EXISTÊNCIA E ÉTICA EM KIERKEGAARD

ÉTICA E EXISTÊNCIA EM KIERKEGAARD

Esta é a segunda parte deste estudo. Para ler a primeira parte clique aqui

©Zakeu A. Zengo

 

III. ÉTICA E ETICIDADE

É preciso antes de mais nada afirmar que Kierkegaard nega a  doutrina racionalista  da unidade do ser e pensamento, de Hegel. Ele julga mesmo impossível que se possa distingüir, no reino do pensamento puro, ambas as coisas. No Fragmentos não Científicos justifica da seguinte maneira o seu raciocínio:

A triunfal vitória do pensamento puro no qual o ser e o pensamento são uma mesma coisa, é algo para fazer rir e chorar ao mesmo tempo, já que no reino do pensamento puro não é sequer possível a distinção de ambas coisas. Que o pensamento tem validade, isto foi aceito até pela filosofia grega sem discussão. Mas refletindo sobre o assunto, qualquer um chegaria ao mesmo resultado. Entretanto, por que confundir a validade do pensamento com a realidade? Um pensamento válido é uma possibilidade, e toda a pergunta ulterior sobre se é ou não real deveria ser combatida como improcedente. [64]

Deste modo, para ele o pensamento é apenas ideal, pura inteligibilidade, e portanto completamente diferente de existência. Mas como ele está relacionado com a existência que não pode pensar? Kierkegaard não tem dúvida de que o indivíduo existente é que pensa de maneira intermitente. Ele pensa sempre, antes e depois, e seu pensamento é apropriado à sua existência e válido para a mesma.

A ocupação fundamental do pensamento é a existência pessoal do pensador, e este está relacionado com toda a outra realidade apenas em termos de possibilidade. A única coisa de que realmente deve se preocupar a razão, relativamente ao ser, é a realidade ética de cada indivíduo. O indivíduo que está sob a obrigação de ter que existir por si mesmo. Mas por outro lado, indivíduo também não é algo definível, apenas pode ser conhecido por si mesmo desde o seu interior. Seu ser, pois, é o primeiro objeto do seu pensamento, pelo qual ele julga as demais as coisas. Assim chega Kierkegaard ao cerne do problema da ética e da eticidade, com uma socrática justificação mais ou menos complexa:

Sócrates foi um homem cujas energias estiveram dedicadas a pensar, mas reduziu todo o outro conhecimento à indiferença ao acentuar infinitamente o conhecimento ético. [...] Fazer da realidade ética do sujeito a única realidade pode parecer  coisismo. A circunstância de que tal pareça assim a um pensador atarefado que o explique por completo, a uma mente ágil que revise rapidamente o universo inteiro, prova sinceramente que tal pensador tem uma idéia humilde a respeito daquilo que o ético significa para o sujeito. Se a Ética estivesse a ponto de dissipar o mundo inteiro à esse pensador, deixando-lhe conservar o seu próprio eu, ele provavelmente consideraria que tal bagatela não valia a pena e se deixaria conduzir  como os demais, e deste modo o seu “eu” se faria coisismo. Mas, porque considera ele tão superficialmente o seu ser? Se nós disséssemos que ele tinha que abandonar o mundo inteiro para contentar-se com a realidade ética de outra pessoa, teríamos razão ao considerar a mudança como uma perda absoluta. Mas sua própria realidade ética, por outro lado, tinha que significar para ele mais que “o céu e a terra e tudo quanto há neles”, mais que seis mil anos de história humana, mais que a astrologia e as ciências veterinárias uma vez que tudo o que já foi e que a época pede, é estética e intelectualmente uma enorme vulgaridade. E se não é assim, pior para o próprio indivíduo, pois não tem nesse caso absolutamente nada, nem a mais mínima realidade, pois com todas as demais coisas a relação máxima alcançável é apenas a possibilidade. [65]

A pergunta que se impõe então é a seguinte: o que se entende por esta realidade ética do sujeito, já que “a dificuldade que advém do indivíduo existente é como dar a sua existência a continuidade, sem a qual tudo simplesmente se desvanece”? [66] Kierkegaard não tem um resposta fácil e pronta. Mas mergulha no recôndito mundo interior do indivíduo para pensar sua realidade ética.

Sua resposta é: “a meta do movimento para um indivíduo existente é chegar a uma decisão e renová-la” permanentemente. E mais adiante: “esta realidade ética é a única realidade que não se converte em mera possibilidade a ser conhecida, e que unicamente pode ser conhecida ao ser pensada; pois é a própria realidade do indivíduo”. E conclui:

Quando penso em algo que me proponho a fazer, mas que não é feito, o conteúdo desta concepção, não importa quão exato possa ser, se tivesse tido tanto direto a ser chamada uma realidade concebida, é uma mera possibilidade. Inversamente, quando penso em algo que outro fez e assim concebo a minha realidade, elevo esta realidade tirando-a do real para a fixar dentro do possível; pois, uma realidade concebida é também apenas uma possibilidade, e é superior a realidade do ponto de vista do pensamento, mas não do ponto de vista da realidade. Isto implica que não há relação imediata alguma, eticamente, entre sujeito e sujeito. Quando eu entendo a outra pessoa, sua realidade é uma possibilidade para mim, e em seu aspecto de possibilidade, esta realidade concebida se refere precisamente a mim como o pensamento de algo que não fiz e que está referido a sua execução. [67]

Deste modo Kierkegaard não só inclui a realidade história na concepção ética da existência, mas também considera sua decisiva influência ética sobre a conduta como independente da pergunta acerca da sua facticidade. De um modo ou de outro, o indivíduo torna-se sujeito ao desespero da angústia das possibilidades não realizáveis.

3.1- Ética e desespero

A concepção ética em Kierkegaard é exposta em pelo menos três tratados de sua obra geral. O primeiro, escrito sob o pseudônimo de Vítor Eremita, é Estudos no Caminho da Vida, com o subtítulo de Considerações de um homem casado sobre o matrimônio: respondendo às objeções [68] ; a segunda é A Alternativa, de onde também constam duas suas outras memórias sob o nome do acessor Wilhelm, chamados Valor Ético do Matrimônio e Equilíbrio da estética e a ética na formação da personalidade.

Kierkegaard pensa que o salto entre os estádios existenciais em geral comporta a categoria do desespero. Há pelo menos três formas de desespero: o desespero-em-debilidade, que carateriza o homem que vive na ignorância do seu ser espiritual, do absoluto que o homem pode e deve chegar a ser; o desespero-reto, que é o desespero em relação a eternidade, aquele em que o desesperado abusa da eternidade inerente ao seu eu, e o desespero demoníaco, o da repulsa e da negação pura, aquele em que o homem, ainda que ciente dos tormentos que o aguardam na eternidade de sua pós-vida, prefere ser ele mesmo mas nunca disposto a pedir auxílio [69] .

Os verdadeiros desesperados não são aqueles que têm consciência do próprio desespero, nem os que se confessam desesperados. Pelo contrário, são aqueles que ignoram o desespero, os que escondem para si mesmo o próprio desespero, os que querem desesperadamente dispor de si mesmos [70] .

 Para Kierkegaard o desespero é uma doença mortal quando seu resultado é a sujeição do homem ao seu eu desesperado, fazendo-lhe desesperar de si mesmo relativamente ao eterno. Quando o desespero humano é relativo ao problema da eternidade, do absoluto último suposto pela natureza do ser, ele se torna inevitavelmente mortal mesmo na morte. Ou seja, nem a morte mesma pode livrar o homem desse desespero, posto que ele é um fim sem fim. Nele a morte é justamente o não poder morrer, o unificar-se com o eu desesperado, do qual se torna impossível separar-se jamais.

Ao nível da ética o desespero é a porta para a grandeza quando ela é a negação absoluta e definitiva do finito, isto é, de todos os gozos que a estética oferece. Aqui, quem escolhe o desespero se escolhe necessariamente a si mesmo, não no imediato e como indivíduo acidental – o que é próprio da estética -, mas se escolhe a si mesmo em seu valor eterno [71] . Para Kierkegaard isto é verdade também com relação ao desespero nascido do sentimento do pecado total que constitui a natureza. Em suas considerações teológicas ele o considera como algo que conduziria a Cristo e à certeza do seu perdão. É na concreção da salvação reside o desespero como realidade extinta.

É na consciência que o desespero cresce em profundidade, do mesmo modo que a consciência cresce em intensidade com o desespero. Observa Kierkegaard que até o desespero-reto, que é o desespero elevado ao seu mais alto grau de intensidade, é raro no mundo, tão raro como a aguda consciência de si mesmo e da eternidade que há no homem. Mas isto não eqüivale a dizer que a maioria dos homens não estão em desespero nem que, por assim dizer, que o pecado não exista. Na realidade, para ele a imensa maioria vive em desespero, embora sentido apenas num nível bem inferior. Este é, exatamente, o estado mais grave de desespero que existe.

Para Kierkegaard a maioria dos homens vive uma vida separada do bem, uma existência completamente a-espiritual a tal ponto que nem faria sentido chamá-los de pecadores. E pelo fato de que a categoria do desespero vem junto com o mal, mesmo não reconhecido, Kierkegaard sustenta que em tal estado de existência todo o mal consiste em deixar-se viver completamente desprovido de espiritualidade, ou seja, apenas totalmente ligado ao temporal. “É, pois, um destino que se sofre mas não se quer? De modo nenhum.  Isto não é próprio do homem na medida em que ninguém nasce ser a-espiritual e, por numerosos que sejam aqueles que na hora da morte não levam consigo outra coisa como resultado de sua vida, a culpa não deve achacar-se à vida” [72] .

Posto que o desespero de muitos aumenta na ausência dele, o pecado ou o mal consiste igualmente na ausência mesma do pecado. Mas isto não quer dizer que haja algum mérito em se ser verdadeiro pecador, ou em levar o desespero à intensidade do desespero reto. Para Kierkegaard o mal autêntico consiste, sim, em deixar-se em tal estado de ignorância em que se perde a consciência dos próprios atos e da própria qualidade moral. Deixar-se arrastar, pouco a pouco abaixo do que é autenticamente humano, até à situação em que se torna impossível discernir o bem do mal.

O desespero é, por isso, também dialético e se abre para direções diversas. Não é um valor totalmente negativo, pois tem sua virtude. Envolve a salvação e a perdição, o orgulho diabólico e a humildade cristã, o abandono e a eleição, a verdade e a mentira, a eternidade e o tempo. O desespero estabelece uma fronteira. Tudo na vida depende da maneira de desesperar-se. Se o desespero não consegue provocar uma ruptura no fundo da alma e conduzir ao amadurecimento, o indivíduo está inexoravelmente perdido. Mas se o desespero força a alma a reunir seus últimos recursos, a “desesperar na verdade”, então ela desperta na consciência o próprio valor eterno, rompendo assim o círculo do finito.

Desse modo, o que importa é desesperar verdadeiramente. Para Kierkegaard é preciso desejar o desespero com sinceridade. Isto porque quem o deseja verdadeiramente, ao mesmo tempo também se liberta do desespero. Como ele afirma, “quando se escolheu de verdade o desespero, se escolheu também com toda a certeza o que escolhe o desespero: sua própria pessoa em seu valor eterno” [73] .

3.2- A primazia do dever

A especificidade do que é ética se torna ainda evidente da diferença deste estádio com o estádio primário da estética. Com efeito, o homem estético anda em busca de sensações e tudo aquilo que tende ao prazer. Contrariamente, o homem ético, que estabelece a moral como seu princípio de conduta e como último fim de sua atividade, canaliza seus esforços ao cumprimento do dever.

Segundo Kierkegaard, para o homem ético “o essencial não consiste em agir livremente contra o dever, mas em haver comprovado definitivamente a intensidade do dever de tal maneira que ele convenha ou não ao que é eterno no eu” [74] . O ético  tem por certo a coerência íntima e a clareza interior, enquanto o estético se entregou à anarquia e a instabilidade. Obedecendo ao absoluto do dever, que se converte em seu dever pessoal e próprio, o homem pode esperar realizar a “síntese do geral e do particular.

Aprendemos que o dever, o que se requer de mim, é o geral, e o que eu possa cumprir é o particular [...]. Precisemos. Jamais digo de um homem que cumpra o dever ou os deveres, senão o seu dever; eu digo: cumpro meu dever, cumpre tu o teu. Isto demonstra que o individual é por sua vez geral e particular. O dever é o geral que se exige de mim; se não sou, pois, o geral, não posso tão pouco cumprir o dever. Por outra parte, meu dever é o particular que me concerne exclusivamente e, não obstante, é o dever e em conseqüência o geral. Aqui a pessoa adquire seu valor supremo. Aparece como síntese do geral e do particular [75] .

É por essa síntese que para Kierkegaard se cumpre o dever pessoal em cada indivíduo. Do ponto de vista ético isto eqüivale a dizer que a existência de uma ordem racional de coisas em que cada um, quando quer, ocupa seu posto de tal forma que expressa de cada vez o humano em sua generalidade e individualidade. Aquilo que um estético considera meio para o gozo e como princípio de todos os diretos, se torna, no ético, uma vocação, uma carga e um dever [76] . Pela mesma razão a vocação aperfeiçoa também a unidade moral dos indivíduos que, por muito diferentes que sejam entre si, e mesmo não existindo uma medida comum aplicável a todos, encontram-se submetidos a igual lei universal do dever e, neste sentido, aos mesmos deveres.

3.3- A categoria do geral

Kierkegaard faz consistir o estádio ético completamente em categorias absolutamente gerais. O que é próprio dessa ética é considerar o fazer. E se não o que todo o mundo faz, ao menos aquilo que todo o mundo pode fazer. Em Temor e Tremor Kierkegaard explica melhor a noção dessa acertiva:

O moral é, como tal, o geral e, por essa razão, o que é aplicável a cada um; o que por outro lado pode expressar-se dizendo que é aplicável a cada instante. Descansa imanente em si mesmo, sem nada exterior que seja o seu telos, sendo ele mesmo telos de tudo quanto lhe é exterior; e uma vez que se lhe integrou, não vai mais além. Posto como ser imediato, sensível e psíquico, o individual é o indivíduo que tem seu telos no geral; seu trabalho moral consiste em expressar-se constantemente nele, em despojar-se de seu caráter individual para chegar a ser o geral. Desde o momento em que o indivíduo reclama sua individualidade frente ao geral, peca, e não pode reconciliar-se com o geral senão reconhecendo-o. [77]

Portanto o geral e subsume o particular no sentido da ética da existência. Nada há mais monótono, abjeto ao espírito, do que aquilo que teme que a vida chegue a perder sua sedutora multiplicidade, e que dure tanto tempo quanto aquele que permanece submetido a variedade das categorias estéticas.

Para ele a repetição ética não é mecânica. Para o indivíduo o nervo da vida moral consiste em repetir com espontaneidade sempre renovada gestos que do exterior parecem uniformes e impessoais. Por isso o ético se instala preponderantemente no geral. Se individualiza no geral, renovando o comum e personalizando a repetição até estabilizar o presente.

A ética é questão de seriedade, mas não uma seriedade dada pelo temperamento, mas uma que cada um pode e deve adquirir e que substitui a continuidade tranqüila e firme da duração no lugar do tempo pontual e agitado do estético. Em A Alternativa ele observa que é preciso ter paixão para viver no geral e não nas diferenças: “quando o ético cumpriu seu dever, lutou o bom combate, o indivíduo chegou a ser único; ou seja, nada mais é como era, e ao mesmo tempo ele se torna genial. Ser o homem único não significa em si um estado muito elevado, pois todo o homem tem isto de comum com toda a produção da natureza; mas sê-lo de tal modo que seja ao mesmo tempo o geral, constitui a verdadeira arte da vida” [78] .

A existência estética é tributária da natureza do imediatismo, do qual o estético não consegue distanciar-se. Mas permanece sob a dominação completa dos sentidos e dos sentimentos. O indivíduo sente que é capaz de infinita subjetividade, mas na realidade “só consegue construir um mundo ilusório que é negado pelos critérios da própria subjetividade” [79] . Por essa razão, o estádio ético não é só o intermediário e ponto mais decisivo da existência humana, mas também é evidentemente superior ao estético.

Com efeito, é da existência estética que a ética redime os valores mais reais, pelos menos aqueles que o estético persegue com paixão, embora sem êxito sólido e duradouro, que são a beleza e o equilíbrio harmônico da existência. Mas, por outro lado, se apenas redimisse tais valores e os projetasse na existência em sua estrutura bruta, isto é, como passionalmente apreciados pelo senso estético, o estádio ético seria apenas um paliativo para o primeiro. Sua existência autônoma no entanto é justificada pelo fato de que ele transforma e tem de transformar os valores para uma nova aplicação na existência.

Tais valores eticamente concebidos, se transformam em bens absolutos que implicam uma eleição absoluta. Esta no entanto não implica a exclusão do estético, posto que “no ético a personalidade está centrada em si mesma; e do ponto de vista do absoluto o estético se torna excluível como absoluto, mas desde o ponto de vista do relativo subsiste sempre” [80] .

Mas a existência ética considerado em si mesma é problemática. Com efeito, para Kierkegaard o lema da ética é cum pietate felicitas. Assim como esta divisa sugere, a ética é uma atitude que descobre o sentido da vida na alegria da ação, na convicção de obter a felicidade pela generosa obediência ao dever. Mas disto se segue também que quando a felicidade desaparece, a ética deixa de subsistir.

A ética, por ser parte do geral, fomenta a tendência que existe em cada um de nós a perder-se nas massas, a ser um elemento passivo entre a multidão, até trocar a própria ética pela da multidão. Portanto, tudo que o que essa ética proporciona não tem nada a ver com a Moral. Pela mesma razão a maneira de pensar do indivíduo nada terá também, em absoluto, de moral; é puramente estética, pois, como observa no Diário, ele apenas “admira tudo o que é poder, astúcia e egoísmo, porque com isso se ganha dinheiro, honra e estima” [81] .

A propósito do tema da ética Jolivet cita uma passagem do texto La pureza de corazón onde Kierkegaard parece justificar nosso raciocínio:

A opinião da multidão tem sua importância; não se deve ignorá-la orgulhosamente; Não. É preciso prestar-lha atenção; e com tal atitude, em que, sinceramente, se toma a precaução de agir ao revés, se obtém uma grande probabilidade de estar no certo; e se se começa a agir contra a opinião e por destino, mesmo quando tivermos que nos ver diante dela, podemos abrigar a certeza de estar no bom caminho; então não só se examinou e experimentou profundamente a própria convicção, mas também que, ademais, possui a vantagem da contraprova legal, que sem dúvida nenhuma fere, mas ao ferir mostra que se anda pelo verdadeiro caminho de honra e da vitória. [82]

 Pois bem, pela sua essência então o ético se dirige tanto ao geral quando ao individual. Isto posto, parece que estamos diante de um problema: em que sentido, então, Kierkegaard reduz o ético ao geral? Uma solução reveladora foi dada por Jolivet em seu estudo do pensamento de Kierkegaard. Para ele, “quando Kierkegaard reduz o ético ao geral, atende possivelmente mais ao fato do que ao direto” [83] . Além disso, o próprio Kierkegaard observa no Post-scriptum que

a ética tem sobre cada ser existente uma exigência irrecusável, porque quanto faz um homem no mundo, ainda que seja o mais assombroso, está sujeito não obstante à precaução, a não ser que tenha voltado sua eleição eticamente clara a si mesmo e que tenha clarificado eticamente sua escolha. Com efeito, a qualidade ética é severa para si mesma e menospreza a quantidade, por prodigiosa que seja. [84]

No mesmo lugar Kierkegaard declara em termos mais salientes que “a ética é contínua, sendo a mais poderosa palanca consignada a cada homem. A ética é como a respiração eterna em meio a solidão” [85] . Ela é a certeza única e concentrar-se nela constitui o único dever que não se transforma no último momento em hipocrisia. Estar nela é a única ciência assegurada e garantida por uma coisa distinta dela mesma.

No entanto, quando o que se faz é seguir a maioria, a norma ética tende a cada vez mais coincidir com a opinião comum, ou, mais precisamente, com os costumes. Por isso, diz Kierkegaard, “quando continuamente a atenção se ocupa do contingente, deste bazar por meio do qual as figuras histórico-mundiais chegam a sê-lo, é possível facilmente desejar-se induzir a confundir isto com a ética, coquetear de uma forma malsã e covarde com o contingente” [86] .

Mas, voltando ao indivíduo, Kierkegaard acredita que a ética é incapaz de solucionar os casos que incluem o excepcional. Enquanto ela pode resolver os problemas individuais pelas vias comuns, o Individual conserva sempre o que em direto se chama a generalidade de uma “espécie”.

3.4- Ética e o conflito entre o interior e a exterioridade

Como já insinuei, o estádio ético consiste mais precisamente em afirmar a identidade entre a interioridade e a exterioridade, a necessidade da revelação de si e da realização do geral que se concretiza no dever concreto, ou seja, a própria tradução da interioridade em termos exteriores. Para exprimir-se moralmente, o Indivíduo deve manifestar-se na exterioridade pela integração num conjunto concreto.

Kierkegaard reconhecia ainda que se de um lado o Indivíduo é composto de muitos fatores que têm por força propulsora as opções livres, por outro, existem forças que ele próprio não criou e às quais é submetido até contra a vontade. Só o homem que vive conforme as exigências do estádio ético tem o centro de toda a realidade em si mesmo (ao contrário, por exemplo, do esteta que a tem fora de si). Por isso o viver estético é um viver atarefado. O Indivíduo que vive eticamente mantém, com fidelidade, seu olhar fixo na missão que lhe foi confiada na vida e na História. [87]

Por outro lado a ética é o estádio das liberdade responsável. A solução que Kierkegaard propõe para superar o desespero interior que governa a existência do homem estético é a auto-orientação para a liberdade responsável. É graças essa liberdade que o homem toma consciência das influências que, não sendo possível modificá-las, pode incorporar ao presente pelo qual assume suas responsabilidades. Nesse sentido, liberdade dependência se tornam forças complementares no estádio ética da existência.

E embora Kierkegaard admita absolutos, ele nega a vida baseada em absolutos morais. Existem certos casos em que a ética é impotente em absoluto e outros em que não se encontra regras de conduta. Nestas situações a ética, instigada pela aparente firmeza do dever, chega apenas a ser uma grande tentação. Pois, “para quem já teve a interioridade de abraçar com paixão infinita a ética, o dever,  e de penetrar no valor eterno do geral, não pode existir no céu, na terra ou no abismo, outro horror comparável ao de um combate no qual a ética seja a tentação” [88] .

Inspirado no seu caso com Regina Olsen, explica na Repetição que ele cria de boa fé que amava Regina e ela estava disposta a casar-se com ele. Isso o impediu de se dar conta que amava nela apenas outra coisa distinta, a saber, a Idéia ou Deus. Por isso, foi incapaz de resolver o drama da separação apenas recorrendo ao geral. O geral lhe aconselhava a seguir o costume e casar-se com Regina. Isto era irrealizável a seus olhos, pois não poderia casar-se sem enganá-la quanto a autenticidade do seu sentimento. Por isso Kierkegaard pergunta: o que é possível fazer? Conclui que qualquer ação moralmente justificada havia se tornado inautêntica. A razão e a moral estavam derrotados, e tudo que sobrara e que sobra ao moralista é o desespero e a morte.

As exigências da ética tornam o Indivíduo consciente de suas falhas sem lhe proporcionar uma nova existência. Na verdade, em razão de sua pertinência ao geral, ele aprofunda inevitavelmente a consciência do conflito real entre o universal e a interioridade da subjetividade.

Por isso Kierkegaard reconhece no estádio ético impulsos que dialéticamente exigem a superação desse mesmo estádio, porque nele o Indivíduo, além de sentir uma auto-suficiência total, também se considera responsável por coisas que na realidade ultrapassam o seu controle. A ética então seria a única forma de existência exclusiva se o Indivíduo pudesse se realizar na plenitude da lei levada ao pé da letra. Se assim fosse outro salto para outra existência mais geral seria desnecessário.

CONCLUSÃO

O pensamento de Kierkegaard é rico sob vários aspectos. Ele nos apresenta uma filosofia da existência que salienta a existência como momento dramático, fusão entre o universal e o particular, tensão entre o racional e o irracional, entre a liberdade e o determinismo, entre a individualidade e as exigências da coletividade, entre a obrigação moral e a falta de responsabilidade, entre a explicação abstrata e o mistério individual que nós somos.

Desse modo, nele a filosofia tanto é uma expressão da vida quanto meio de que nos servimos para vivê-la, de forma que não pode ser apenas um sistema objetivo e abstrato que se olha de fora; mas uma realidade viva e pessoal, uma realidade que aprecia no seu justo valor os homens concretos, os homens virtuosos, os covardes e heróis, exatamente porque é desses elem

entos que é constituído o ápice de nossa existência.

Por outro lado, sua exigência se resume na necessidade que cada época sente de valores ético-existenciais mais fortes do que os simplesmente racionais ou estéticos. Kierkegaard responde a uma necessidade de nossa época que não é só religiosa. Aprofunda o drama da existência num pensamento apaixonado e dramático, que exige de cada indivíduo a harmonia dos atos com o pensamento. Foi assim que combateu Hegel como arauto de uma Filosofia que se fecha e se desenvolve à margem da vida, sem ter em conta a verdade interior.

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[64]

KIERKEGAARD, S. Concluding Unscientific Postcript, p. 54               
[65]
Ibid., pp. 67,68
[66]
Ibid., p. 320
[67]
Ibid., pp. 284,285
[68]
Trata-se de um manuscrito publicado como obra póstuma em 1787.
[69]
Cf. KIERKEGAARD, S., The Concept of Dread, p. 177
[70]
Cf. Ibid. p. 203
[71]
KIERKEGAARD, S., LA Alternativa, p. 184
[72]
Idem, Tratado del Desesperación, p. 203
[73]
Cf. Idem, LA Alternativa, p. 189
[74]
Ibid., p. 237
[75]
Ibid., p. 235
[76]
Ibid., p. 260
[77]
Idem; Fear and Trembling, p. 82
[78]
Idem; La Alternativa, p. 208
[79]
Ibid., p. 16
[80]
Idem, La Alternativa, parte II, p. 157. No original espanhol o mesmo texto é seguinte: “En lo ético la personalidad está centrada en sí misma; desde el punto de vista de lo absoluto, lo estático (sic) queda, pues, excluído como absoluto, pero desde el punto de vista de lo relativo subsiste siempre”.
[81]
Idem, Diary (1850, edição de Haeker), p. 155
[82]
Idem, La pureza de corazón, p. 209. Citado por JOLIVET, R., op. cit., p. 200
[83]
JOLIVET, R., op. cit., p. 200
[84]
KIERKEGAARD, S., Post-criptum, p. 87
[85]
Ibid., p. 99
[86]
Ibid., p. 88
[87]
Cf. GILES, R.T., op. cit., p. 21
[88]

Ibid., p. 172

 

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