora um "assessor" nos tribunais de primeira instância de Berlim. Em 1891, qualificou-se como professor universitário com uma tese sobre o Significado da História Agrária Romana para o Direito Público e Privado. (Foi ao examinar essa tese que o grande historiador Theodor Mommsen disse: "Quando estiver prestes a baixar à sepultura, o estimadíssimo Max Weber será o único a quem poderia dizer: - Meu filho, eis a minha lança, que ficou pesada demais para o meu braço.") Em 1892, ocupava um cargo de assistente na Faculdade de Direito de Berlim e casou, nesse mesmo ano, com sua prima em segundo grau do lado paterno. Em 1894, a Universidade de Freiburg-im-Breisgau conferiu-lhe uma cátedra de Economia Política. Em 1897, sucedeu em Heidelberg ao economista Knies. Viajou pela Europa - Inglaterra, Escócia, Bélgica, Itália - e para os Estados Unidos. Em 1903, em colaboração com Sombert e Jaffe, Weber fundou a revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik. Durante a guerra de 1914-15, trabalhou em administração hospitalar. Em 1918 voltou ao ensino numa cadeira de Sociologia especialmente criada para ele em Viena. No ano seguinte foi ocupar a cadeira onde lecionava antes um outro economista famoso, Brentano, em Munique. Morreu no ano seguinte.
Max Weber representa, na Alemanha do começo do século XX, a burguesia culta que estava, pela estrutura semifeudal do país do imperador Guilherme II, excluída da atividade política. Saindo dessa atmosfera familiar, Weber se tornou um eminente professor universitário, jornalista influente, historiador, economista, filósofo e, principalmente, sociólogo. Marcou-o o estigma de uma enfermidade psíquica, que constituiu impedimento ao ininterrupto exercício do magistério universitário por vinte anos.Essa doença surgiu depois de 1897, revelando-se em depressões e sintomas psicossomáticos; Weber oscilava entre períodos de intenso trabalho e de quase invalidez, sobre a qual sempre triunfou, enfim, sua poderosa inteligência; ficou insatisfeita sua ambição de agir e de contribuir para a determinação dos destinos de sua nação. Sem qualquer vestígio de racismo e condenando todas as veleidades imperialistas, era Weber, no entanto, um ardente nacionalista alemão.Weber estudou direito nas universidades de Heidelberg, Göttingen e Berlim, adquirindo competência profissional em história, economia e filosofia. Em 1893, iniciou, em Berlim, sua carreira universitária como docente de economia política. No ano seguinte, foi nomeado professor de economia na universidade de Freiburg im Breisgau; em 1895, professor catedrático em Heidelberg.Influenciado na mocidade pelo filósofo Wilhelm Dilthey, manteve depois contato permanente com Alfred Weber (seu irmão), com o historiador Eberhard Gotheim, com o filósofo Wilhelm Windelband, com o historiador literário Friedrich Gundolf, com Werner Sombart, Ferdinand Tönnies, Robert Michels, Georg Simmel e Georg Lukács. Três gerações da elite intelectual alemã participavam das reuniões em casa de Max e Marianne Weber, em Heidelberg.Da multiplicidade desses contatos nasceu o grande trabalho “Die Protestantisch Ethik um der Geist des Kapitalismus” (“A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”), primeiro exemplo de um estudo interdisciplinar; no caso, de uma síntese de pesquisas de história econômica e de história da religião. Esse trabalho, que é até hoje a obra mais famosa de Weber, saiu entre 1904 e 1905 no Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik (Arquivo de Sociologia e Política Social), revista cuja direção ele assume, junto com Sombart, em 1903. Seus trabalhos, nessa época, têm, muitas vezes, veemente tendência política: combateu o latifúndio na Alemanha oriental dos Junkers, predizendo-lhes catástrofe parecida com a do império romano; também combateu a burocracia prussiana e o semi-absolutismo do imperador Guilherme II. Durante a guerra de 1914 – 1918, fez apaixonada oposição jornalística ao governo imperial, citando as advertências dos profetas do Velho Testamento.Em 1918, retomou, depois de longa pausa, as atividades docentes, ministrando na universidade de Viena um curso de “crítica positiva da concepção materialista da história”, onde expôs idéias a respeito de vinculações entre a sociologia das religiões mundiais e as organizações políticas e econômicas. No ano seguinte, ocupou cátedra na universidade de Munique, exercendo forte influência na redação da constituição da república de Weimar. Uma grande carreira política parecia abrir-se-lhe, quando a morte o surpreendeu em 1936.Viveu como um erudito de interesses enciclopédicos e como grande burguês, mantendo o hábito dos salões intelectuais. Sua projeção no pensamento sociológico reflete a tradição acumulada pela filosofia e pelas ciências alemãs do fim do século XIX, o que permitia à produção acadêmica uma base sólida.Cumpre mencionar, de Max Weber, três vinculação de ordem acadêmica e política. Uma delas era com a Evangelischse-Soziale Verein (União Social Evangélica), organismo protestante que representava uma reação à sociedade industrial e urbana, em seus primórdios, semelhantes à que o Socialismo Cristão e seus sucessores na Inglaterra e, ainda mais de perto, o Movimento do Evangelho Social, nos Estados Unidos, também caracterizaram. Em seus pontos de vista, a União concordava com atitudes de Helene Weber e dos Baumgartens. Era uma tentativa de tornar a fé e a caridade relevantes para uma sociedade transformada, mediante a administração e a previdência sociais. Max Weber era sócio fundador desde 1890 e, através dessa filiação, associou-se ao político e publicista Friedrich Naumann.Mais antiga e ilustre (datava de 1872) era a Verein für Sozialpolitik ( União Social-Política), uma das mais importantes de todas as sociedades eruditas na história das ciências sociais. Em seus primeiros tempos, a União Social-Política propôs idéias avançadas sobre política social mas, depois de 1881 e com as provisões de Bismarck no campo do seguro social, passou a interessar-se menos pela propaganda e mais com pesquisa e o debate entre acadêmicos. Durante quase toda o período em que Weber foi seu membro (1888-1920), a figura dominante dessa União chamava-se Gustav Schmoller, responsável pelo fato de a agremiação ter-se desviado da Economia técnica e teórica para se concentrar em questões da sociedade, através da história social e econômica. A União foi um estímulo às pesquisas de Weber e uma plataforma para as suas opiniões e polêmicas. Seria absurdo considerar a União não-política, depois de sua mudança de orientação política em 1881, pois as suas pesquisas não se orientavam pela ciência desinteressada, por problemas decorrentes do desenvolvimento interno das ciências sociais, mas sempre por questões de escolha ou decisão pública. Não pretendo dizer que isso se fizesse, de algum modo, através de opção e interesse inconscientes; era algo direto e deliberado.Em terceiro lugar, havia a vinculação ao Partido Liberal Nacional. Embora nacional, sem dúvida, o liberalismo dessa agremiação talvez não fosse reconhecido em qualquer outro país da Europa. Era o partido do pai Weber, que foi membro tanto da Dieta prussiana como do Parlamento imperial ou Reichstag. Quer na religião, quer na política, Max Weber sempre foi ambíguo. Apesar de toda a sua preocupação com as questões de fé e caridade cristãs, considerava-se, como ele próprio disse, "religiosamente desafinado". A respeito dos partidos políticos, era positivamente instável e pressente-se que isso não se devia apenas ao desejo de manter uma objetividade acadêmica e equilibrada. Suas dúvidas sobre os liberais nacionais são evidentes mesmo quando Weber não contava mais de vinte e três anos. Entretanto, manifestou constantemente atitudes próprias dos nacionalista liberais em relação aos problemas da política alemã, pelo que, por exemplo, pôde apoiar - e, no entanto, criticar ambiguamente - a aceitação pelo Partido Liberal Nacional das leis anti-socialistas de Bismarck. Até na súbita libertação da derrota, a partir de 1918-20, subsistiram as atitudes ambíguas, se bem que ele pareça estar agora, por fim, politicamente engajado como homem e cidadão. Quem o desejar poderá atribuir boa parte dos flertes políticos de Weber - menos uma questão de adultério que de adulteração - às dificuldades reais de seu tempo e lugar, somadas aos escrúpulos de um espírito sutilmente cônscio de todos os fios e pressões que constituem a rede da política. Parece-me, se atentarmos para todas aquelas matérias em que Weber foi claro e coerente, que isso é fazer-lhe demasiada justiça. E cumpre lembrar, é claro, que uma parte dessa culpa não cabe realmente a Weber mas àquelas autores que, desde a sua morte, têm trabalhado para fazer dele um mestre moderno não só de pensamento e cultura mas também de atitudes e ação política.
2. A Idéia de uma Ética Protestante. Apreciação da obra em pauta.
“A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” é a obra mais controvertida e excitante de Max Weber, publicado entre os anos de 1904-05. Sua tese central pretende ser esta: que a rigorosa doutrina calvinista havia criado um compromisso inexorável com a crença no dever ético que incita as pessoas a desprezar os prazeres mundanos. Logo, em face do estímulo da produção e da propriedade privada, sem a usura, o resultado foi que, nas nações protestantes, aconteceu um rápido acúmulo de capitais, que tornou possível o desenvolvimento do sistema econômico capitalista.O desenvolvimento da cultura moderna teria sofrido, portanto, uma influência causal significativa do ethos racional e da conduta ética existente nas culturas protestantes, que trouxe os rigores da ascese, presente no mundo católico medieval, para os costumes do mundo – a Reforma Protestante. Para os protestantes, a vocação humana estaria em cumprir as tarefas seculares, impostas ao indivíduo pela sua presênça no mundo. A certeza da graça, da salvação, viria por meio de uma dedicação exclusiva do trabalho, pelo qual o homem estaria condenado a seguir sozinho ao encontro de um destino que lhefora designado já na eternidade. Ninguém poderia ajudá-lo – "nenhuma Igreja, nenhum sacerdote, nenhum sacramento e, finalmente, nenhum Deus" – o que significa a eliminação da magia do mundo, isto é, o mundo foi desencantando. A fé tinha de ser provada por seus resultados objetivos, a "fides efficax", em uma intensa atividade profissional da graça – a certitudo salutis. Fundamentada num método consistente e consciente, a vida do homem protestante passa a ser completamente racionalizada e dominada pela finalidade de aumentar a glória de Deus na terra. Essa conduta ética sistematizada, metodicamete racionalizada, teria influenciado o planejamento racional da vida moderna.Pode-se dizer mesmo que Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é sua obra mais clássica de todas. Clássico é um livro que a gente lê muitas vezes e ainda deseja ler mais. Isto porque um clássico tem profundidade, eco que ressoa de uma maneira tal que cada vez que o lemos aprendemos alguma coisa nova. Na verdade, ela não é a melhor de suas obras; não é tão densa com relação as idéias como por exemplo é a sua enciclopédica “Economia e Sociedade”. Contudo, é a melhor escrita e mais acessível obra de Weber, o que talvez justifica sua grande popularidade e apelo. A outra razão é o papel que ele joga quanto aos significados teóricos em seu campo; ele oferece ao estudante iniciante em sociologia, economia ou até mesmo filosofia as melhores condições introdutórias no conhecimento dos aspetos e categorias teóricas e meta-teóricas dessas ciências. Dependendo do ponto de partida, será possível encontrar um Weber modernista ou pós-modernista; como intérprete da cultura, mas também como um analista da racionalidade.Por todas essas razões, no mundo acadêmico todos conhecem (ou pensam que conhecem) “a tese weberiana”. Tudo isso, porque é possível cristalizar o argumento em poucas palavras chaves: cada palavra no título desse livro sugere aquilo que Weber desejava desenvolver: que o protestantismo tem uma ética e o capitalismo tem um espírito; além disso, o título quer sugerir que o segundo par das palavras utilizadas emerge do primeiro par.Com efeito, a discussão inteletual que resultou dessa intuição levou mesmo à um argumento bem famoso: o de que Max Weber pôs Karl Marx em sua mão, fazendo o materialismo depender de idéias e cultura, isto é, na “ética” e no “espírito”. Hoje, essas palavras parece possuirem vida própria; é possível hoje ouvir, por exemplo, um comentador esportivo falar de “ética esportiva” de um atleta sem provavelmente saber quem é ou quem foi Max Weber.Muito poucas obras nas ciências sociais chegaram a representar essa influência popular (O exemplo mais próximo no século XX talvez sejam os termos “paradigma” e “revolução paradigmática”, cunhados por Thomas Kuhn e tão populares hoje até entre pessoas que não leram o seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”). O “Espírito do capitalismo” de Weber lembra a um sociólogo a famosa distinção que Weber fez entre “capitalismo tradicional” e “capitalismo racional”, caraterizando este último como a “gaiola de ferro” em que as pessoas vivem na sociedade moderna.
3.1- A tese da Ética Protestante
Os Estados Unidos da América, que começaram como colônias puritanas, foram, já nos dias de Max Weber, a mais capitalista sociedade em todo o mundo. Os protestantes americanos dominavam o mundo dos negócios, bem como as classes dos trabalhadores especializados até por volta de 1960. De fato, só depois desse período os católicos alcançaram os protestantes, até mesmo ultrapassando-os nas ocupações mais distintivas daquela sociedade.Pois bem; se considerarmos, como Weber faz, que existe de fato uma dependência (=nexo causal) entre o Protestantismo e o Capitalismo, como explicar tal conecção? Weber parte da interpretação da Reforma Protestante que era usual em seus dias, isto é, que ela é produto do declínio ou decadência religiosa da Idade Média. Assim, o protestantismo não teria sido um passo em direção a secularização, mas exatamente o oposto: uma acrécimo à intensidade religiosa. Também não teria sido um salto para a satisfação mundana, que já se encontrava basicamente adiantado nas sociedades renascentistas da velha Europa. Para Max Weber, a importância da Reforma Protestante foi, ao invés, o ímpeto que ele deu à combinação de piedade e negócios.Weber faz então esta distinção crucial: o capitalismo não foi inventado pela Reforma Protestante; já existia em muitas sociedades ao longo da história antiga e medieval. Haviam mercadores na antiga Grécia, mercados de escravos em Roma, toda a forma de mercantilização na China e Índia, caravanas de mercadores no mundo islâmico, e associações mercantes que dominavam as cidades da Itália, Alemanha e os Países Baixos na Idade Média. Não faltava capitalismo; o que faltava era o espírito do capitalismo e uma organização do capitalismo típico do moderno capitalismo. Weber se refere a essas duas formas de capitalismo como “capitalismo tradicional” ou puro, de um lado, e “capitalismo racional”, do outro.Para ele, no capitalismo tradicional os capitalistas tinham interesse, sim, em produzir lucro; mas não havia nada a esse respeito que poderia ser considerado como uma ética “social”. O ideal era alcançar posição ou status social e, evidentemente, dinheiro para poder sustenta-lo, e não envolver-se numa enfadonha luta para acumular dinheiro. No capitalismo tradicional o alvo é construir uma confortável vida aristocrática, e os negócios eram feitos com uma atitude de moderação, isto é, que deve ser da maneira a mais fácil possível. Os negócios mais lucrativos consistiam nas trocas comerciais de longa distância, de preferência sobre os objetos de luxo que possibilitavam maior rentabilidade: ouro, jóias, iguarias encontradas na Índia, China e Espanha. Weber chama este de “capitalismo dos cacheiros-viajantes” ou “capitalismo dos políticos aventureiros”, pois, não passava de uma forma de investimento que combina expedições políticas e militares com a espectativa de fazer lucro nos negócios. Gregos, romanos, hostes islâmicas... todos faziam dinheiro por meio da captura de escravos; outros exércitos estabeleciam plantações ou conquistavam rotas comerciais. Na versão civil do capitalismo dos políticos aventureiros, proeminente no início do período moderno na França e outros estados europeus, um investidor podia subornar oficiais do governo para partilhar de suas vantagens sociais.Capitalismo Tradicional. Weber considera todas essas formas do capitalismo “tradicional” como estando em evidente contraste com outra forma de capitalismo, o capitalismo moderno “racionalizado”. Este não é baseado no comércio de objetos de luxo, mas na produção em maça de comodidades [mercadorias] no dia-a-dia. Os comerciantes medievais buscavam fazer uma fortuna de um único carregamento de jóias; mas o capitalismo moderno faz muito mais lucro com a mercantilização massiça de produtos humildes como papéis de toalha ou pnéus de borracha. Assim, a atitude tradicional, que é a maximização egoísta do lucro numa só tacada, foi ultrapassada por uma nova atitude que repousa no acúmulo de vários pequenos ganhos. Não em preços altos ou lucros instantâneos, mas preços moderados e altas vendas são a força condutora do capitalismo moderno. É por essa razão que incidentalmente Weber, nos seus últimos trabalhos, observa que o capitalismo moderno não se conduz também nem na forma inversa: as tecnologias de produção em massa serão sempre de nenhuma utilidade conquanto não existir um grande mercado para todos os bens. Essa tecnologia não teria valor algum no comércio de objetos de luxo do capitalismo tradicional. A automação moderna é, pois, o resultado de uma revolução anterior no espírito do capitalismo. O capitalismo racionalizado diz respeito, portanto, a essas condutas mais ou menos honestas nos negócios, e não à maximização egoísta dos lucros; à produção e venda confiáveis que se transforma num sistema de produção em massa; à poupança e investimento contínuo que se transforma em crescimento de negócios.
4. Protestantismo e Capitalismo
Deixaremos de lado as inúmeras controvérsias, polêmicas, contestações e refutações que esse livro tem suscitado, para expor o mais claramente possível (espero!) o tema dessa obra e as intenções de Weber. Como já mencionei acima, constitui uma interpetação simplicista aquela que faz crer que Weber viu no protestantismo a causa do capitalismo.
Para Weber, houve embriões de capitalismo nas sociedades babilônica, romana, chinesa e hindu, mas em parte alguma esses elementos deram margem à racionalização que carateriza o desenvolvimento do capitalismo racional moderno. Este fenômeno é peculiar à sociedade ocidental. A questão é saber por que esses embriões evoluíram para o capitalismo moderno unicamente no ocidente e não em outras partes. Uma explicação puramente imanente ao econômico, no sentido em que o desenvolvimento econômico se deixaria compreender por si mesmo, é incapaz de justifica \n'; document.write(barra); } } changePage();r essa peculiaridade (Em razão disso alguns estudiosos acham que o livro de Weber é uma réplica ao dogmatismo escolástico do marxismo, por ter este acreditado que poder reduzir metafisicamente todos os acontecimentos da civilização a uma única causa: o substrato econômico que constituiria em última análise a explicação final).
Para Weber é preciso levar em conta o ethos particular dos primeiros empresários capitalistas europeus, e compreender que este comportamento justamente é que faltava nas outras civilizações. A fim de evitar qualquer mal-entendido, Weber acentua que não se deve dar à relação causal entre protestantismo e capitalismo o sentido de uma relação mecânica. O ethos protestante foi uma das fontes da racionalização da vida que contribuiu para formar o que ele chama “espírito capitalista”. Não foi a causa única nem mesmo bastante do próprio capitalismo. Cito Weber: “O principal problema da expansão do capitalismo moderno não é o da origem do capital, mas sim o do desenvolvimento do espírito capitalista” [1] . Em outras palavras, o protestantismo foi um elemento que, se o surpimíssemos em pensamento no sentido das categorias da possibilidade objetiva e da causalidade adequada, não teria sem dúvida impedido o surto do capitalismo, mas nos obrigaria a conceber de outro modo sua evolução. Notemos o comentário que R. Aron faz na sua A Sociologia Alemã Contemporânea (La Sociologie Allemande Contemporaine), à página 137:“O protestantismo não é a causa, mas sim uma das causas do capitalismo, ou antes é uma das causas de certos aspetos do capitalismo... Uma pesquisa de causalidade não toma como ponto de partida o conjunto de um fêmono histórico como o capitalismo, mas apenas certas partes deste. Neste caso, Weber escolheu os caracteres do capitalismo que lhe pareceram específicos do capitalismo ocidental... É claro, com efeito, que segundo o conceito do capitalismo que se escolher, as causas serão outras”.Qual é, pois, a base das idéias que contribuiram para formar o espírito capitalista? Weber a encontra em certas camadas protestantes calvinistas (essencialmente dos Países Baixos), pietistas, metodistas e batistas, cuja conduta da vida se caraterizava por um ascetismo que se pode designar “pela palavra ambígua de puritanismo”. Embora a dogmática teológica dessas diversas igrejas tenha sido diferente, suas máximas éticas eram mais ou menos semelhantes. O que interessa a Weber não são os ensinamentos teóricos e oficiais dos compêndios de teologia moral – podem ter importância para outro objetivo da pesquisa – mas sim as motivações psicológicas que têm sua origem nas crenças e práticas religiosas. Weber elabora essas motivações sob a forma de um idealtipo tão coerente quanto possível, sem pretender refletir com isso a realidade histórica. Portanto, ele quer compreender com esta utopia racional como essas motivações agiram na realidade para formar o espírito capitalista. Consequentemente, quando Weber fala do calvinismo, pensa únicamente na ética peculiar a certos meios calvinistas do fim do século XVII e não na própria doutrina de Calvino, que vivera cerca de 150 anos antes. De nada adiante, pois, mostrarem-lhe os próprios textos de Calvino: seria fugir do assunto tratado por Weber. Pode-se constatar isto em duas partes da obra : entre as páginas 72-83 e 109-113.O Ideal-tipo do ethos peculiar a esses meios pode-se resumir da seguinte maneira: na base se acha uma interpretação da predestinação, portanto, uma convicção religiosa. Como os desígnios de Deus são tão impenetráveis quanto irrevogáveis, a ponto de ser impossível perder a graça, uma vez que ela foi concedida, quanto ganhá-la se foi recusada, o protestante de quem se trata se dedica à vida interior, pois é em seu próprio espírito e não por intermédio de outro ser humano que ele deve compreender a palavra de Deus e o sinal de sua eleição. Isso explicaria a rejeição do sagrado e sobretudo dos sacramentos que poderiam ajudá-lo a encontrar ou a reencontrar a graça. Essa convicção leva a eliminação de toda a magia, à um desencanto do mundo graças à racionalização crescente. Como saber, entretanto, que se pertence à categoria dos eleitos? Qual é o sinal?Assim como a verdadeira fé se reconhece pelo tipo de conduta que permite ao cristão aumentar a glória de Deus, ele acredita encontrar esse sinal em uma vida pessoal rigorosamente submetida aos mandamentos divino e na eficiência social correspondente à vontade de Deus. Esta eficiência social compreende o êxito na atividade profissional. Assim, o trabalho mais eficaz é manifestação da glória de Deus e um sinal da eleição baseada na vida vivida de maneira ascética. Psicologicamente, essa manifestação da confiança de Deus pelos êxitos que ela concede aos homens é o meio de reagir contra a angústia da salvação. Em outras palavras, o êxito no trabalho confirma a vocação pessoal e se deixa interpretar como uma justificação da eleição, pois só o eleito possui verdadeiramente a fides efficax. Não se poderia, pois, comprar a própria salvação com boas obras ou sacramentos, mas adquire-se a certeza dela graças à eficácia da fé comprovada pelo êxito de nossos laboriosos empreendimentos. O êxito social nessas condições só fez reforçar o rigor da conduta pessoal e transformar o asceticismo no método capaz de assegurar o estatuto da graça. Não é renunciando ao mundo à maneira do contemplativo, mas, sim, exercendo um ofício no século, que se prova a própria fé.Para Weber, a conduta ascética contribuiu para uma formulação racional da existência toda, relacionada com a vontade de Deus. O constante domínio de si mesmo por uma vontade metódica teve por efeito racionalizar o comportamento individual até mesmo na gestação dos negócios. Assim, o puritano se tornou particularmente apto a organizar as empresas e do mesmo modo a racionalizar a economia. Entretanto, como o êxito profissional se traduz geralmente por uma acumulação da riqueza, que é contrária ao rigor da vida submetida aos mandamentos de Deus, não caía o protestante desse tipo em uma contradição? De maneira alguma, diz Weber.O que é condenável não é a riqueza, mas sim o repouso na posse e no gozo dos bens com suas consequências, como a ociosidade, as tentações da carne, etc. Não se deve, pois, desperdiçar o tempo, já que o trabalho concorre para a glorificação de Deus; e por outro lado, só se deve tirar do adquirido aquilo que é absolutamente necessário para a subsistência pessoal, para uma vida sóbria e de respeito a lei divina. Assim, a produtividade maior no trabalho e a recusa do luxo deram origem, para Max Weber, a um estilo de vida que influenciou diretamente o espírito do capitalismo, criando um clima propício a seu desenvolvimento. O fato de terem os capitalistas de hoje rompido com essa moral não impede que de início o ascetismo protestante, agindo no seio do mundo, se tenha oposto ao gozo das riquezas, desembaraçando por outro lado a moral da proibição tradicional contra o desejo de aquisição e de lucro.Para deixar ao trabalho seu caráter de manifestação da glória de Deus, era preciso empregar o lucro em fins necessários e úteis, isto é, faze-lo reverter ao trabalho sob forma de investimento. Assim, o puritano foi levado a acumular capital incessantemente. Estamos, pois, em presença não da causa do capitalismo, mas, sim, de um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo moderno, fundamentado em uma conduta e uma organização racionais dos negócios. O ethos do puritano não passa jamais de um dos fatores que permitem compreender o surto do capitalismo por causa do clima que ele introduziu no mundo do trabalho. Para mostrar quais foram suas intenções ao escrever a obra em pauta, Weber acrescenta, concluindo:“É, porventura, necessário protestar que nosso propósito não é absolutamente substituir uma interpretação causal exclusivamente “materialista” por uma interpretação espiritualista da civilização e da História, que não seria menos unilateral? As duas pertencem ao domínio do possível; e se não se limitarem ao papel do trabalho preparatório, mas pretenderem oferecer conclusões, uma e outra servem igualmente mal à verdade histórica” [2].Para bem compreender a significação desta obra de Weber, é preciso ainda ter em mente a teoria da unilateralidade que ele desenvolveu a propósito da exposição da noção do tipo ideal (idealtipo). Não é vedado ao cientista social colocar-se em um ponto de vista unilateral, quer seja de caráter materialista, espiritualista ou outro. Às vezes esse processo não é somente útil, mas chega a ser necessário. Entretanto, este método só é cientificamente válido se levar em conta a relatividade do processo e a sua validade puramente metodológica na esfera da pesquisa. Não passa, pois, de uma aproximação da verdade; não é a descrição integral do curso real das coisas. Além disso, Weber tenta acentuar outro ponto à luz desta análise: assim como o dogmatismo que subordina a religião ou a política à economia, e, inversamente, não tem lugar em uma disciplina empírica, a sociologia da religião não poderia limitar-se a uma estrita explicação do fenômeno religioso por si mesmo. Seu trabalho consiste em apreender ao mesmo tempo como a conduta religiosa orienta ou condiciona em parte as outras atividades humanas e respetivamente se acha condicionada por elas. O mesmo acontece com a sociologia econômica, política, jurídica e outras (=tipo ideal). Com efeito, na vida concreta o comportamento ético, por exemplo, nunca é uma atividade fechada ao lado do comportamento político ou econômico. Ao contrário, um mesmo comportamento manifesta correlações, reciprocidades ou conflitos com todas as espécies de atividades. A análise das relações entre o puritanismo e o capitalismo não é, afinal de contas, senão uma ilustração sugestiva desse estado fundamental de coisas, pois mostra como uma atitude cujas fontes são religiosas determina um comportamento moral que, por sua vez, encontra campo de aplicação nos negócios profanos.WEBER, M. Ética…, p. 72 (tradução francesa: J. Chavy, Paris: Plon, 1964).Ibid., pp. 248-9